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FENÔMENO CLIMÁTICO

El Niño pode elevar em até 160% o risco de cheias na América do Sul, aponta pesquisa

Estudo da Ufrgs mostra alta nas chances de enchentes e reforça alerta para o Sul do Brasil nos próximos meses

Publicado em: 04/06/2026 às 09h:25 Última atualização: 04/06/2026 às 09h:25
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As previsões de meteorologistas e até da Nasa apontam que o El Niño pode se assemelhar a episódios históricos. Um dos impactos mais frequentes do fenômeno é o aumento significativo das chuvas no Sul do Brasil, mas uma pesquisa alerta que o fenômeno pode afetar também as cheias, aumentando em até 160% as chances na América do Sul.

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O estudo, feito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), foi publicado na revista acadêmica internacional Communications Earth & Environment da Nature em agosto de 2025.

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Lajeado e Estrela foram atingidas por enchentes em 2023 e durante a catástrofe de 2024 | abc+



Lajeado e Estrela foram atingidas por enchentes em 2023 e durante a catástrofe de 2024

Foto: Mauricio Tonetto/P. Piratini

Primeiro, é preciso entender que o aquecimento do Oceano Pacífico em anos de El Niño resulta na expansão da água e, consequentemente, no aumento do nível do mar. Só nas últimas semanas, áreas próximas à costa do Peru registraram até 15 centímetros acima da média histórica esperada para meados de maio.

Esta elevação pode significar um episódio intenso, já que o fenômeno ainda não foi anunciado oficialmente pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA) dos Estados Unidos. A previsão é de que isso ocorra neste mês, já que a anomalia de temperatura do mar está em patamar de El Niño há sete semanas, de acordo com os critérios tradicionais da NOAA, e três, conforme o novo.

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El Niño e a Bacia do Rio da Prata

No decorrer da pesquisa da Ufrgs, a equipe estudou 45 anos de observações de vazão em 788 estações fluviométricas e concluiu que o El Niño tem uma influência “clara e consistente” nas cheias na Bacia do Prata, onde os riscos ficam sempre acima de 120% em comparação com períodos sem os efeitos do fenômeno. Ela abrange países como Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Brasil.

O pesquisador Fernando Mainardi Fan, que participou do estudo e é doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, afirma que isso não significa que existe este exato percentual de acontecer uma cheia, “só quer dizer que as chances de acontecerem são o dobro”.

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Onde tem maior probabilidade

No Brasil, a possibilidade de acontecerem inundações fica acima de 120% ao longo do Rio Paraná, por exemplo, que é o segundo maior da América do Sul em extensão. Ele sai de São Paulo e Mato Grosso, correndo até o estado paranaense.

A Bacia do Prata também inclui o Rio Uruguai, que corre em boa parte do território brasileiro, contando com Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e o Rio Paraguai, cujas cabeceiras estão no País, na região do Pantanal.

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“É claro que as bacias vizinhas […] sofrem com os mesmos efeitos”, explica Fan, que também é professor adjunto do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Ufrgs. Dentre elas, está o Rio Taquari, que chega ao Rio Jacuí, deságua no Lago Guaíba e alcança a Lagoa dos Patos.

Solo encharcado seguido de precipitação volumosa

O aumento das chances de eventos extremos no Sul do País está ligado em até 50% à chuva nas diversas estações do ano.

Durante o período de El Niño, por exemplo, a chuva antecedente, que deixa o solo encharcado, é de 20 milímetros. Logo em seguida, uma nova precipitação de 120 milímetros atinge o local. “Isso gera uma cheia muito forte”, explica Fan.

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Chances dobram

Ainda que as chances de cheias aumentem em até 120% na América do Sul, isso não significa que uma nova enchente catastrófica volte a acontecer no Estado.

No entanto, o pesquisador volta a reforçar a probabilidade de que o número de enchentes dobre. No Rio Taquari, por exemplo, que registrou cheias mais recorrentes, as chances aumentam. “Se tem, por exemplo, 20% de chance de acontecer, durante o ano de El Niño, isso pode aumentar até cerca de 40%.”

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Isso significa, segundo Fan, que há mais chances de que cheias aconteçam no RS durante os anos de El Niño. “E a gente deveria estar mais em alerta quanto a essa possibilidade.”

