Há um ano, na noite do dia 6 de abril de 2025, os jovens Pedro Henrique Di Benedetto Rodrigues, 23 anos, Vítor Juan Santiago, 18, e Carolina Oliveira de Lima, 19, deixaram um churrasco na casa de amigos e nunca mais foram vistos.
Após um telefonema, os três saíram do bairro Guajuviras para o Mato Grande. Ao chegarem lá, acabaram emboscados e mortos. Os corpos das três vítimas, entretanto, nunca foram achados.

Foto: REPRODUÇÃO
O caso, tratado inicialmente como desaparecimento, passou a ser investigado pela Polícia Civil como um triplo homicídio ligado ao tráfico de drogas e entorpecentes. Isso porque descobriu-se que os jovens levavam drogas.
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O veículo Fiat Punto que teria sido usado pelo trio para o deslocamento até o bairro Mato Grande foi encontrado abandonado, dois dias depois, na Zona Norte de Porto Alegre, mas não havia sinais de violência ou mesmo vestígios de sangue.
“Calculamos que eles tenham sido arrebatados e levados a algum local onde acabaram assassinados”, argumenta a delegada Graziela Zinelli, titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Canoas, que concluiu o inquérito sobre as mortes.
Conforme Graziela, foram organizadas buscas exaustivas, contando com a colaboração do Corpo de Bombeiros, em áreas onde os corpos poderiam ter sido deixados, porém, não foi possível localizar as três vítimas.
“Sempre que uma nova denúncia chegava sobre o local onde estariam os corpos, nós organizávamos uma busca e procurávamos até descartar a área. Isso aconteceu à beira de estradas, em leitos de rios e debaixo de pontes, mas, infelizmente, não conseguimos achá-los”, lamenta.

Foto: Paulo Pires/GES
Denúncia
Segundo a delegada, o caso está encerrado, entretanto, caso surja uma nova evidência a respeito do paradeiro dos corpos, a Polícia Civil será mobilizada e haverá uma nova busca.
“Organizamos buscas, descartamos locais e interrogamos os envolvidos, sem que os presos dissessem qualquer coisa sobre a localização”, reforça. “Mas é claro que qualquer novidade que surgir, vamos concentrar esforços novamente.”
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Quem souber de alguma informação e estiver disposto a colaborar, pode entrar em contato com o Departamento Estadual de Homicídios por meio do número 0800-642-0121, que opera 24 horas.
“Quando o caso surgiu, recebemos muitas denúncias, mas o tempo foi passando e não houve mais informações”, frisa a delegada. “A extensão de mato, terra e água entre Canoas e Porto Alegre é enorme. Não dá para cobrir toda a área.”
Sete pessoas foram denunciadas
Em novembro de 2025, o Ministério Público denunciou sete pessoas envolvidas nos assassinatos de Pedro Henrique Di Benedetto Rodrigues, Vítor Juan Santiago e Carolina Oliveira de Lima.
Segundo o MP, os denunciados foram responsabilizados por homicídio qualificado — motivo torpe e uso de recurso que dificultou a defesa das vítimas, além de ocultação de cadáver e fraude processual.
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Foto: DIVULGAÇÃO/POLÍCIA CIVIL
Amissus
Foram várias etapas da Operação Amissus, desencadeada pela Polícia Civil, mirando as buscas pelas vítimas. Durante a terceira etapa, os bombeiros auxiliaram nas buscas ao longo do Rio dos Sinos.
“Os corpos podem ter sido deixados em qualquer ponto do rio, então houve a busca, mas após um dia naquela área, não conseguimos achá-los”, lembra a delegada Graziela Zinelli.

