O médico Miguel Xavier, que realizou o parto da adolescente Kauany Ventura de Vargas, de 16 anos, foi afastado das atividades no Hospital Sapiranga, onde aconteceu a cesariana no dia 2 de maio. A decisão foi comunicada pela direção da instituição em uma reunião realizada na tarde desta segunda-feira (2) com familiares e defesa da jovem.
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Foto: Arquivo pessoal
Segundo a advogada Diânifer Soares, o encontro aconteceu para que a casa de saúde explicasse à família de Kauany o que teria acontecido nos atendimentos à jovem entre a data que ela deu à luz e o dia do seu falecimento, e para que expusessem como o caso está sendo conduzido internamente.
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Os representantes do hospital informaram à mãe de Kauany, Catieli Ventura, 35, ao tio, ao avô e a uma madrinha dela, que na semana seguinte a morte da jovem, conversaram com o obstetra e determinaram o afastamento dele.
Exumação do corpo de Kauany
Na última semana, Diânifer informou à reportagem que solicitou a exumação do corpo de Kauany diretamente com o Poder Judiciário. O Tribunal de Justiça (TJRS) autorizou a realização do procedimento na última sexta-feira (30).
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O pedido por parte da defesa aconteceu após a família receber um laudo da casa de saúde onde informava que a adolescente teria sido submetida a uma laqueadura, a qual não havia sido informada ou autorizada. A instituição, como já mencionado, nega a realização do procedimento e afirma que houve uma “digitação equivocada” no documento.
Segundo a advogada, após o TJ comunicar a autorização ao Instituto-Geral de Perícias (IGP), o instituto fará o desenterramento e encaminhará o corpo ao Departamento Médico Legal (DML). Ainda não há data prevista para o procedimento.
O caso
A adolescente morreu na noite do dia 17 de maio, 15 dias após passar por um parto no Hospital Sapiranga, feito pelo obstetra Miguel Xavier. Durante esse período, ela procurou por atendimento médico na instituição duas vezes: na primeira, foi liberada após receber uma receita de medicação para dor; na segunda, dias depois, foi internada e precisou passar por nova cirurgia, na qual o útero teve que ser retirado.
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A família da jovem acredita que houve negligência médica.
A bebê nasceu saudável e está sob os cuidados das avós materna e paterna, e do pai, de 19 anos, com quem Kauany mantinha um relacionamento há quatro anos.
Investigação
O caso é investigado pelo titular da Delegacia de Sapiranga, Clóvis Nei, que salienta que o inquérito está na fase inicial.
Em função da repercussão do caso, o Conselho de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) abriu uma sindicância na última semana para apurar o atendimento que levou à morte da jovem. O prazo para a conclusão é de 180 dias, podendo, posteriormente, ser prorrogado por igual período.
As circunstâncias que levaram à morte de Kauany também são apuradas internamente na casa de saúde.
O que diz o hospital
A reportagem entrou em contato com o Hospital Sapiranga, que retornou na noite de segunda-feira.
Em nota, a instituição demonstra pesar e “se solidariza com a família da paciente Kauany Ventura de Vargas, cuja perda precoce a todos entristece profundamente”. O Hospital Sapiranga diz que “vem fazendo tudo que está ao seu alcance para esclarecer cada ponto”.
O hospital traz, ainda, que a cesariana foi uma escolha discutida com a equipe médica e “formalizada em termo de consentimento livre e esclarecido, assinado pela paciente e responsável” e que “a paciente recebeu alta hospitalar dois dias após o parto, sem sinais de intercorrências clínicas”.
Como a jovem retornou, dias depois, com sintomas compatíveis com quadro infeccioso, que evoluíram progressivamente, culminando em uma infecção uterina grave, a casa de saúde explica que “foram adotadas todas as condutas cabíveis: nova internação, ajustes terapêuticos com antibióticos de amplo espectro, exames de imagem, cirurgia de urgência e suporte intensivo em unidade de terapia intensiva”.
O hospital enfatiza que “infecções são riscos inerentes a qualquer procedimento cirúrgico” e que “a trajetória clínica seguiu parâmetros técnicos adequados”.
Quanto ao registro no prontuário da jovem de um procedimento de esterilização (ligadura tubária) sem consentimento, o Hospital Sapiranga garante que isso não ocorreu e explica que o nome incorreto do procedimento ocorreu devido a um equívoco na seleção automática nos campos de texto pré-formatado disponíveis no sistema eletrônico. “Pedimos desculpas públicas à família por esse erro material quando da seleção do nome do procedimento.”
Ações já realizadas e outras iniciativas que serão implementadas, segundo o Hospital Sapiranga:
• O profissional envolvido afastou-se de suas atividades de forma voluntária e de comum acordo com a instituição, para que a apuração pudesse ocorrer com total isenção;
• Reforçados os treinamentos internos sobre escuta ativa de sinais de dor e desconforto, implantação de escalonamento, o que será incorporado aos ciclos contínuos de educação médica;
• Intensificadas as auditorias clínicas e revisões de casos de risco em comitês multiprofissionais;
• Estabelecido canal direto com a família para prestar acompanhamento contínuo e responder dúvidas futuras.
• Realizada apuração interna com apoio da direção, equipe médica e assessoria técnica.
• Colaboração com as autoridades competentes para o total esclarecimento dos fatos.
Por fim, a instituição diz que foi oferecido acompanhamento psicológico aos familiares, assim como atendimento pediátrico para a criança recém-nascida. “Apesar do cumprimento técnico dos protocolos aplicáveis, o Hospital Sapiranga reconhece que essa fatalidade exige mais do que justificativas. Ela exige humildade, escuta e transformação, e, por isso, reafirma seu compromisso inegociável com a segurança do paciente, com o acolhimento das famílias e com a ética em cada conduta profissional.”
Posicionamento
O ABCmais segue sem conseguir estabelecer comunicação com Miguel Xavier. O espaço, no entanto, está aberto para posicionamento da defesa do profissional.