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CATÁSTROFE NO RS

A vida após a enchente: dois anos depois, histórias revelam diferentes caminhos de recomeço no RS

Moradores recordam dos dias tristes da enchente e revelam como anda a vida dois anos depois

Isaías Rheinheimer
Publicado em: 01/05/2026 às 07h:00 Última atualização: 30/04/2026 às 17h:56
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Dois anos depois da enchente de maio de 2024, a vida segue, mas não da mesma forma para todos. O que ficou daquele período não são apenas marcas de lama em algumas paredes pelas cidades afetadas, mas histórias interrompidas, memórias perdidas e trajetórias que precisaram ser reconstruídas, cada uma a seu modo.

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Editora Oikos, de São Leopoldo, deu a volta por cima depois da enchente | abc+



Editora Oikos, de São Leopoldo, deu a volta por cima depois da enchente

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

Para quem viveu aqueles dias, o recomeço foi inevitável. Há quem ainda tente assimilar o que aconteceu, enfrentando dificuldades para retomar a rotina. Outros conseguiram reorganizar a vida e hoje falam em superação. Em comum, todos carregam a experiência de terem visto, ao mesmo tempo, suas histórias pessoais sendo levadas pela água enquanto acompanhavam um dos capítulos mais marcantes da história recente do Estado.

Em 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou uma das maiores catástrofes naturais de sua história. As enchentes atingiram 478 dos 497 municípios gaúchos, provocando alagamentos e deslizamentos de terra. Mais de 180 pessoas morreram, somente em Canoas foram registradas 31 mortes. Em São Leopoldo, outras nove. Em Três Coroas, foram três óbitos. Novo Hamburgo e Montenegro tiveram uma morte cada. Ainda há 23 gaúchos desaparecidos.

Quem decidiu ficar por apego ao lugar e quem voltou por necessidade de ter onde morar

A realidade de moradores que foram impactados pela enchente em Novo Hamburgo são distintas. Leocádia Oliveira Pereira, 62 anos, e Eloir dos Santos, 67, eram vizinhas na época da enchente. Depois da catástrofe, Leocádia se mudou e foi morar no interior de Viamão, e Eloir decidiu permanecer no mesmo lugar, na Rua Eldorado, de frente para o dique e praticamente ao lado da casa de bombas da Santo Afonso.

Passados esses dois anos sem se ver, Leocádia e Eloir voltaram a se reencontrar e serem vizinhas. Há dois meses, a primeira voltou de Viamão e alugou uma outra casa ao lado do imóvel que residia à época da inundação. Voltou, segundo ela, por necessidade, para ficar mais perto das coisas e assim possa resolver sozinha sem depender de ninguém. “Lá em Viamão, tudo ficava longe e minha filha, com quem morava, não tinha condições de ficar nos levando, eu e o meu marido, para o posto de saúde, para o mercado. Ela trabalha. Aqui, pelo menos tem mercado perto, posto de saúde e farmácia também. Então, consigo me virar”, explica.

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Leocádia Oliveira Pereira voltou a morar perto do dique e da casa de bombas da Santo Afonso, em Novo Hamburgo, por necessidade | abc+



Leocádia Oliveira Pereira voltou a morar perto do dique e da casa de bombas da Santo Afonso, em Novo Hamburgo, por necessidade

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

Mas a enchente ensinou Leocádia a viver com menos, do jeito mais duro. Ela perdeu tudo que tinha dentro de casa em 2024. “Sai com duas mudas de roupa e alguns documentos. É algo que a gente não esquece. Eu tinha minhas coisinhas, que conquistei depois de muita batalha, e de repente a gente já não tem nada e tem que começar do zero”, conta. Ao voltar para um lugar que não traz boas recordações, a dona de casa conta que decidiu comprar o básico para dentro de casa para correr o risco de ver aquele pesadelo se repetir. “Quando começa a chover já fico pensando: será que vai chover bastante? Será que vai alagar? A verdade é que aqui as coisas não mudaram muito, quando chove um pouco mais forte, a rua começa a alagar, a água invade os pátios”, pontua.

As previsões meteorológicas recentes, indicando a formação de um super El Niño que pode voltar a trazer muita chuva para o Estado, deixam a moradora apreensiva. “Tenho muito medo de que possa acontecer algo pior do que aconteceu há dois anos. Por isso, não vejo a hora do meu marido se aposentar, de a gente conseguir comprar um carrinho para não depender de ninguém, para poder sair daqui e voltar para Viamão”, finaliza.

