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VIOLÊNCIA DE GÊNERO

Números de 2026 evidenciam epidemia de violência contra as mulheres na região

Situação nas principais cidades daqui reflete uma realidade trágica e comum também ao Estado

Publicado em: 11/02/2026 às 07h:00 Última atualização: 13/02/2026 às 08h:15
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Com a morte de uma mulher, ontem, em Santa Clara do Sul, no Vale do Taquari, o Rio Grande do Sul registrou ao menos 13 feminicídios desde o começo do ano. A situação evidencia uma espécie de “epidemia” de violência de gênero que assola o Estado.

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Inclusive, o Grupo Sinos lança nesta quarta-feira (11) a campanha multimídia “Silêncio aprisiona. Informação liberta”, que busca levar informação e orientação sobre o assunto a seus públicos.

Comunidade deve denunciar violência de gênero à Polícia ou pelo número 180 | abc+



Comunidade deve denunciar violência de gênero à Polícia ou pelo número 180

Foto: Anete Lusina/Pexels

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, em Novo Hamburgo, os registros de violência contra a mulher aumentaram mais de 25% em janeiro deste ano, em comparação com o mesmo mês de 2025.

Em janeiro do ano passado, o município teve 30 ocorrências de lesão corporal, 57 de ameaças, seis de estupros, duas de importunações sexuais, 154 medidas protetivas e 165 inquéritos abertos no mês. Já no mesmo período de 2026, foram registrados um feminicídio, 35 lesões corporais, 67 ameaças, seis estupros, uma importunação sexual, 185 medidas protetivas e 226 inquéritos abertos no mês.

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O percentual leva em conta o somatório dos registros de cada ano, que chega a 414 em 2025 e 521 em 2026.

A situação não melhora nas cidades vizinhas. Em São Leopoldo, onde 297 mulheres mantêm medidas protetivas, a chamada Ronda Lilás da Guarda Municipal já realizou 531 acompanhamentos em 2026. Em Canoas, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) efetuou 21 prisões de agressores de mulheres somente em janeiro deste ano.

O delegado Alexandre Quintão, da Deam de Novo Hamburgo, acredita que a repercussão do caso de Karizele de Oliveira, morta a facadas em 24 de janeiro na frente das filhas no bairro Santo Afonso, pode ter estimulado aumento de registros neste ano no município.

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“Na última semana de janeiro, vieram muitos registros. As mulheres podem ter ganhado coragem a partir desse caso, os familiares e amigos terem incentivado”, pondera. “A informação sobre como denunciar está aí, então tem que denunciar. Nós também oferecemos atendimento com uma psicóloga por meio de uma parceria com a Feevale”, acrescenta.

Assistência social também registra aumento da demanda

De acordo com a gerente de Proteção Social de Média Complexidade da Secretaria de Desenvolvimento Social e Habitação (SDSH) de Novo Hamburgo, Carine Coelho, os atendimentos na assistência social devido a situações de violência também aumentaram.

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Se em janeiro de 2025 haviam sido 22 atendimentos, em janeiro deste ano chegaram a 35. Carine observa que, de fato, a repercussão do caso de feminicídio tende a se refletir na forma como outras mulheres reagem diante de situações vivenciadas. “Casos de feminicídio que ganham repercussão costumam gerar um impacto coletivo. Muitas mulheres passam a se identificar com a situação”, afirma.

“A visibilidade do caso pode funcionar como um alerta e também como um incentivo para que outras vítimas procurem ajuda. Além disso, quanto maior a circulação de informações sobre direitos e serviços disponíveis, maior a possibilidade de as mulheres compreenderem os caminhos para garantir sua segurança”, continua.

Dificuldades de denunciar e se afastar dos agressores

Carine explica que tomar a atitude de denunciar e se afastar do agressor tende a ser difícil para as vítimas.

