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PRESENTE E FUTURO

"Conseguimos fazer coisas que nunca fizemos na Venezuela": O que pensa família que vive na região após queda de Maduro

Familiares que saíram de Caracas em períodos diferentes, falam sobre vida na Venezuela e contato com parentes que continuam no país

"Conseguimos fazer coisas que nunca fizemos na Venezuela": O que pensa família que vive na região após queda de Maduro
Publicado em: 09/01/2026 às 06h:53
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Há quatro meses, quando deixou a cidade de Caracas ao lado do marido, dois filhos e grávida de 4 meses, Denis Subero, 29 anos, não imaginava que o presidente venezuelano Nicolás Maduro seria deposto e levado aos Estados Unidos. “Meu esposo era militar e ganhava muito mal. Quando quis sair do exército, começou a ser ameaçado. Na Venezuela não há liberdade de expressão”, conta.

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Denis com os filhos e a sogra, Eliane  | abc+



Denis com os filhos e a sogra, Eliane

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial

Morando no bairro Boa Saúde, em Novo Hamburgo, Denis está no oitavo mês de gestação. A escolha pelo Vale do Sinos foi natural, afinal, os sogros e o cunhado mais novo moravam na cidade há mais tempo. “Eles vieram primeiro, então isso facilitou nossa vinda.”

Como o marido foi militar no país vizinho, eles vieram na situação de refugiados. “A decisão de vir ao Brasil foi política e econômica. Não há comida, não há trabalho. Aqui mudamos de vida.” Atualmente Luís Diaz trabalho no Centro de Distribuição das Farmácias São João, em Gravataí. “Em quatro meses conseguimos fazer coisas que nunca fizemos na Venezuela. Compramos comida sem nos preocupar com a quantidade.”

Já os filhos, um menino e uma menina, de 10 e 5 anos, começaram a estudar imediatamente. “Eles se adaptaram super bem na escola e com o idioma também”, afirma a mãe, orgulhosa, ainda utilizando o espanhol para se comunicar.

Se pensa em voltar à Venezuela? Apenas em um cenário muito distante. “Precisam mudar desde a raiz, o governo que está agora não vai fazer nada de diferente”, diz, se referindo a vice-presidente Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente a presidência após a captura de Maduro.

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Contato com a família

Denis ainda tem contato com familiares que vivem em Caracas. O pai, por exemplo, não pensa em sair do país. “Conversamos todos os dias. Ele é comerciante, então não pretende vir ao Brasil.” Ainda assim, relata que há medo na população. “A situação é difícil, a comida ficou mais cara e as pessoas temem sair na rua, por causa dos apoiadores do Maduro.”

Irmãos gostam de futebol e já são gremistas  | abc+



Irmãos gostam de futebol e já são gremistas

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial

Uma espécie de milícia armada acabou se formando em Caracas e cidades do entorno da capital. “Não são da Polícia, não são do exército. Mas param e revistam quem está na rua, procuram por mensagens contra o governo”, reitera. 

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Questionada se lembra do governo de Hugo Chávez, ela diz que sim. “Meu primeiro voto foi em Chávez. Na época havia comida, saúde e condições dignas. Quando ele ficou doente, começou a loucura.”, completa.

Oportunidades no Brasil

Quem recebeu os familiares em Novo Hamburgo foi a sogra de Denis, Eliana Gutierrez, 50 anos. “Estou há dois anos aqui.” Ela saiu de Caracas de ônibus até a fronteira com o Brasil. De lá, partiu para Boa Vista, onde embarcou em um avião até Curitiba. “Depois peguei um ônibus até Porto Alegre e fui recebida pela minha sobrinha”, detalha.

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Eliana e Denis moram em Novo Hamburgo; elas saíram de Caracas, na Venezuela  | abc+



Eliana e Denis moram em Novo Hamburgo; elas saíram de Caracas, na Venezuela

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial

Logo começou a trabalhar, mas precisou parar por problemas de saúde. “Sou muito bem atendida. Recebo as medicações, tratamento. Agradeço demais ao Brasil.” O marido, atualmente com 61 anos, trabalha com o filho do meio no CD da São João em Gravataí. “Na Venezuela não davam emprego para o meu marido por ter mais de 50 anos. Aqui, com 61, conseguiu trabalho.”