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“A enchente foi apenas mais um obstáculo”

Diferente de Leocádia, Eloir dos Santos não se imagina longe do cantinho que construiu com bastante sacrifício há 40 anos. Viver ali mesmo após tudo que aconteceu, é uma decisão irreversível. Assim como tantos outros moradores de Novo Hamburgo, especialmente do bairro Santo Afonso, Eloir perdeu tudo que tinha na enchente de maio de 2024, só não perdeu o desejo de morar nesse mesmo lugar até os últimos dias de sua vida. “Foi aqui que criei meus filhos e construí minha vida. Enfrentei muita coisa e a enchente foi apenas mais um obstáculo. Mas aqui eu tenho paz e tranquilidade. Se eu chegar a sair daqui, acho que fico doente. Se eu sair daqui só (se for) no caixão para o cemitério”, coloca.

Eloir dos Santos: "Se eu sair daqui só (se for) no caixão para o cemitério" | abc+



Eloir dos Santos: “Se eu sair daqui só (se for) no caixão para o cemitério”

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

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No período da enchente, Eloir ficou cerca de um mês longe de casa, até que a água baixou. Quando retornou, não encontrou mais nada no lugar. Recomeçou com doações, como muita gente. Mas a mente positiva, ligada à fé que carrega, fizeram com que ela logo voltasse a uma rotina considerada normal. Enquanto resolvia sua vida, ajeitava sua casa, também ajudava outras famílias do bairro. “Com a enchente aprendi muita coisa. Se for preciso ajudar, eu não tenho (recursos), mas vou atrás de quem tem. Comecei a pedir pão, água, roupas para os moradores aqui do bairro. Uma amiga ia comigo buscar as doações e depois saíamos a distribuir por aqui”, recorda.

“Venho aqui para matar a saudade”, diz morador que volta todos os dias para local onde ficava sua casa

Em Três Coroas, a catástrofe climática que acometeu o RS trouxe consequências ao quadrado. Enquanto a parte mais baixa do município do Vale do Paranhana era varrida pela força da água que descia o rio que corta a cidade, as encostas se mexiam devido à infiltração de tanta água que rolou naquele período. O solo encharcado trouxe consequências graves.

Quando os efeitos da enchente começam a arrefecer em algumas cidades, em Três Coroas, moradores da Vila Dreher, que fica próximo ao limite com Gramado, foram surpreendidos com o deslizamento de uma encosta no dia 11 de maio. Cerca de 20 casas foram atingidas e 100 pessoas foram diretamente afetadas pelo episódio.

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Hoje essa parte da Vila Dreher virou um bairro fantasma. Quem chega ao ponto em que hoje é o final da Rua Jacob Limm ainda encontra casas soterradas e desmanchadas pela avalanche de terra. Também consegue circular pela área em que existiam casas que tiveram a estrutura danificada e foram condenadas pela Defesa Civil por conta do tremor de terra. Quem visitar a localidade nos dias de hoje também deve encontrar por lá Vicente Hilario Accadrolli, 62, que todos os dias visita aquela área. “Venho aqui para matar a saudade”, dispara.

A casa de Accadrolli foi uma das que foram destruídas pelo deslizamento de terra. A casa do filho e da nora, que ficava ao lado, e a da filha, do genro e dos dois netinhos, que fica um pouco mais adiante, também. Da sua casa, uma pequena parte ficou de pé, mas o local está condenado e ele não pode mais morar ali. Da casa dos filhos não sobrou nada.

Solitário, Vicente Accadrolli fica sentado onde antes ficava a área da sua residência, olhando para o horizonte e refletindo sobre o que tinha e os desafios que a catástrofe trouxe à família. As reflexões sempre terminam em uma encruzilhada. “Eu gosto de estar aqui, mas é sempre muito difícil voltar e ver como tudo ficou. Tudo que trabalhei na minha vida, investi aqui. Nós tínhamos nosso lazer aqui. Hoje em dia a gente não tem”, coloca.

