Com o crescimento constante nos números de feminicídio no Rio Grande do Sul, muitas mulheres têm se perguntado se seriam capazes de se defender caso fossem atacadas, seja por pessoas próximas ou até mesmo nas ruas.
E foi para que elas possam responder que sim que as prefeituras de São Leopoldo e Novo Hamburgo investiram na oferta de cursos gratuitos de defesa pessoal para as mulheres. As iniciativas têm como objetivo ampliar a sensação de segurança e permitir que elas se tornem capazes de, eventualmente, salvar as próprias vidas em situações de risco.
Em Novo Hamburgo, a ação ganhou sua segunda edição em 2026 com aulas nos dias 14, 21 e 28 de março na Sociedade Grêmio Atiradores, em resposta à grande adesão na primeira edição em outubro. “A proposta é que as mulheres aprendam práticas de autodefesa para diferentes situações”, afirma, em nota, o secretário de Segurança Pública, Rosalino Seara, proponente do projeto.
Força que cresce a cada aula
O professor de Jiu Jistu Diego Barreto Cruz destaca a evolução que as participantes tiveram ao longo das três aulas. “No primeiro dia as mulheres se mostraram um pouco tímidas, um pouco envergonhadas, algumas no canto delas, e depois fui conhecendo e descobrindo que já haviam passado por situações de abuso. Nós trabalhamos com situações reais de risco e ensinamos a se desvencilhar de apertos de pescoço, puxões…”, descreve.
“À medida que o treinamento foi passando, as mulheres vieram com mais experiência, com a postura mudada, com mais conhecimento na defesa pessoal. No final elas estavam todas juntas conversando com mais confiança e relataram que estavam com mais percepção de riscos para evitar qualquer tipo de situação perigosa, e era tudo resultado de técnicas que passamos nas aulas”, continua.
Em São Leopoldo, a opção já existia antes mesmo de os números chegarem a uma situação alarmante. Desde setembro de 2025, mulheres com mais de 6 anos de idade podem se inscrever por meio do link disponibilizado pelo Instagram da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (@semelsaoleo).
As aulas estão disponíveis no Piquete Feitoria, localizado na Rua Rua Otto Daudt, 831, no bairro de mesmo nome, e na Escola Estadual Professor Victor Becker, na Rua Reinaldo Kolling, que fica na Vila Glória, do bairro Scharlau.
No bairro Feitoria, as aulas ocorrem nas segundas e nas sextas, das 17h15 às 18h15. Já no bairro Scharlau, o horário é nas terças e quintas, das 18h às 19h.
Autoconfiança como mecanismo de proteção
Em São Leopoldo, as matriculadas são ensinadas pela professora Vitória Kuba Pires, que esteve no Top Ranking de 2024 na categoria adulto Feminino Advanced em Jiu-Jitsu. Ela conta que suas aulas envolvem ainda técnicas utilizadas no Jiu-Jitsu e no Muay-Thay, levando em conta também as necessidades de cada aluna.
“É muito importante sabermos identificar o perfil de cada pessoa, é por isso que não é qualquer um que pode ser professor. A gente tem que cuidar o toque, saber onde pode tocar, onde a pessoa é sensível. Não pode chegar na aluna e já tocar nela, porque ela pode não se sentir confortável com a situação”, explica.
Vitória Kuba acrescenta ainda que, para a defesa social se tornar mais eficaz, é preciso trabalhar também a mente. “Às vezes a aula vai ser para conversar. Vai ter alunas que vão estar passando por situações difíceis em casa e vão se abrir, e isso também é aula. Não é só ‘ensinar a dar porrada’, mas também escutar a aluna, entendê-la e fazê-la entender que aquilo é bom para ela.”
Para a atleta, a importância das aulas vai além da segurança nas ruas, mas também para a qualidade de vida como um todo.
“É uma oportunidade da mulher ter mais autoconfiança. Não é apenas por saber que consegue se defender, mas também no dia a dia, porque vai refletir em todos os aspectos da vida dela. Falo com propriedade porque vivo isso, tive uma infância com muita insegurança na escola e quando entrei na luta, aos 11 anos, virei outra pessoa e hoje sou a mulher que sou graças ao esporte.”

Foto: Grupo Sinos
Da defesa pessoal ao campeonato
Aluna de Vitória, a autônoma Mariza Borges Pinheiro, de 29 anos, mora no bairro Feitoria e, sem nunca ter tido contato com qualquer tipo de luta, decidiu conhecer os tatames do piquete há cerca de sete meses.
“Comecei pela minha saúde porque eu estava um pouco sedentária e uma amiga minha me falou que tinha surgido as aulas. O que fez eu me interessar pela defesa pessoal é que eu precisava também como mulher porque a gente nunca está preparada para um imprevisto e a gente nunca sabe de que lado vai vir. No mundo que vivemos hoje, com as mulheres sendo vítimas, decidi estar preparada”, lembra.
Se na primeira aula Mariza precisou aprender as técnicas do zero, agora sua vida é outra. “Eu participei do meu primeiro campeonato de Jiu Jitsu em abril. Treinei por um mês por meio das aulas de defesa pessoal porque perguntei para a professora onde tinha uma competição para eu lutar e perder o medo.”
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Assim como a mãe, Emilly Eduarda Pinheiro, de 11 anos, também achou melhor aprender a se defender. “Eu já tive problemas na escola com briga, então achei melhor estar preparada. Ainda não consigo participar de um campeonato, mas já consegui me defender de um colega na escola e isso foi legal.”
Onde pedir ajuda em casos de violência contra a mulher
Brigada Militar – 190
Deve ser acionada imediatamente em situações de violência em andamento. Atendimento 24 horas em todo o Estado.
Polícia Civil
A vítima pode registrar ocorrência preferencialmente em uma Delegacia da Mulher ou em qualquer Delegacia de Polícia. Também é possível solicitar medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha.
Delegacia on-line
Permite o registro de ocorrência e a solicitação de medidas protetivas de urgência pela internet, sem necessidade de deslocamento.
Central de Atendimento à Mulher – Disque 180
Funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. Recebe denúncias, orienta sobre direitos e encaminha para a rede de atendimento. A ligação pode ser anônima.
Ministério Público do Rio Grande do Sul
Atende vítimas em suas Promotorias de Justiça e oferece canais de atendimento virtual.
Defensoria Pública- 0800 644 5556
Presta orientação jurídica gratuita às vítimas.
Centros de Referência de Atendimento à Mulher
Oferecem acolhimento psicológico e social, além de orientação e encaminhamento jurídico.