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“Romper com o ciclo da violência é um processo complexo e, muitas vezes, gradual. Mesmo após o registro da ocorrência, muitas mulheres ainda vivenciam dependência emocional ou financeira, medo de represálias ou esperança de mudança por parte do agressor, o que pode dificultar a continuidade do acompanhamento”, descreve.

“Além disso, grande parte dessas mulheres é responsável pelo sustento da família e pelo cuidado dos filhos, enfrentando sobrecarga de trabalho e ausência de rede de apoio. Apesar disso, o mais importante é que essas mulheres saibam que os serviços estão preparados para atendê-las”, continua.

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Carine destaca, ainda, que a culpabilização da vítima está entre os fatores que geram receio em denunciar. “A culpabilização social ainda responsabiliza a mulher pelas dificuldades do relacionamento.”

Kelvyn é acusado de assassinar Karizele na frente das filhas | abc+



Kelvyn é acusado de assassinar Karizele na frente das filhas

Foto: Arquivo pessoal

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Morta a facadas na frente das filhas

A menos de uma semana do final de janeiro, Karizele de Oliveira Sena, 30 anos, foi morta a facadas em frente às filhas de 13 anos e de 9 meses em Novo Hamburgo. O indiciado pelo feminicídio é Kelvin Luan Tavares Nunes, 31.

A Deam apurou que o crime foi motivado por ciúmes após uma festa que o casal teria ido no dia do fato. “Durante a festa, Luan teria ficado com ciúmes da vítima após não querer dançar com ele e vê-la dançando sozinha. Tal fato gerou uma discussão no local, que continuou na casa do casal”, descreve o delegado Quintão.

“Luan desferiu uma cabeçada na vítima em razão da discussão, que teria ido para o quarto. Após alguns minutos, Luan chamou ela pra sala e já com uma faca na mão começou a golpear a vítima. Tudo foi presenciado pela adolescente que estava segurando o bebê no colo”, continua.

Conforme registros policiais, a vítima já havia registrado ocorrência por violência doméstica contra o companheiro e chegou a ter medida protetiva em vigor. No entanto, a decisão judicial deixou de ser válida em 2024. O relacionamento teria sido retomado e eles haviam voltado a morar juntos, ainda segundo a Polícia.

Educação é o caminho

“Ou a educação muda, ou a violência continua.” Este é o tema da campanha organizada pelo Instituto Estadual Seno Frederico Ludwig, do bairro Canudos, de Novo Hamburgo.

A iniciativa, idealizada pelo diretor José Silon Ferreira e pela vice-diretora Sônia Alves Priebe, teve sua primeira formação com professores na terça-feira (10), através da palestra sobre a Lei Maria da Penha com a escrivã da Polícia Civil do RS Ionita Késia Pereira.

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O objetivo, segundo Ferreira, é fazer com que a escola possa vir a ser um ambiente de conscientização contra a violência, formando cidadãos menos agressivos e mulheres mais empoderadas.

“A ideia surgiu quando a gente viu os números de feminicídios agora em janeiro, então quisemos fazer uma campanha que pudesse movimentar mais as pessoas em relação ao cuidado com a mulher”, afirma Ferreira.

“Já em janeiro atuamos pelas mídias sociais e agora os professores recebem formações tanto sobre a Lei Maria da Penha como de um antropólogo que fala sobre relações tóxicas”, explica.

Para além da dinâmica de relacionamentos abusivos, a campanha do Seno incentiva o reconhecimento do protagonismo feminino na sociedade. Quem caminha pela escola se depara com cartazes reforçando diretrizes para uma educação não-sexista.

“Enquanto escola, temos o papel de educar para a valorização da dignidade feminina e o enfrentamento da cultura machista, inclusive dando voz a mulheres que se destacam como autoras de livros”, avalia Sônia.