Foto: POLÍCIA CIVIL/REPRODUÇÃO
Motivação
Conforme a apuração conduzida pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Canoas, os três jovens foram assassinados ao entrar em um espaço de abrangência de uma quadrilha de traficantes.
O próprio chamado, apontou a Polícia Civil na época, tratava-se de uma emboscada visando atrair os jovens para uma armadilha. Durante a investigação, os policiais conseguiram áudios que responsabilizavam os criminosos.
“Se ele for ali na delegacia deixar o carro, vai ser pior, cupincha. Como é que ele pegou o carro que estava com eles? Cadê os corpos? Eles vão perguntar”, argumenta um envolvido para um comparsa que queria se livrar do Fiat Punto em que os jovens saíram do churrasco.
Posteriormente, no celular de um participante do crime, os policiais coletaram um novo áudio apontando uma orientação para que o Fiat Punto acabasse abandonado em qualquer lugar.
“É pior, mano. É pior fazer esse bagulho. O que tem que acontecer? O que tem que fazer é largar o carro em algum lugar, deixar a polícia encontrar em qualquer lugar mesmo”, orienta o criminoso.

Foto: PAULO PIRES/GES
Comunidade
O desaparecimento dos jovens, especialmente de Carolina Oliveira de Lima, que era moradora do Guajuviras, chocou a comunidade que, apesar de acostumada por anos com a violência diária, atualmente vive um período de calmaria.
A líder comunitária Ana Flores Mossatte recorda que houve mobilização em busca de Carolina. “Uma menina tão jovem”, reforça. “É claro que a gente se preocupou quando começaram a divulgar que sumiu. A gente sabia que algo muito grave tinha acontecido, porque havia muito silêncio sobre o caso. As pessoas não querem se envolver. No fim, a gente acabou sem conseguir saber o que realmente aconteceu com aqueles três.”
Até 2018, Canoas registrava, em média, 120 homicídios por ano. A maior parte do crime acabava concentrada no bairro Guajuviras, durante muito tempo considerado o mais violento da cidade.
Essa realidade mudou nos últimos anos, chegando ao menor índice em 2025, quando houve somente oito crimes cometidos no bairro. Antes disso, na década passada, a média chegava a 30 Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLI), conforme os números divulgados pelo governo do Estado.
Ana Mossatte lembra da época em que dia sim, dia não, ouvia falar sobre alguém morto ou mesmo baleado no bairro, um período em que, mesmo na cama, havia o risco do morador acabar atingido por uma “bala perdida”.
“Eu estava aqui em casa uma noite e, assim, do nada, começou um tiroteio”, recorda. “A gente saltou da cama com as balas zunindo. De repente, estava aquela confusão com os corpos atirados na calçada. Isso acaba com o sono de qualquer um. Era rotina na época”, lamenta.
A moradora afirma que a situação mudou nos últimos anos, com a presença mais constante das forças de segurança e uma sensação de segurança mais evidente, por conta das viaturas circulando pelo bairro até mesmo durante a madrugada, o que antes inexistia.
Segurança
Canoas recebeu, no ano passado, a classificação de “cidade segura” perante a Organização das Nações Unidas (ONU). Foram 30 homicídios cometidos em 2025, número considerado “aceitável” pela ONU para cidades com população superior a 300 mil habitantes.
O triplo homicídio cometido por criminosos oriundos do bairro Mato Grande acabou surpreendendo as polícias na época, já que não havia um conflito entre facções que justificasse tamanha violência empregada contra os três jovens que viraram vítimas da emboscada.
Em 2026, a queda dos “crimes contra a vida” perdura, com a cidade registrando trimestre menos violento dos últimos 20 anos, conforme dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública. Em três meses, houve um homicídio consumado na cidade.
“Como no mês de dezembro também não houve nenhum crime doloso contra a vida, é motivo de satisfação para o departamento um resultado positivo assim”, destaca a delegada Graziela Zinelli. “Aumenta o sentimento de segurança para a população.”
Responsável pelo policiamento ostensivo da Brigada Militar, o tenente-coronel Clóvis Ivan Alves ressalta que o 15º Batalhão da Polícia Militar permanece engajado na vigilância de pontos considerados nevrálgicos para a segurança.
“Não dá para desmobilizar”, afirma. “Mantemos o monitoramento de determinadas áreas, consideradas importantes. A estratégia está dando certo e seguimos na missão pela segurança da população e pela redução dos índices.”