Ir ao mercado e sair com apenas algumas sacolas já virou rotina. Fazer o rancho do mês está cada vez mais complicado. Isso porque, no acumulado dos últimos 12 meses, a alta no preço dos alimentos foi superior a 7% no País — bem acima da inflação média, que está em 4,5% segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Mas o aumento no preço de alguns produtos está muito maior do que isso. O café moído, por exemplo, subiu 50% em um ano e já está sendo vendido a R$ 50 o quilo. O frango também, com uma elevação de 10% ao consumidor. Até o pão francês, nosso famoso cacetinho, ficou quase 5% mais caro ao longo do último ano (confira a tabela abaixo).
E os novos patamares de preços dos alimentos devem continuar ao longo de 2025. De acordo com o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado d Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, mesmo com a previsão de safras recordes e dólar em queda, a inflação deve seguir assombrando os brasileiros pelos próximos meses. “Não são só os alimentos que estão mais caros, tudo está mais caro. Isso porque inflação significa o aumento generalizado dos preços. Não é um segmento A ou B, é tudo”, explica.
O economista defende que uma boa safra, como a estimada para o Brasil neste ano, não basta para reduzir o preço ao consumidor final. “Uma colheita recorde diminui o preço para o produtor, mas não para a população. Nesta conta, temos que colocar o preço dos combustíveis, da energia elétrica, do processamento. E, como eu disse, inflação é o aumento generalizado dos preços. Não é algo apenas dos alimentos”, reitera.
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Para Antônio da Luz, apenas o ajuste fiscal será capaz de frear o aumento da inflação no País. “Cabe a população cobrar os governos para que ajustem as contas públicas. Sem isso, não adianta uma safra recorde ou um câmbio mais favorável. Não há milagre”, defende.
Sem alívio no horizonte, o jeito é ficar de olho nas promoções e garantir o melhor preço possível. É assim que faz a aposentada Ema Meli Martins, 66 anos, de São Leopoldo. Para garantir as compras do mês, ela e o filho Régis Brum Martins Pinto, 47, estão sempre atentos aos preços e as promoções. “Às vezes, o mesmo produto tem diferença de quatro a cinco reais. O que faz uma diferença e tanto no fim do mês”, conta Régis.
O morador de São Leopoldo, José Vanderli da Rocha, 70, não esconde o espanto com o preço do café. “A sorte é que eu não tomo muito. Mas está tudo mais caro, a carne então, tá difícil”, reclama.

*Dados do IBGE de jan/24 a jan/25
Safra recorde não garante preço menor
A safra brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas deve alcançar um recorde de 325,3 milhões de toneladas em 2025, de acordo com a estimativa de janeiro do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), divulgado pelo IBGE nesta quinta-feira (13). Este resultado é 11,1%, ou 32,6 milhões de toneladas, maior do que a safra obtida em 2024 (292,7 milhões de toneladas) e 0,8% maior (1,7 milhão de toneladas) do que o prognóstico de dezembro de 2024.
Mesmo com a boa notícia em nível nacional, o economista Antônio da Luz reitera que os preços não vão cair. Isso porque, segundo ele, não se trata de uma inflação de oferta. “O que vivemos hoje é uma inflação de demanda, e ela é gerada por uma questão macroeconômica, resultado do gigante desequilíbrio econômico”, explica.
O café é outra história
No caso do aumento do preço do café, o economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz, explica que, neste item, o problema é realmente a safra. Com uma demanda em alta e uma quebra na produção, por questões climáticas, a oferta de grãos está disputada no mundo todo. E a previsão é de que o preço ainda aumente 25% para o consumidor final nos próximos dois meses.
IPCA chega a 729,57% em 20 anos
De acordo com dados do IBGE, o acumulado da variação do IPCA desde 1994, quando foi instituído o Plano Real, até janeiro de 2025 chega a 729,57%. Segundo Antônio da Luz, caso a renda do trabalhador não tenha acompanhado a inflação, o poder de compra reduziu na mesma medida. “Por isso que batemos tanto nesta tecla do ajuste fiscal. Sem ele, a inflação aumenta e corrói o valor do dinheiro de todos os brasileiros”, frisa.
Supermercados percebem impacto da inflação nas compras
Em nota, a Associação Gaúcha de Supermercados (Agas) informa que os supermercados estão buscando diversificar fornecedores, aumentar os volumes de compras e barganhar melhores preços. “Entretanto, há um teto para esta capacidade de segurar os preços. O consumidor também está muito atento, migrando de marcas e de tipos de produtos para amortizar parte da inflação. É uma aula de gestão que o cliente dá nas gôndolas.”
Ainda conforme a Agas, o setor percebe uma redução no consumo de determinados produtos ou trocas por itens mais em conta. “Além dos preços de alimentos, preocupam-nos os impactos sobre outras contas básicas, como o combustível que sofreu reajuste recentemente. A conta é simples e clara no ponto de venda, quando sobe um real o litro da gasolina, o cliente compra menos comida, proporcionalmente. Estamos falando de itens básicos, como pães e leite. O consumidor está com o poder de compra muito reduzido, e também por isso cada vez mais atento às oportunidades dos supermercados”, conclui.
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