CONFIRA: El Niño: Meteorologista afirma que “haverá enchentes no Sul do Brasil no segundo semestre de 2026 e no primeiro de 2027” apesar da divergência entre projeções

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Projeção de novas cheias nos próximos meses

Em função dos efeitos do El Niño, o professor acredita que uma nova cheia possa ser registrada ainda nos próximos meses no Rio Grande do Sul. 

Entretanto, Fan corrobora com o que é dito incessantemente pelos meteorologistas desde que se identificou a probabilidade da atuação do fenômeno neste ano: não é possível prever com antecedência qual será a magnitude e as áreas mais afetadas.

“Isso só é possível de prever com cerca de uns 4 ou 5 dias de antecedência. Para alguns rios, como o Taquari, talvez menos […] Dois ou três dias de antecedência, apenas.”

Imagem do aquecimento do Pacífico em 2 de junho de 2026, antes do anúncio oficial da NOAA sobre El Niño | abc+



Imagem do aquecimento do Pacífico em 2 de junho de 2026, antes do anúncio oficial da NOAA sobre El Niño

Foto: NOAA

Enchente de maio de 2024 pode se repetir?

Apesar do aumento de episódios de chuva excessiva, o pesquisador reitera que a probabilidade de que aconteça uma nova enchente catastrófica como a de 2024, que devastou grande parte do RS, é muito pequena. “Vai sair de 1% para 2%.”

Por que o percentual é baixo?

Em 2024, as chuvas extremas que levaram à catástrofe no RS foram impulsionadas pela fase final de um forte El Niño. No entanto, ele não foi o único fator.

Além do fenômeno, houve aquecimento anômalo do Atlântico Tropical, bloqueios atmosféricos que mantiveram a instabilidade persistente, uma massa de ar quente no País e os efeitos globais de injeção massiva de vapor na estratosfera pela erupção do vulcão Hunga Tonga.

“Moral da história? O El Niño foi o grande vilão em 2024, mas havia vários outros juntos, e a concomitância de todos eles foi excepcional e rara”, disse a meteorologista da MetSul Estael Sias em março deste ano. É importante reiterar que, segundo ela, nenhum episódio é igual ao outro.

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Como os pesquisadores chegaram aos resultados?

Foram estudados dados da Rede Hidrometeorológica Nacional, monitorada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). “Ela é uma rede que monitora vários pontos de chuva, invasão e níveis dos rios em todo o território brasileiro”, explica o professor da Ufrgs.

As séries históricas dos dados de precipitação, assim como dos níveis de rios e vazões, também foram analisadas. A partir disso, foi verificado como eles se comportaram tanto durante os anos de El Niño quanto de La Niña e neutros.

Autoridades falam sobre El Niño

Neste ano, as previsões meteorológicas para o El Niño, incluindo as de pesquisadores da Nasa, apontam para a possibilidade de o fenômeno ser intenso, com potencial para se tornar um dos mais fortes em 140 anos.

Em Santa Catarina, por exemplo, a possibilidade de um episódio extremo levou o governo estadual a decretar um alerta climático. A medida segue válida por até 180 dias.

O decreto serve para que as cidades possam se preparar para os possíveis efeitos do fenômeno, já que retira e acelera parte das burocracias para obras e ações preventivas e emergenciais.

Em abril, o governo do RS se pronunciou sobre o fenômeno. Na época, o governador Eduardo Leite e a meteorologista Cátia Valente afirmaram que o cenário de 2026 não deve ser igual ao de 2024.

O governador ainda disse que, desde então, foram feitos investimentos em infraestrutura, monitoramento e prevenção, para reduzir impactos de cheias e a capacidade de reação. “Em nenhum momento estamos prevendo que eventos como os de 2024 vão ocorrer”, afirmou a meteorologista.

Já no início de junho, o fenômeno voltou a ser discutido no fórum “O RS diante de um novo alerta climático”, realizado pelo Grupo Sinos. Durante o encontro técnico, a meteorologista Estael Sias reforçou que cada El Niño tem a própria capacidade e que não há como prever fatores climáticos semelhantes a 2023 e 2024.

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