Quem passa pela esquina das ruas Juarez e Carlos Reinaldo Schmenes, no bairro Canudos, em Novo Hamburgo, dificilmente imagina que, até poucos meses atrás, a calçada era tomada por sacos de lixo, móveis velhos, restos de construção e outros resíduos descartados de forma irregular.
O ponto, conhecido pelos moradores pelo acúmulo constante de entulhos, mudou de cenário após a instalação de uma câmera de videomonitoramento voltada à fiscalização ambiental.
O contraste é evidente. Imagens do Google Street View, registradas em 2025, mostram a calçada ocupada por resíduos. Na última semana, a reportagem voltou ao mesmo local e encontrou uma realidade diferente: o espaço permanecia limpo e sem o acúmulo de lixo que, por anos, fez parte da paisagem.
A mudança coincide com o início da utilização das câmeras SmartNH para identificar e multar quem descarta resíduos em locais proibidos. A tecnologia, antes utilizada principalmente para reforçar a segurança pública, passou a integrar também as ações de combate aos crimes ambientais.
Moradores da região afirmam que a instalação do equipamento trouxe resultados rápidos. Além da redução do descarte irregular, eles relatam diminuição na circulação de usuários de drogas que frequentavam o local para queimar fios e retirar cobre. Um morador, que preferiu não se identificar por receio de represálias, afirma que a situação era recorrente antes da instalação das câmeras.
Primeiras multas
A tecnologia também foi útil em outra situação. Na semana passada, um morador registrou, por meio da própria câmera de segurança, o descarte irregular de resíduos na Rua Bruno Werner Storck, esquina com a Avenida Reynaldo Kayser, próximo ao limite com Campo Bom e a menos de um quilômetro do Ecoponto Zona Leste, localizado na Rua Estocolmo.
Com as imagens, a equipe da Diretoria de Proteção Ambiental, vinculada à Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (SMMADU), identificou o veículo utilizado na infração — um Chevrolet Onix branco — e aplicou um auto de infração de R$ 9,5 mil.
Além da multa, o responsável deverá apresentar um relatório fotográfico comprovando a retirada dos resíduos, a destinação ambientalmente correta dos materiais e a documentação dos locais utilizados para o descarte regular.
“Essa penalidade integra uma série de ações que vêm sendo intensificadas pelo Município para combater um dos principais problemas ambientais enfrentados pela cidade. O descarte irregular gera impactos ambientais, degrada espaços públicos, compromete a drenagem urbana e demanda a mobilização constante de equipes e recursos públicos para limpeza e recuperação das áreas afetadas”, afirma o secretário municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, Anderson Bertotti.
Tecnologia amplia fiscalização
O descarte irregular de resíduos é um dos principais desafios enfrentados pelos municípios da região. Além de degradar áreas públicas, a prática aumenta os gastos com limpeza urbana, favorece a proliferação de doenças e compromete o sistema de drenagem. Durante períodos de chuva, resíduos descartados em vias públicas acabam sendo levados para bocas de lobo e redes pluviais, contribuindo para alagamentos.
Até pouco tempo, identificar os responsáveis era uma das maiores dificuldades das prefeituras. Normalmente, equipes de limpeza recolhiam os resíduos e, em poucas horas, o problema voltava a ocorrer no mesmo local.
Com a instalação das câmeras, esse cenário começa a mudar. Equipados com tecnologia capaz de registrar imagens em alta definição e identificar placas de veículos, os sistemas de videomonitoramento permitem localizar os responsáveis pelas infrações e aplicar as penalidades previstas na legislação ambiental.
Tendência na região
Novo Hamburgo não é o único município a utilizar a tecnologia para combater o descarte irregular.
Em maio, a Prefeitura de Estância Velha instalou câmeras com capacidade de identificar materiais transportados e realizar a leitura de placas de veículos. Os equipamentos foram posicionados em pontos considerados críticos na Avenida 1º de Maio, nas esquinas com as ruas Henrique Konrad Filho e Arsilda Trein, além de um totem nas proximidades do Ecoponto.
Em cerca de um mês de operação, foram lavradas 11 autuações com base nas imagens da câmera instalada em frente ao Ecoponto, totalizando R$ 35.698,84 em multas. Outras duas autuações ocorreram por meio de câmeras instaladas em diferentes pontos da cidade, somando R$ 16.482,52 em penalidades.
Assim como em Novo Hamburgo, além do pagamento das multas, os infratores também foram obrigados a recolher os resíduos descartados e comprovar à Secretaria de Meio Ambiente, Pecuária e Agricultura (Semapa) a destinação correta dos materiais.
A tendência deve avançar para outros municípios do Vale do Sinos. Em Campo Bom, a Prefeitura prepara a instalação de 23 novas câmeras de videomonitoramento em locais conhecidos pelo descarte irregular de resíduos.
O projeto prevê a criação de um sistema estratégico para monitorar pontos críticos em tempo real, identificar infrações ambientais e ampliar a capacidade de atuação dos órgãos fiscalizadores.