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RELATO VIRALIZOU

"Falta de humanização e violência obstétrica": gestante faz denúncia sobre atendimento durante parto em Canela

Casal, que teve a segunda filha no dia 9 de fevereiro, procurou o Hospital de Canela, onde registrou problemas no atendimento; bebê acabou nascendo no carro

Fernanda Steigleder Fauth
Publicado em: 17/02/2026 às 12h:12 Última atualização: 17/02/2026 às 12h:12
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“Precisamos entender até onde é protocolo. E a partir de quando é invasão e violência obstétrica.” Um relato viralizou nas redes sociais nesta semana, envolvendo o Hospital de Caridade de Canela (HCC). Alê Braum e Ramiro Santos, moradores da cidade, estavam à espera da segunda filha, Serena, quando a gestante entrou em trabalho de parto e procurou a casa de saúde, na madrugada de segunda-feira (9). Foi lá que o tão sonhado momento virou um pesadelo.

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Toques não consentidos, falta de médico obstétrico e negligência são apontados pelo casal, em vídeo que está com mais de 50 mil visualizações no Instagram. “A gente decidiu fazer esse vídeo, porque muitas pessoas podem passar por isso e não ter um desfecho que nem o nosso. Sofremos negligência no hospital, violência obstétrica e a gente acredita que isso precisa ser dito, precisa ser relatado”, aponta a mãe. 

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Hospital de Caridade de Canela (HCC)



Hospital de Caridade de Canela (HCC)

Foto: Izaque Santos/PMC

O relato

“Chegamos por volta de 5h30, a Alê estava com as contrações ritmadas, estávamos controlando em casa. Nos passaram direto ali para a enfermaria, para a emergência. Tiraram um rapaz da cama, não sei o que ele tinha, e colocaram ela ali deitada, sem trocar lençol, fronha, junto com outras pessoas que não sabemos o que tinha. Poderiam usar a desculpa que o hospital estava lotado, mas não estava. Havia apenas uma paciente aguardando ser atendida”, pontua o marido e pai, Ramiro.

“Os enfermeiros estavam totalmente despreparados, nenhum nos tratou bem, simplesmente não deram boa noite, nada e pediram para ela deitar, mesmo com dor. Não nos levaram para a maternidade, chamaram um enfermeiro homem que não tinha nada a ver com maternidade, e pediu para eu me retirar, para examinar ela. Eu me recusei e questionei se era obstetra e ele falou que não, que estavam sem médico, estavam sem obstetra e sem pediatra. E aí eu perguntei o que eles estavam fazendo então”, conta ao longo do vídeo o pai.

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Em resposta, o profissional respondeu que estavam trabalhando para encaminhar a gestante para o Hospital Arcanjo São Miguel (HASM), em Gramado, de ambulância. “Eu falei para chamar logo, porque ia ganhar o bebê a qualquer momento, ela está com muita dor. E falaram que ia chamar. Pediram para fazer o toque e dissemos que não queríamos”, contextualiza. 

Deboche e machucado

Um médico clínico geral também foi chamado e os pais contam que ele medicou apenas um Buscopan. Em seguida, uma enfermeira solicitou para fazer o acesso em Alê. “Eu vi que estava tomando um rumo que não deveria. Mas ali na hora, para amenizar a situação, deixamos. Nesse momento a enfermeira questionou se tínhamos outro filho e dissemos que sim, que tinha sido parto normal. A partir disso, elas começaram a debochar entre elas da gente, porque a gente ia ter por parto normal”, relembra. 

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Ramiro diz que questionou por três vezes se a ambulância havia sido mesmo chamada. “Pediram para ela deitar, ela não queria, eles forçando ela a deitar para fazer o tal toque. E foi o enfermeiro que fez, nem foi o médico, com um total despreparo e ainda machucou minha esposa, tentando encontrar o bebê, e dizendo que estava alto. O médico perguntou, então, se a ambulância tinha sido chamada e o enfermeiro respondeu que não, porque estavam esperando o doutor chegar, que chegaria perto das 7 horas”, fala Ramiro.

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“Pensei: ‘vou ter que assumir, vou ter que fazer o parto'”

Alê já estava perdendo sangue e já tinha sentido a bebê descendo. “A enfermeira que chegou olhou, viu o cabelinho dela, e mesmo assim se negaram de chamar a ambulância. Ela fez o toque sem consentimento, mesmo vendo a cabecinha da bebê, ela tentou colocar a mão toda, tentou tocar o meu bebê num momento de contração, num momento de dor. Mostrou nervosismo na hora de mediar o parto”, aponta a mãe. 

