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CÂNCER

Paciente descobre metástase após transplante de fígado com células cancerígenas

Exames de DNA comprovaram que tumor teve origem no órgão doado; homem passou por retransplante e agora enfrenta câncer no pulmão

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Publicado em: 16/10/2025 às 16h:00 Última atualização: 17/10/2025 às 11h:06
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Geraldo Vaz Junior, 58 anos, técnico de eletrodomésticos de São Paulo, descobriu que desenvolveu câncer após receber um fígado com células cancerígenas durante transplante realizado em 8 de julho de 2023 no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

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Exames de DNA realizados em março de 2024 comprovaram que o tumor tem origem no órgão doado, levando o paciente a passar por um retransplante em maio deste ano e, posteriormente, a desenvolver metástase pulmonar.

Geraldo Vaz Junior | abc+



Geraldo Vaz Junior

Foto: Redes sociais/Reprodução

A trajetória médica de Junior começou em 2010, quando foi diagnosticado com hepatite C. A gravidade da condição o colocou na fila nacional de transplantes, seguindo critérios do Sistema Nacional de Transplante. Segundo informações apuradas pelo Metrópoles, o caso levanta questões importantes sobre os protocolos de segurança em transplantes no país.

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O procedimento foi realizado por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional (Proadi) do SUS. Sete meses após o transplante, Junior apresentou alterações hepáticas e uma ressonância magnética detectou seis nódulos no fígado transplantado, diagnosticados como adenocarcinoma após biópsia.

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Em março de 2024, um exame genético comparou o material do paciente com as células cancerígenas. A médica especialista em medicina legal e perícia Caroline Daitx, que analisou os exames, confirmou a origem do câncer.

“Cada pessoa tem uma ‘impressão digital genética’ única. Esse exame comparou o DNA das células do câncer com o DNA do Geraldo e com o DNA da pessoa doadora do fígado. O resultado foi conclusivo: as células do tumor têm o DNA do doador, não do paciente”, afirmou a especialista.

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O laudo hospitalar evidencia que as células cancerosas possuem cromossomos sexuais femininos (XX), enquanto Geraldo, sendo homem, possui cromossomos masculinos (XY). “É como se as células do tumor ‘assinassem’ que vieram de uma mulher, não dele”, explicou a especialista, acrescentando que “Isso sugere que a doadora já tinha um câncer que não foi detectado antes da doação, e pequenas células desse tumor estavam presentes no fígado transplantado”.

Após a descoberta, Geraldo passou por um retransplante de fígado em maio de 2024. O documento de alta médica menciona “adenocarcinoma advinda do doador” como motivo do procedimento. A situação agravou-se em agosto, quando exames detectaram metástase pulmonar com as mesmas características das células cancerígenas encontradas no fígado.

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Estudos internacionais indicam que a transmissão de câncer em doações de órgãos é extremamente rara, com incidência inferior a 0,03%, conforme citado pela médica perita que acompanha o caso.

Paulo Hoff, oncologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, confirmou a excepcionalidade do caso, mas observou que “fatalidades” como essa podem ocorrer mesmo com os protocolos de triagem existentes. “Se foi feito o teste e qualificou que veio do doador, não tem jeito, esse câncer veio junto com o fígado. Não é um câncer novo, o doador com certeza teve um câncer em algum momento, e ao ser feita a remoção do órgão, ele tinha células cancerosas presentes”, afirmou.

A especialista Daitx enfatiza a importância do consentimento informado: “É fundamental ressaltar que o paciente precisa estar plenamente ciente desses riscos antes do procedimento. O processo de consentimento informado deve incluir a discussão sobre a possibilidade, ainda que remota, de transmissão de doenças do doador, incluindo malignidades ocultas”.

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O Ministério da Saúde informou em nota oficial que não foram identificados indícios de problemas de saúde nos exames realizados no doador antes da captação do órgão. “Até o momento, os exames não são conclusivos sobre a relação causal, que exige análise minuciosa. Todas as informações estão sendo compartilhadas com a vigilância local”, declarou o Ministério.

A Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo (SES-SP) reforçou que os transplantes seguem protocolos rigorosos. “Os órgãos e tecidos doados devem ser submetidos a exames clínicos e laboratoriais rigorosos, minimizando os riscos de transmissão de doenças entre doador e receptor”, afirmou a secretaria, acrescentando que “Nessa etapa, são aplicados testes obrigatórios para detecção de infecções e doenças, além de inspeção médica detalhada do órgão antes da utilização”.

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Desde setembro, Geraldo e sua esposa, Márcia Helena Vaz, iniciaram uma campanha buscando explicações sobre o ocorrido. O casal solicita investigações sobre possíveis falhas no procedimento.

“Não cabe, nesse caso, um silêncio institucional. Por favor, não cabe. Não cabe porque isso dá margem para que o erro continue acontecendo. O silêncio produz isso. Uma margem para que o erro continue acontecendo”, desabafou Márcia ao Metrópoles.

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Márcia revelou que foi informada apenas que a doadora era uma mulher que faleceu devido a um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Sobre o tratamento contínuo necessário, ela afirmou: “Ele tem que fazer [quimioterapia] pro resto da vida dele, porque sempre essa doença vai ter que estar controlada. No melhor do prognóstico, que ela continue controlada enquanto ele viver”.

Conforme o Decreto nº 9.175/2017, que regulamenta a Lei dos Transplantes (nº 9.434/1997), toda doação de órgãos no Brasil deve ser gratuita e anônima, o que impede o acesso a informações detalhadas sobre a doadora.

A esposa de Junior também manifestou preocupação com a possibilidade de casos semelhantes: “Primeiro, a gente precisa saber onde ocorreu o erro. E se o erro aconteceu, quem o cometeu. Para depois, a partir dali, partir para um pedido de mudança com urgência acerca do processo. Hoje é o Geraldo, amanhã pode ser o Antônio, depois, o José”.

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