Accadrolli conseguiu alugar uma casa próximo dali, onde está morando com a esposa, mas a expectativa é de ser contemplado em algum programa social de habitação. “Tô esperando para ver se não ganho um terreno da prefeitura para reconstruir uma casa própria, pois não tenho condições de ficar pagando aluguel”, disse. Os filhos conseguiram benefícios e adquiriram novos imóveis longe de área de risco. “Dois anos depois, ainda tenho trauma daquele dia. Do dia para a noite, nós não tínhamos mais nada a não ser a roupa do corpo e alguns documentos”, recorda.

“Novas enchentes virão, o mundo está de sobreaviso”

Quem também está à espera de uma casa longe de área alagável são moradores de São Sebastião do Caí, no Vale do Caí, que teve cerca de 80% do território inundado em maio de 2024. Os mais ansiosos por esse benefício são moradores do bairro Navegantes, que fica às margens do rio, e que já estão sofrendo com a possibilidade de reviverem o passado recente em breve. “Sabemos que novas enchentes virão, o mundo já está de sobreaviso, e a pergunta é quando vão nos indenizar para que possamos comprar (casa) em outro lugar? A prefeitura não se posiciona”, lamenta a aposentada Bernardete Flores, 65.

Enquanto aguardam explicações do poder público, Bernardete e tantos outros vizinhos seguem morando nas casas que foram invadidas pela água e depois foram consideradas inabitáveis por engenheiros da Prefeitura e do Crea. “Não recebemos nenhum laudo oficial do município, não é falado em desapropriação. Hoje, não podemos fazer reformas, não podemos vender, enfim, estamos abandonados”, garante.



A moradora também lamenta o pequeno número de moradores de São Sebastião do Caí que foram cadastrados no programa Compra Assistida, do Governo Federal, que destinou R$ 200 mil para que famílias atingidas pela enchente comprassem uma casa nova. “Quando a Prefeitura teve a oportunidade de colocar mais famílias no programa, não o fez, e menos de 200 famílias foram contempladas”, coloca. “E agora estamos de mãos atadas, sem saber o que fazer. Dois anos e praticamente nada foi feito na cidade. É revoltante”, desabafa.

O sentimento da moradora não é uma verdade absoluta. Embora tenha demorado dois anos para algo acontecer, em fevereiro deste ano, foi iniciada a construção de 42 casas para moradores afetados pela enchente. A construção é um convênio da Prefeitura com o Governo do Estado, que destinou mais de R$ 6 milhões para unidades de aproximadamente 45 m², no bairro Vila Nova, longe do rio e das áreas de risco.

As fundações dessas quatro dezenas de casas já foram realizadas e seis casas, que são feitas com placas pré-moldadas, tiveram a carcaça erguida. Mas, na última terça-feira (28) ensolarada, a reportagem esteve no local e encontrou a obra parada. A Prefeitura alega que a obra, que deve ser entregue 120 dias após a ordem de serviço, está em dia e explicou que a construtora não estava no local, pois havia ido buscar os módulos pré-moldados para erguer mais casas.

Os beneficiários dessas 42 casas ainda não são conhecidos. A Prefeitura informou, por meio da assessoria, que ainda não elaborou o plano que definirá os critérios para selecionar as famílias que serão contempladas.

A volta por cima teve solidariedade e um selo chamado “Recomeçar” para editorado Vale do Sinos

Nem só de perdas é feita a memória da enchente. Em São Leopoldo, a história do casal Erny Mügge, 70, e Iria Hauenstein, 76, mostra que, mesmo diante da destruição, também há espaço para reconstrução. Fundadores da Editora Oikos, no bairro Scharlau, eles viram, em maio de 2024, décadas de trabalho serem levadas pela água. Eram mais de 40 anos de história de vida e 21 anos de editora praticamente destruídos em poucos dias. “A primeira reação naturalmente foi de desespero”, relembra Mugge.

Antes e depois: foto emoldurada mostra como ficou o interior de editora de São Leopoldo após a enchente e como o local está atualmente | abc+



Antes e depois: foto emoldurada mostra como ficou o interior de editora de São Leopoldo após a enchente e como o local está atualmente

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

A água chegou a 1,70 metro dentro do prédio. Cerca de 48 mil livros foram perdidos, descartados em oito caçambas. “Não se salvou 5%”, resume. Diante do cenário, o casal cogitou encerrar as atividades. “A gente achou que tivesse que fechar. Foram dias muito difíceis, indescritíveis”.

