Marcadas para o dia 4 de outubro de 2026, as eleições gerais definem o futuro do Brasil em diversos aspectos. Os eleitores vão às urnas escolher o próximo presidente, governadores, deputados estaduais, federais e senadores.
E assim como ocorreu nos últimos anos, a disputa pelo poder está polarizada entre a direita e esquerda. Grupos ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que deve buscar a reeleição, e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), considerado inelegível pela Justiça, já começaram as articulações.

Foto: Arte Alan Machado/GES
No entanto, ao contrário de 2018 e 2022, quando o foco estava restrito à presidência da República, o Senado foi transformado no centro das atenções. Lula e Bolsonaro já deram sinais que a prioridade das equipes está na eleição legislativa, considerada fundamental para governar o País.
Falas centrais
No início de junho, Lula reuniu apoiadores, entre eles o prefeito do Recife, João Campos (PSB). Na ocasião abordou o tema, reforçando a relevância do legislativo. “Em 2026 precisamos pensar o seguinte: nós precisamos eleger senadores da República. Porque se esses caras [oposição] elegerem a maioria dos senadores, vão fazer uma muvuca no País.”
Lula ainda deixou aberta a possibilidade de “sacrificar” nomes que disputariam o cargo de governador, tudo em nome do projeto Senado. “Aonde for impreterível, onde é necessário mesmo, a gente tem candidato a governador. Se é necessário, tudo bem. Mas, muitas vezes temos que pegar os melhores quadros nossos e eleger senador da República, deputado federal.”
E garantiu, o foco será mesmo o Senado. A justificativa é proteger o Supremo Tribunal Federal (STF), já que os senadores são os responsáveis pela sabatina e novos ministros, além de possuir o poder necessário para aprovar o eventual impeachment de um ministro.
“Precisamos ter a maioria do Senado. Se não, esses caras [oposição] vão avacalhar a suprema corte”, completa.
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Apesar de ser o oposto de Lula na questão ideológica, Jair Bolsonaro fez um discurso semelhante aos apoiadores. A fala aconteceu durante ato na Avenida Paulista que reuniu 12,4 mil pessoas no dia 29 de junho.
O ex-presidente afirmou que “não precisa ser o presidente” para mudar o País. Para isso bastaria que o Congresso Nacional fosse formado majoritariamente por aliados.
“Nós temos como resolver o Brasil. Me permitam repetir: me deem 50% da Câmara e 50% do Senado que eu mudo o destino do Brasil. E digo mais: nem eu preciso ser presidente. O Valdemar, me mantendo como presidente de honra do Partido Liberal, nós faremos isso por vocês”, declarou.
Importância renovada
Quem também fez uma análise do cenário das próximas eleições foi o ex-governador Tarso Genro (PT). “O Senado sempre foi um importante instrumento da democracia.” Tarso salienta que antes, golpes eram articulados por militares, mas passaram a ser parlamentares. “O impeachment da presidenta Dilma [Rousseff] foi responsabilidade do Senado. Hoje sabemos que não havia embasamento jurídico.”
Questionado se a eleição para senador será mais importante do que o pleito para o cargo de presidente, o ex-governador discorda, mas reforça um temor. “Que se use o Senado como manobra golpista.” Ele reitera que a importância será renovada em 2026.
No que se refere aos discursos recentes de Lula e Bolsonaro, Tarso faz um comparativo. “As vozes de Lula e Bolsonaro vão no mesmo sentido. No entanto, enquanto o primeiro quer que o próximo presidente tenha estabilidade, independente do vencedor, o segundo quer gerar uma nova disputa política após a eleição.”
“Vivemos em uma democracia desfuncional”
O deputador federal Marcel Van Hattem (Novo) relata sua preocupação com decisões recentes do STF. “Vivemos em uma democracia desfuncional e o Supremo está agindo desfuncionalmente. Quem precisa corrigir isso é o Senado.”
Segundo Van Hattem, apenas 35 dos atuais senadores seriam favoráveis a um suposto impeachment de algum ministro do STF. “Não forma maioria. Precisamos colocar um freio no STF.” O parlamentar explica que o papel do Senado é justamente fiscalizar o poder judiciário, assim como o papel da Câmara é a fiscalização do Executivo.
Especialista divergem
Entre os especialistas, as opiniões são divergentes. O pesquisador em comportamento político e diretor do Instituto Methodos, José Carlos Sauer, acredita que a influência de Lula e Bolsonaro é pequena entre os senadores.
“A autonomia do senador é muito grande. No Norte e Nordeste, por exemplo, a figura dos senadores é quase como um segundo governador, são pessoas de muito poder, econômico e político.”
Entretanto, confessa que os estados do Sul (RS, SC e PR) a forma de atuação é diferente. “No Sul, senadores são pessoas mais velhas, neutras.”
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Ainda assim, diz que o tema precisa ser analisado de perto. “Vai depender do quantitativo de candidatos de direita, centro-direita e esquerda que forem eleitos.”
Com a renovação de do Senado, Sauer afirma que a perspectiva é de renovação na casa legislativa. “Em 2018, última vez que em que duas vagas foram disputadas por estado, 85% das cadeiras foram renovadas. Já em 2022, apenas 40% dos senadores se reelegeram.”
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Por outro lado, o professor do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Cultural e Inclusão Social da Universidade Feevale, Everton Rodrigo Santos, afirma que o poder do Congresso é cada vez maior no Brasil. “Senado e Câmara são estratégicos para quem quer governar.”
Isso ocorre pelo fato do presidencialismo estar se deteriorando perante ao legislativo. “Isso começou a partir das emendas Pix, orçamento secreto. Atualmente o dinheiro está no Congresso, inclusive ministério não contam com o mesmo apelo de outrora.”
Santos lembra que senadores eleitos em 2026 têm mandato por oito anos, ou seja, até 2034. “Eles podem decidir o impeachment de ministros do STF, é como capturar o árbitro”, argumenta.
O cientista político acredita que a eleição para o Senado pode ser definitiva para o futuro. “Pode ser mais importante do que a Presidência da República. Vai pressionar o judiciário.”