O preço do diesel no Brasil entrou em uma espécie de cabo de guerra nos últimos dias. De um lado, o governo federal anunciou a redução de impostos e um subsídio para tentar conter a alta do combustível. De outro, a alta do petróleo no mercado internacional e um reajuste nas refinarias pressionam os preços para cima. O resultado é um cenário de incerteza para consumidores e para o próprio setor de combustíveis.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
O que fez o governo
Na quinta-feira (12), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a redução a zero das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel, além da criação de uma subvenção financeira ao combustível. Segundo o governo, a medida poderia representar uma redução potencial de até R$ 0,64 por litro.
A iniciativa foi anunciada após a disparada do preço do petróleo no mercado internacional, impulsionada pela escalada do conflito no Oriente Médio.
O que fez a Petrobras
Um dia depois do anúncio do pacote, a Petrobras anunciou um reajuste de 11,6% no preço do diesel nas refinarias, elevando o valor médio para R$ 3,65 por litro. Na prática, isso significa um aumento de cerca de R$ 0,38 por litro na etapa inicial da cadeia de distribuição.
Se os dois efeitos fossem repassados integralmente ao consumidor, o saldo ainda seria negativo em aproximadamente R$ 0,26 por litro, o que indicaria uma possível redução no preço final.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Por que o efeito ainda é incerto
Na prática, porém, o impacto nas bombas depende de outros fatores da cadeia de distribuição. Segundo o Sulpetro — sindicato que representa o setor de combustíveis no Rio Grande do Sul —, o diesel vendido no Brasil é composto por uma mistura de combustíveis.
Cerca de 85% é diesel de origem fóssil e 15% é biodiesel, que não foi incluído nas medidas de desoneração. Isso mantém parte do custo elevado. Além disso, há outros elementos que influenciam o preço final:
- estoques comprados anteriormente pelas distribuidoras
- custos de importação de diesel
- variação do petróleo no mercado internacional
- margens e estratégias comerciais de cada posto
Diesel importado aumenta sensibilidade do mercado
Outro fator apontado pelo setor é a dependência parcial de diesel importado. De acordo com o Sulpetro, cerca de 20% do diesel consumido no Brasil vêm do exterior, o que torna o mercado mais sensível a oscilações internacionais.
Mesmo assim, a entidade afirma que não há desabastecimento no país, embora o diesel seja o combustível que mais exige atenção no momento. “O que ocorre é um estressamento devido a um aumento de 20% a 30% na demanda deste combustível. Por isso, as distribuidoras priorizam os postos com quem têm contrato, o que pode levar a uma demora maior para o atendimento dos demais postos”, explica o presidente do Sulpetro, João Carlos Dal’Aqua.
O que o motorista deve esperar
No curto prazo, o comportamento do preço do diesel dependerá principalmente de dois fatores: a evolução do preço do petróleo no mercado internacional e o ritmo de repasse dos custos na cadeia de distribuição.
Por isso, a tendência do combustível nas próximas semanas ainda é considerada incerta, podendo tanto registrar quedas pontuais quanto novos reajustes, dependendo da evolução do cenário global.
Transporte de cargas acompanha impacto no diesel
A alta recente do diesel também preocupa o setor de transporte rodoviário de cargas. Segundo o SETCERGS, o combustível é o principal insumo da atividade e qualquer variação relevante no preço afeta diretamente os custos das transportadoras.
A entidade afirma acompanhar os desdobramentos do conflito no Oriente Médio e possíveis impactos no mercado internacional de petróleo, além do reajuste anunciado pela Petrobras para o diesel vendido às distribuidoras.
De acordo com o sindicato, oscilações no preço do combustível podem exigir renegociação de contratos de frete, já que o setor opera com margens reduzidas e tem pouca capacidade de absorver aumentos repentinos no principal custo da operação.
O SETCERGS também observa que a redução de tributos anunciada pelo governo federal atinge apenas a parcela fóssil do diesel, que representa cerca de 85% da mistura comercializada no país, enquanto os 15% de biodiesel permanecem sujeitos à tributação.
E a gasolina?
No caso da gasolina, o cenário é diferente. As medidas anunciadas pelo governo federal se concentram no diesel e não incluem novos cortes de impostos sobre a gasolina.
Por isso, o preço do combustível segue mais diretamente a dinâmica do mercado internacional e as decisões da Petrobras. Se o petróleo continuar pressionado pela instabilidade geopolítica, aumentos também podem ocorrer nas refinarias e, posteriormente, chegar às bombas.
Contudo, os consumidores já notam o aumento. Nos vales do Sinos e Paranhana, por exemplo, o litro da gasolina comum subiu cerca de R$ 0,40 na última semana.
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