O que mudou esse rumo foi a mobilização de pessoas. Mensagens, ligações e ajuda prática vieram de diferentes partes do Brasil e até do exterior. “Se formou uma grande rede de apoio e solidariedade que a gente nunca imaginava”, conta o editor. Voluntários ajudaram na limpeza do espaço, enquanto autores e parceiros enviaram livros, móveis e equipamentos. Prateleiras, mesas e até computadores foram doados. O acervo começou a ser reconstruído aos poucos. Hoje, cerca de 20% foi recuperado.

A retomada foi gradual. Após cerca de três meses, a editora voltou a operar no espaço físico. Mesmo com todas as dificuldades, 2024 terminou com 89 títulos publicados, número semelhante à média anual anterior à enchente. De lá para cá, já são mais de 160 novos títulos lançados. Para marcar esse novo ciclo, a editora criou o selo “Recomeçar”, presente em todas as obras publicadas após a tragédia. “É uma homenagem à rede de apoio. Nós recomeçamos com centenas de pessoas”, define Mugge.

Apesar da reconstrução, o episódio deixou marcas permanentes. “Cada pedido de livro que a gente não tem mais faz lembrar da enchente”, admite Iria. Ao mesmo tempo, o casal olha para frente, ainda que com cautela. “Sabemos que esse tipo de evento pode se repetir. Hoje estamos mais preparados, mas essa preocupação está sempre presente”, comenta Mugge. Mesmo assim, a decisão é seguir. “Conseguimos dar a volta por cima, com bastante trabalho, dedicação e resiliência. O coração está aquecido”, resume Mugge. Para o futuro, o projeto é instalar a Oikos em outra região do município, para talvez nunca mais reviver o passado.



Enchente em Canoas deixa marcas e inspira recomeço de morador

Completados 2 anos da tragédia, Canoas, um dos municípios mais afetados pela enchente de maio de 2024, acumula histórias que oscilam entre a dor e a superação, entre o medo e a esperança. No bairro Harmonia, a jornada de reconstrução de Ozéias Albernoz Gomes, 40 anos, atravessa desafios e simboliza recomeços.

Ozéias reergueu oficina de motos com ajuda e trabalho | abc+



Ozéias reergueu oficina de motos com ajuda e trabalho

Foto: Paulo Pires/GES

Proprietário de uma oficina de motos, Gomes viu o sonho transformado em um pesadelo da noite para o dia. Após ter o local de trabalho e a residência submersos pelas águas da enchente, o canoense precisou reestruturar o negócio e a vida. “Não houve tempo para salvar nada. Precisei pedir empréstimo no banco e contar com a solidariedade das pessoas. Meus familiares, amigos e até pessoas desconhecidas foram fundamentais porque tudo que tinha na oficina e na minha casa deu praticamente perda total”, conta.

Com prejuízo superior a R$ 180 mil, Gomes fez a reabertura da oficina cerca de um mês e meio após a enchente, mesmo com pouca estrutura e ainda em processo de limpeza. “A prioridade foi consertar as motos dos clientes, muitas delas eram essenciais para o trabalho das pessoas. Havia dez motos no dia da tragédia. Transformei a tristeza e a desmotivação em resiliência. Deu certo”, pontua.

Durante alguns meses, Gomes e sua esposa retornavam todos os dias para limpar e organizar a oficina e a casa, que ficaram submersas por mais de 20 dias. “Alugamos uma casa em Esteio durante esse período porque as condições em Canoas eram insalubres. Havia mau cheiro e muita sujeira, e os aluguéis nas áreas não atingidas haviam subido drasticamente.

Quatro meses após a enchente, o morador e sua esposa retornaram para casa. Apesar da volta por cima, Gomes ainda sente os reflexos da enchente, como dívidas e a falta de alguns bens. “O bairro ainda está “machucado” e “deserto”. Há um temor constante de uma nova enchente. Qualquer chuva leve causa preocupação.”

Diante do receio de novas enchentes, Gomes planeja investir em melhorias na oficina, como a construção de um segundo piso, para se precaver. “Mesmo com todas as adversidades, o número de clientes aumentou. Hoje, atendo mensalmente cerca de 150 clientes. Acredito que estou no caminho certo. (Colaborou: Taís Forgearini)

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