No piso térreo do recém-inaugurado Museu Mãos Mágicas, em Picada Café — junto ao Parque Histórico Jorge Kuhn —, o visitante encontra uma exposição que mistura memória, arte e história. São as fotografias do dinamarquês Torben Eskerod, que acompanharam o antropólogo João Biehl na pesquisa que resultou no livro “Jammerthal – O Vale da Lamentação: A minha Guerra Mucker”. A visita pode ser feita por agendamento com a Prefeitura, e revela não apenas vestígios da Guerra Mucker, mas também valores e modos de vida que atravessaram gerações.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
A responsável pelo espaço, Patrícia Hansen, explica que a mostra nasceu de uma parceria construída a partir do lançamento do livro em 2024. Na ocasião, Biehl procurou a Prefeitura e apresentou a ideia de transformar o acervo fotográfico em exposição permanente. “As fotos foram doadas para cá e, a partir disso, começou o meu trabalho: onde expor? Quando surgiu o projeto do Museu Mãos Mágicas, decidimos aproveitar o térreo para a mostra. Foi uma forma de valorizar esse olhar sobre um bairro agrícola, sobre a colônia e suas memórias”, conta.
Segundo Patrícia, o material chama atenção não apenas pela dimensão histórica, mas também pela sensibilidade em retratar a vida cotidiana das pessoas. “Assim como no Jammerthal, há descendentes de Muckers em outras localidades, mas muitos preferiram não falar sobre isso, porque ser Mucker era ser considerado criminoso. Algumas famílias deram depoimentos, outras permaneceram em silêncio, mas o João conseguiu registrar fragmentos dessa memória. É um trabalho que mostra tanto a busca pela história como o modo de vida simples dessas comunidades”, resume.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Uma história além da oficial
A Guerra Mucker, ocorrida em 1874, foi registrada pela versão oficial como um levante messiânico, marcado pela violência e pela morte de vizinhos que se enfrentaram. Mas a obra de João Biehl segue em outra direção. “O livro tenta contar uma história que a história oficial não contou”, afirma.
Nascido em Picada Café e hoje professor em Princeton, nos Estados Unidos, ele voltou ao lugar da infância em diferentes fases da vida acadêmica. Visitou colônias, cemitérios, igrejas e casas, em busca de fragmentos que ainda persistem no cotidiano de famílias simples. “O que restou da guerra entre pessoas simples? Uma narrativa diferente da oficial, o que foi passado por avós e bisavós, geração após geração.”
Nesse percurso, o fotógrafo dinamarquês Torben Eskerod acompanhou Biehl em 1991 pelo Jammerthal, região de Picada Café. As imagens que compõem o livro e a atual exposição não são retratos de descendentes diretos dos Mucker, mas de pessoas que vivem onde eles viveram, herdeiros das histórias ouvidas em família.
“As fotografias se afastam da lógica documental e se aproximam do impressionista. Elas não separam passado e presente, mas mostram um fluxo único de pertença, de relação com a terra, com os animais e com a espiritualidade”, diz Biehl.
Exemplo disso é a imagem de uma planta nascida sobre um túmulo, iluminada pela luz do sol. “É a morte e a vida surgindo ao mesmo tempo. É a responsabilidade de cuidar dos mortos e reconhecer o pertencimento à terra.”
Luto, espiritualidade e resistência
Um dos achados mais significativos da pesquisa de Biehl é a forma como o movimento Mucker se formou em meio ao trauma da Guerra do Paraguai. Muitos homens morreram sem que suas famílias pudessem enterrá-los, e isso transformou o modo como as comunidades lidavam com a morte.
“Essas famílias criaram modos próprios de luto, porque na guerra os familiares morriam e não tinha o corpo para velar. Então começaram a se agregar ao redor da Jacobina (Maurer) e faziam o seu luto através dos transes dela, como se ela estivesse morta. Era como se ela oferecesse um consolo às famílias, e as famílias juntas se consolassem. Então acho que é uma cultura muito rica”, explica o autor.
A partir disso, as pessoas começaram a enterrar os mortos nos jardins, para mantê-los próximos. “Era uma prática de responsabilidade com os ancestrais. Mas isso foi visto como heresia, até crime, e por isso foram massacrados e se tornaram fugitivos”, acrescenta Biehl.
Essa dimensão espiritual, marcada pelo cuidado com os mortos e pela partilha do pão em comunidade, foi central no movimento em torno de Jacobina. Mas, ao olhar da elite econômica e das autoridades religiosas, conforme conta o antropólogo, acabou criminalizada.
O entrelaçamento de tempos
As fotografias de Eskerod foram captadas nos anos 1990, quando Biehl desenvolvia etapas de campo da pesquisa. Mesmo assim, captam práticas que remontam ao século XIX e que, em muitos casos, ainda persistem hoje. “Os costumes que encontrei nos anos 1990 eram semelhantes aos de séculos antes. E mesmo hoje, 30 anos depois das fotos, ainda persistem”, observa Biehl.
Em uma sequência, por exemplo, a câmera mostra uma igreja de 1860 ainda usada pela comunidade, ecumênica, onde fiéis acompanham um culto e saem depois ao som de uma bandinha. Crianças olham curiosas para o fotógrafo estrangeiro. “Sagrado e profano se misturam na mesma cena como também acontecia entre os colonos do século XIX.”
Homenagem às colônias remotas
O título do livro faz referência a Jammerthal, uma colônia de Picada Café. “Padres jesuítas já falavam em 1850 desse Vale da Lamentação. Para mim, era um lugar remoto e pouco conhecido, mas onde encontrei pessoas que carregavam um entendimento da vida, da ética, da história, que não aparece na narrativa oficial. O livro é também uma homenagem a elas”, relata o escritor.
Para o antropólogo, a Guerra Mucker deixou marcas de estigma e silêncio, mas hoje começa a ser ressignificada. “Vejo um certo orgulho em se associar aos Mucker atualmente. Eles resistiram ao controle de suas identidades, carregaram saberes sobre a natureza e a morte que continuam vivos.”
A obra também toca em lembranças pessoais. Biehl recorda quando sua avó o levava para lavar o túmulo do tio, todos os meses, no cemitério local. “Era uma prática de cuidado com os mortos, uma maneira de preservar a sabedoria dos ancestrais. Isso permanece até hoje.”
Essa dimensão íntima se entrelaça ao coletivo. Para ele, a arte de Eskerod — com quem ainda mantém contato e divide trabalhos — permite revelar algo que os documentos e arquivos não captam. “A arte ajuda a ver coisas que a narrativa não consegue mostrar. É um convite para que cada um volte aos seus próprios arquivos, às suas memórias de infância, às histórias de família.”
Reconhecimento
O livro Jammerthal – O Vale da Lamentação: A minha Guerra Mucker, lançado em 2024 pela Editora Oikos, foi finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico de Ciências Sociais em 2025, um dos maiores reconhecimentos da produção intelectual no Brasil.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial