O caso do professor de Direito Fabrício Antônio da Silva, de 40 anos, atacado por um vizinho no bairro Lomba Grande, teve desdobramento nesta quarta-feira (17). No fim da manhã, ele entregou à Polícia Civil provas que, segundo ele, reforçam a tese de racismo e premeditação.
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Foto: Joceline Silveira/GES-Especial
A entrega do material ocorreu na Central de Polícia Civil, onde o professor e a companheira, 39, foram ouvidos pelo delegado Guilherme Valli. Silva esteve acompanhado de representantes das OABs de Novo Hamburgo, São Leopoldo, e Rio Grande do Sul, além do gerente de Políticas Públicas de Igualdade Racial de Novo Hamburgo, Jéferson Mendes.
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Foto: Joceline Silveira/GES-Especial
Entre as provas anexadas ao inquérito estão dois vídeos gravados no condomínio onde a família residia e uma fotografia de uma cabeça de boi colocada sobre a cerca da propriedade, voltada diretamente para a casa da vítima. Para o professor, o ato representa uma ameaça simbólica e indica a premeditação do crime.
Registros apontam ofensas racistas antes do ataque
Um dos vídeos mostra a esposa do homem acusado da tentativa de homicídio proferindo falas com conotação racista contra o professor. Em outro registro, feito em data anterior, são captados novos ataques verbais e, na sequência, uma conversa de Silva com o próprio filho, que presenciou as ofensas.
Segundo a vítima, as imagens demonstram que o racismo já fazia parte do cotidiano da família. Em outra imagem, gravada na tarde do dia do ataque, a mulher disse que o local estaria “virando uma favela”, se referindo à residência da vítima, e que o professor “não tinha um pinto para dar água”.
O professor afirma que as expressões associam, de forma preconceituosa, pessoas negras à periferia e à pobreza.
Em um dos vídeos, considerado pelo professor como um dos mais sensíveis, ele conversa com o filho sobre racismo. “É uma conversa dura, que só pais e mães negros sabem o que é. Eu digo para ele que, mesmo não tendo a pele escura como a minha, ele também é negro e que, em algum momento, vai passar por uma situação de racismo”, relatou.
Vítima contesta versão de “disputa de cerca”
Silva também contestou versões que apontavam uma suposta disputa por cercas como motivação para o crime. Segundo ele, não havia conflito fundiário, e qualquer divergência sobre a cerca havia sido resolvida há mais de um ano com a mediação da comissão do condomínio. “Não houve briga. O que aconteceu foi um atentado premeditado. Ele entrou no ponto cego das câmeras, de luvas, com clara intenção de ocultar a ação”, afirmou.
Ainda de acordo com o professor, o agressor só não conseguiu consumar o crime por dois motivos: além da porta fechada, Silva conseguiu se defender com um machado. “O tempo inteiro imaginei que ele estivesse armado. Minha esposa saiu para pedir ajuda e meu filho correu para trás da casa. Foram reações que acabaram salvando nossas vidas”, disse.
Junto com os vídeos, foram entregues ao delegado mensagens de WhatsApp enviadas anteriormente à administração do condomínio, nas quais o professor relatava os ataques e solicitava providências. A fotografia da cabeça de boi, colocada na cerca há menos de três meses, também será analisada no inquérito.
O material deve ampliar o foco da investigação, que agora apura não apenas a tentativa de homicídio, mas possíveis crimes de racismo ocorridos antes do ataque.
Para o vice-presidente e secretário-geral da OAB São Leopoldo, Fábio Lara, as novas provas não alteram a tipificação inicial do crime. “Continua sendo uma tentativa de homicídio, como as imagens demonstram. Mas há também a necessidade de investigar o crime de racismo, que é inafiançável. Não se trata de uma briga de vizinhos ou disputa por cerca. O racismo ocorreu e precisa ser apurado como tal”, afirmou.
Relembre o caso
A tentativa de homicídio aconteceu na noite de segunda-feira (8), quando um homem de 54 anos invadiu a residência de Fabrício Antônio da Silva armado com um facão. O professor foi ferido no rosto e em outras partes do corpo durante a luta corporal. A esposa e o filho do casal, de 10 anos, também estavam na casa no momento do ataque.