Apesar de estar com o esposo, dois filhos, nora e dois netos (o terceiro a caminho), a família de Eliana ainda não está completa. “Meu filho mais velho segue em Caracas. Ele trabalha no aeroporto, está estabilizado.”

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Residente no Rio Grande do Sul, Eliana não pensa em um retorno imediato ao país de origem. No entanto, não descarta a hipótese. “Se o futuro da Venezuela permitir, pode ser que volte”, reflete.

Em Novo Hamburgo, conforme Jeferson Mendes, gerente de políticas públicas para igualdade racial da Secretaria de Desenvolvimento Social e Habitação de Novo Hamburgo, são cerca de 2 mil venezuelanos vivendo na cidade. Destes, 1,7 mil estão no Cadastro Único (CadÚnico). “Conseguimos fazer um trabalho importante na comunidade, auxiliando com documentação e apoio que eles precisam ao chegar no município”, reforça Mendes.

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Outras cidades também receberam venezuelanos 

Além de Novo Hamburgo, Esteio e Canoas também receberam muitas pessoas vindas da Venezuela nos últimos anos. Em Canoas é estimado que cerca de 1.744 famílias de venezuelanos morem na cidade. O monitoramento é realizado pela Associação Migrantes e Refugiados Unidos. Um censo é feito para que os imigrantes tenham monitoramento constante. 

Já em Esteio, a população de venezuelanos varia entre 1,4 e 1,5 mil pessoas, de acordo com a prefeitura. 

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Outros municípios nos Vales do Sinos e Paranhana também receberam imigrantes, que se tornaram rapidamente parte da comunidade da região. 

Mercado de trabalho e importância na indústria 

Um levantamento preparado pela Unidade de Estudos Econômicos do Sistema Fiergs mostra que 354,4 mil estrangeiros ocupam vagas formais no Brasil. Destes, 171,3 mil são venezuelanos, ou seja, 48% das funções executadas por imigrantes, são ocupados por pessoas vindas da Venezuela.

A mão de obra venezuelana apresenta uma configuração distinta. A maior concentração está na Indústria, com 85,8 mil trabalhando no setor. Já a área de Serviços emprega 82 mil venezuelanos.

Do total de venezuelanos empregados no setor industrial, 72,5 mil atuam na Transformação, seguidos por 11,8 mil na Construção, 1,2 mil nos Serviços Industriais de Utilidade Pública (SIUP) e 301 trabalhadores na Indústria Extrativa.

Entre os estados, Santa Catarina lidera a absorção da mão de obra venezuelana (29,0%), seguido pelo Paraná (20,7%), Rio Grande do Sul (13,8%) e São Paulo (10,0%)

No RS, 55,7% da mão de obra estrangeira empregada é de origem venezuelana, seguida por haitianos (15,1%), por argentinos (7,7%) e por uruguaios (7,1%). Esses trabalhadores se concentram majoritariamente na Indústria, Serviços e Agropecuária.

As regiões do Estado que mais recebem trabalhadores vindos da Venezuela são: Serra (5,4 mil), Norte (1,9 mil) e Vale do Sinos (1,1 mil). No Vale do Caí são 521 venezuelanos no mercado formal de trabalho, enquanto no Vale do Paranhana e Encosta da Serra são 311.

Queda de Nicolás Maduro

Eleito vice-presidente na chapa de Hugo Chávez em 2012, Nicolás Maduro assumiu a presidência logo após a vitória, o motivo foi a doença de Chávez. Após a morte do presidente, em março de 2013, novas eleições foram convocadas e Maduro venceu.

O governo passou a gerar controvérsia e críticas da comunidade internacional e dos venezuelanos. Apesar disso, foi reeleito em 2018, em uma disputa que não foi reconhecida pela oposição, sendo acusado de fraude.

No último sábado (3) acabou capturado pelo DEA, agência federal dos EUA para controle de narcótico. Deposto, Maduro foi levado com a esposa para Nova Iorque, onde está preso sob suspeita de narcotráfico.

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