A música que nasceu quase por acaso em uma Belina velha e acabou virando hino de gerações foi o ponto central da entrevista de Carlinhos Carneiro e Pilla para a websérie Causos & Cantos, do Grupo Sinos. O encontro ocorreu no Studio Soma, em Porto Alegre, espaço que também foi palco dos ensaios de Carlinhos Carneiro & os Excelents Animais — grupo criado para reviver os clássicos da Bidê ou Balde tendo Carlinhos e Pilla como integrantes originais — para o show que celebrou, em setembro, os 20 anos do Acústico MTV Bandas Gaúchas.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
E foi nesse tom nostálgico, de memória e reencontro, que os dois músicos revisitaram a história de “Mesmo que Mude”, canção que escapou por pouco de ser engavetada por um suposto plágio do Namoro na TV, do Sílvio Santos.
Tudo começou no banco de trás de uma Belina com sabores de ferrugem. Pilla, guitarrista da Bidê ou Balde, mostrou uma ideia de melodia à banda durante o trajeto até um ensaio. Tomado pela inspiração — talvez para abafar o “tec-tec” da “viatura” —, Carlinhos imediatamente começou a cantarolar aquela que viria a ser um dos hinos do Rock Gaúcho.
“Na hora já saiu: tarara-raraaaa, tarara-raraaaa”, relembra. Empolgado, Pilla foi enfático: “Bah, é isso!”. Mas Carlinhos, no auge de seus 20 e poucos anos, imediatamente tratou de jogar um balde de água fria. “Eu disse para eles: ‘não, gurizada, essa música já existe. É o tema do Namoro na TV, do Silvio Santos’”, contou o vocalista
A revelação gerou frustração (tanto ou maior que aquela vivida pelos pretendentes no programa de relacionamentos do Sr Abravanel). Desenvolver a canção a partir daquele “tarara-raraaaa” seria plágio. No estúdio, a banda discutiu o caso e descobriu que a trilha do programa de TV vinha, na verdade, de um filme dos anos 1980, Em Algum Lugar do Passado, estrelado por Christopher Reeve.
“Deu uma frustração porque eu não podia inventar uma letra para uma melodia tão bonita sem ser um plágio. Fiquei um tempão preso a isso e não consegui inventar uma letra e uma outra melodia para aquela música bonita que o Pilla tinha me mostrado”, relembra o vocalista. “Nessa época eu tinha acabado um relacionamento e estava levando um tempão para superar. Então acabei fazendo uma letra para essa música que tivesse a ver com aquilo, para aquela música que a gente achava que seria plágio.”, acrescenta Carlinhos.
Em algum lugar no passado
Ao que parece, superar a melodia era mais difícil que deixar para trás o romance findado. E, por isso, Carlinhos não se deu por satisfeito: “Eu fiquei um tempão sem conseguir escrever nada, achando que não podia inventar uma letra para uma melodia tão bonita sem correr o risco”.
Se fosse nos dias atuais, bastariam alguns segundos para tirar o celular do bolso e fazer uma rápida pesquisa para sanar qualquer dúvida. Mas estamos falando de 2004, onde a mídia mais atual era o jornal impresso disposto nas bancas a partir das seis da manhã. E por falar em jornal, antes de ser músico, Carlinhos já havia conquistado o diploma na comunicação. Assim, como todo jornalista que se preze, foi atrás da informação e buscou a trilha sonora do filme.
“Para a minha surpresa, não tinha nada a ver com o que eu tinha cantado, era completamente diferente. Aí me virei para o Pilla e falei ‘oh meu, tá liberado, podemos usar aquela melodia’, e aí começamos a trabalhar nela e foi para o nosso disco de 2004, É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos. Na hora de gravar para a Demo, liberamos para que essa música existisse de fato. E aí surgiram várias questões musicais muito interessantes, como o surgimento do pedal, o talk box, no meio do estúdio.”

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
“Foi o ponto de partida para que a música entrasse no álbum, ainda com arranjos pesados de guitarra e talk box — aquele efeito sonoro com a mangueira de boca, que virou marca registrada do hit. No ano seguinte, no Acústico MTV Bandas Gaúchas, ela ganharia a roupagem suave que a transformou em um dos maiores sucessos do rock gaúcho. Ali ela pegou corpo e virou maior que nós todos”, resume Pilla.
Larger Than Life
O impacto de “Mesmo que Mude” não ficou restrito às paradas musicais. “Eu gosto muito da expressão em inglês Larger Than Life. Essa música virou isso: maior que a Bidê ou Balde, maior que o Carlinhos, maior que o Pilla. Porque ela atingiu tanta gente, ganhou significados tão profundos, que não pertence só à banda”, definiu Carlinhos.
Esses significados começaram dentro de casa. Jornalista de formação, o vocalista enfrentava a desconfiança do pai em relação à carreira musical. “Ele não era muito seguro de ver o filho largando o jornalismo para viver de banda. Mas quando ouviu essa música no acústico, chorou, se emocionou e disse: ‘essa sim, meu filho’.” Poucos meses depois, o pai faleceu repentinamente. “A primeira vez que cantei a música depois da morte dele, percebi que não falava mais só de um fim de namoro, mas de como continuaria amando aquele velho mesmo na ausência dele. Mudou tudo para mim”, descreve Carlinhos.
Com o tempo, a letra sobre impermanência passou a se conectar com outras histórias. Em 2013, a Bidê foi convidada a homenagear familiares e sobreviventes da tragédia da Boate Kiss no Planeta Atlântida. “Foi emocionante, e desde então a música se transformou também nesse lugar de memória coletiva”, disse Carlinhos. Em Porto Alegre, anos depois, uma mulher o reconheceu em uma hamburgueria. “Ela chorou, me abraçou e contou que perdeu a irmã na Kiss. Disse que quando a gente tocou, aquilo significou muito para a família dela. Aí entendi que a música era maior que tudo.”

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
A canção ainda se reinventou em outras linguagens. Em 2017, virou livro infantil ilustrado por Marcel Trindade, que imaginou uma história sobre duas crianças separadas pela vida. E, em casamentos, tornou-se até trilha de pedidos de noivado. “Já perdi a conta de quantas vezes nos pediram para cantar em casamentos”, contou Pilla. “Eu até dizia que era uma música sobre separação, mas eles respondem: ‘não, é a nossa música’. Então hoje deixo quieto. Ela é o que cada pessoa quiser que seja”, completou Carlinhos.
Da mão quebrada à mão pedida em casamento
Se no passado a canção já havia se mostrado maior do que a própria banda, a simbologia se renovou em 2025, nas duas noites em que o Araújo Vianna reviveu o Acústico MTV Bandas Gaúchas. Em 2005, Carlinhos subiu ao palco com a mão quebrada. Duas décadas depois, voltou para pedir a mão da namorada em casamento diante da plateia, como um complemento perfeito ao que faltava duas décadas antes.