Há cerca de 40 minutos e quase 17 quilômetros do Centro de Canela, é possível vivenciar uma experiência inédita na Região das Hortênsias. Ao adentrar o interior da cidade, passar por belas paisagens, campo e enfrentar uma leve estrada de chão, moradores e visitantes podem mergulhar num universo diferente das propostas turísticas que são ofertadas.
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Foto: Fernanda Fauth/GES-Especial
É o roteiro étnico-cultural que apresenta a história, gastronomia, estilo de vida e as tradições do povo guarani Yviã Porâ. Apesar de ser uma comunidade reservada, ao chegar, crianças e adultos te recepcionam, com toda hospitalidade e abraços.
Ao longo do caminho, placas indicam o trajeto e, na chegada, até mesmo um espaço instagramável foi montado, para que o visitante já se sinta parte da família.
Como surgiu
A proposta nasceu há alguns meses, inspirada em outras que ocorrem pelo Brasil. Com a abertura de um edital da administração municipal, a artista Kira Luá, que já acompanhava o grupo indígena há cerca de quatro anos, sugeriu à aldeia que se inscrevessem.
A comunidade, nos últimos anos, passou por diversas situações, entre elas, a mudança de local de moradia. Antes próxima à Usina dos Bugres, deslizamentos de terra, invalidaram a continuidade naquela área de mata, com as chuvas de 2024. Eles foram remanejados para o local atual, que fica na Linha São Paulo.
“Sempre tentei apoiar eles, nas necessidades, e surgia muito sobre a dificuldade em ir para a cidade, por não ter transporte, ônibus. O único carro que eles têm é velhinho, sempre indo para mecânico, então para virem para vender o artesanato, acaba saindo caro”, relata Kira.
Com a adesão à disputa municipal, no ano passado, o projeto, chamado Arte e Cultura Guarani-Mbya Rembiapo, foi selecionado em primeiro lugar pela política cultural. Assim, recebeu valores de emendas impositivas da Câmara – cerca de R$ 10 mil -, com apoio da Prefeitura de Canela e do Departamento de Cultura de Canela.
A partir da seleção, diversas etapas foram elaboradas pela artista junto à comunidade guarani, desde fevereiro. “Fizemos toda parte de acessibilidade, com construção de rampa, sinalização com instalação de placas, criamos o roteiro, que sai da Igreja e passa por parques, como Alpen e Jolimont, até a aldeia. É um caminho novo, rural, que pode ser inclusive o pontapé inicial para um roteiro a partir da cachaçaria”, explica Kira.
Na aldeia, ainda, dois banheiros ecológicos foram construídos para os visitantes. “Ainda foi comprado mais material para o artesanato, foi arrumada toda a área comum, onde acontecem as oficinas de dança e arco e flecha”, cita.
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O primeiro grupo fez a visitação no dia 19 de abril, em uma data simbólica, Dia dos Povos Originários.
Conhecer a história
“Acho que o roteiro pra gente é muito importante, porque a pessoa vai conhecer nossa história, nossa cultura. Estamos aqui em Canela há quatro anos, enfrentamos os deslizamentos e passamos muitas dificuldades, mais de 30 dias isolados, naquela época. Agora estamos mais tranquilos, com saúde”, coloca o cacique Marcelo Cabral.
A forma de renda da comunidade, atualmente, é limitada à venda do artesanato. “E agora esse roteiro vai ajudar, porque vai poder comprar aqui nosso artesanato também. Queremos que as pessoas venham visitar, venham no evento, para conversar, conhecer nossos costumes”, enfatiza.
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Do arco e flecha à culinária típica
A ideia inicial é que o roteiro ocorra uma vez ao mês, preferencialmente, junto a feriados. O próximo encontro será no dia 6 de junho e a proposta, inclusive, é resgatar tradições da Festa Junina, celebração que possui vínculos com a história dos povos originários.
Na visita, os turistas são recebidos na Casa do Artesanato, onde podem conhecer e comprar artigos feitos pelas mulheres da comunidade, como artigos em madeira, bijuterias e cestas. Podem fazer pintura facial – mulheres são representadas com símbolos de aves, enquanto homens, com felinos.
Em seguida, canto e dança guarani, que contam com chocalho e violão. Após, os visitantes são convidados a aprender a usar arco e flecha. Por conta da legislação atual, os indígenas não caçam mais, mas o utensílio se tornou recreativo.
Outro momento de imersão na cultura guarani ocorre durante a degustação da alimentação típica, com pão de cinzas feito com trigo e água e assado diretamente na fogueira, além de mel silvestre e mingau.