“Alê estava em pé, apoiada na cama, quase numa posição de quatro apoios, porque era o jeito que ela se sentia menos desconfortável. E a enfermeira chegou dizendo para deitar, porque se não podia acontecer um acidente. Colocou travesseiros, panos no chão, por medo de derrubar a criança e ali eu pensei: ‘vou ter que assumir, vou ter que fazer o parto da minha filha, porque estão com medo de encostar nela’ “, diz. 

Foi aí que Ramiro ligou para o sogro e pediu auxílio para levar a Gramado. “E eles não queriam deixar, ficaram batendo o pé ali, foram atrás de nós até a calçada. A sorte, porque nem abririam a porta, que chegou uma ambulância com uma pessoa machucada, e a gente conseguiu sair por aquela garagem. Ela sentindo muita dor e eu tendo que pedir para ela ter muita força. A bebê acabou nascendo dentro do carro. E graças a Deus, nasceu bem, com saúde”, afirmam.

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Nascimento no carro

A resolutiva de fazer um vídeo vai de encontro a um alerta aos futuros pais da cidade. “Se acontece isso com uma pessoa, e tem problema na hora, um ou ambos perderiam a vida, por isso estamos fazendo essa denúncia”, coloca Ramiro.

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“E também dizer que é muito triste ter que pensar que é mais seguro ganhar em casa ou no carro do que no hospital, num local que deveria acolher e mediar isso. A gente realmente achou mais seguro ter ela no carro, e para que isso não aconteça com outras famílias, que seja primeiro parto ou que seja uma gravidez de risco, talvez o desfecho não fosse o mesmo”, lamenta Alê.

O casal pede que as autoridades assumam e vejam os problemas da casa de saúde. “Que se tome uma providência. A equipe não tem culpa da falta de médicos, de profissionais. Mas tem culpa na falta de profissionalismo e na falta de ética no atendimento. Humanização não é pintar placenta, é atender bem o paciente, e se não sabe, terceiriza o atendimento para quem sabe. Para eles pode ser um paciente, mas a pessoa que está ali, para receber o bebê, é o amor das nossas vidas”, finalizam.

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Hospital de Canela fará apuração interna

O interventor do HCC, Cezar Augusto Chaves, assina nota que foi publicada sobre o caso. “Diante da repercussão e da gravidade dos fatos narrados, foi determinada a imediata apuração interna, com instauração de procedimento administrativo para esclarecimento completo da situação”, relata. 

A preservação integral de todos os registros e documentos relacionados ao atendimento, incluindo prontuário, escalas e registros de plantão, também foram determinados “garantindo análise técnica criteriosa, responsável e imparcial”.

A casa de saúde também coloca que, da chegada até a saída da paciente, foram aproximadamente 46 minutos. “Importante mencionar que a saída ocorreu antes da conclusão do fluxo de transferência que estava em andamento, sem que houvesse autorização da equipe médica”, diz o comunicado.

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Veja a nota na íntegra

“O Hospital de Caridade de Canela, por meio de seu Interventor, Cezar Augusto Chaves, informa que tomou conhecimento do relato divulgado nas redes sociais envolvendo atendimento obstétrico realizado na instituição.

Diante da repercussão e da gravidade dos fatos narrados, foi determinada a imediata apuração interna, com instauração de procedimento administrativo para esclarecimento completo da situação.

Também foi determinada a preservação integral de todos os registros e documentos relacionados ao atendimento, incluindo prontuário, escalas e registros de plantão, garantindo análise técnica criteriosa, responsável e imparcial.

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Conforme registros internos, a cronologia do atendimento foi a seguinte:

5h27 – Chegada da paciente à unidade hospitalar;
5h30 – Início do atendimento pela equipe de plantão;
6h01 – Confirmação de aceite para encaminhamento a hospital de referência com suporte obstétrico completo;
6h05 – Contato com a empresa responsável pela remoção;
6h13 – Saída da paciente da unidade hospitalar, sem autorização da equipe médica;
6h20 – Chegada da ambulância ao HCC.

De acordo com os registros, desde a chegada até a saída da paciente transcorreram aproximadamente 46 minutos. Importante mencionar que a saída ocorreu antes da conclusão do fluxo de transferência que estava em andamento, sem que houvesse autorização da equipe médica. A circunstância da saída da paciente também integra o procedimento de apuração instaurado.

O ocorrido foi formalmente registrado, inclusive com comunicação às autoridades competentes, conforme protocolo adotado em situações dessa natureza. Todos os fatos encontram-se devidamente documentados e estão sendo analisados no procedimento instaurado, observando-se rigorosamente o devido processo legal, com respeito aos direitos de todas as partes envolvidas, especialmente ao contraditório e à ampla defesa.

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O Hospital reafirma seu compromisso com a vida, com a segurança das gestantes e recém-nascidos e com a qualidade do atendimento prestado à comunidade.”

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