Projeto de Lei Sobre Viver foi apresentado pela prefeitura | abc+



Projeto de Lei Sobre Viver foi apresentado pela prefeitura

Foto: Pedro Tesch/Prefeitura de São Leopoldo

Mais de 7 mil ocorrências em São Leopoldo no ano passado

Por meio da Ronda Lilás, a Guarda Civil Municipal (GCM) de São Leopoldo é uma das que atua intensivamente no combate à violência contra a mulher.

Em 2025, a equipe realizou 7.055 acompanhamentos de ocorrências de violência doméstica, fiscalizou 169 descumprimentos de Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) e efetuou 24 prisões por essa causa, além de outras 61 prisões por violência doméstica. No mesmo período, manteve o monitoramento de 250 medidas protetivas ativas.

Já em 2026, até o momento, a Ronda Lilás realizou 531 acompanhamentos, registrou sete prisões por violência doméstica e acolheu 48 novas medidas protetivas. Atualmente, 297 MPUs estão ativas e o total de medidas atendidas pelo grupamento desde o início de suas atividades já soma 837.

Nesta semana, a GCM realiza a 2ª Blitz Lilás, das 9h30 às 11h30, na Avenida Dom João Becker, 155. A iniciativa tem como objetivo a entrega de materiais informativos e a orientação à população sobre o tema.

Programa municipal

Com o objetivo de fortalecer mulheres vítimas de violência, a Prefeitura de São Leopoldo apresentou ontem o programa Sobre Viver.

Amparada em projeto de lei enviado à Câmara de Vereadores, a iniciativa prevê a destinação de 5% das vagas de empregos nas empresas prestadoras de serviços contratadas pelo município para mulheres vítimas de violência doméstica.

A inciativa é da primeira-dama e secretária de Desenvolvimento Social, Simone Dutra, com apoio do Gabinete do Prefeito e Secretaria de Políticas para Mulheres.

A exposição da proposta foi feita em evento na Sala de Reuniões do Gabinete do Prefeito, reunindo a Rede de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, secretários municipais, vereadores, representantes de entidades, entre outras autoridades e convidados.

O prefeito Heliomar Franco destaca que a proposta busca a recondução da mulher ao mercado do trabalho para evitar a dependência econômica do seu agressor.

“Muitas vezes ela fica sem alternativa a não ser voltar para o ambiente que estava sendo agredida, porque lá estão seus filhos e lá está o agressor que mantém a casa funcionando, porque tem uma maneira de subsistência que ela não tem e fica dependendo para os filhos se alimentarem.”

Simone cita as iniciativas do município para inserção das mulheres no mercado de trabalho, tanto a lei que está sendo proposta, como o centro de capacitação para vulneráveis, que funcionará no antigo prédio da Exatoria. 

Deam de Canoas prendeu 21 agressores em janeiro

Em Canoas, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) realizou 21 prisões em janeiro. Segundo a delegada Luciane Bertoletti, 24 agressores foram incluídos no programa de monitoramento eletrônico do RS Seguro e dez representações por cautelares, sendo nove delas por prisão preventiva no município.

O número de ocorrências realizadas por ameaça, lesão corporal e estupro no primeiro mês do ano não foi divulgado.

“Estamos realizando esse levantamento porque os registros não são só feitos na Deam, mas também no plantão. Da mesma forma, as solicitações de medidas protetivas. Muitas delas acontecem no período da noite e no fim de semana e são registradas na DPPA [Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento]”, explica a delegada.

No mês de dezembro, Canoas registrou 82 ocorrências por ameaça, 61 por lesão corporal e quatro estupros contra as mulheres.

Dados da Polícia Civil revelam que as ameaças aumentaram 14% em 2025. Foram 1.032 casos no ano passado contra os 905 em 2024. Em menor número, as agressões subiram 5%, com 609 crimes em comparação com os 579 de 2024.

A Prefeitura de Canoas oferece rede de enfrentamento à violência com atendimento 24h via Disque Mulher – (51) 99275-8146 (WhatsApp) ou (51) 3425-7621 (aceita ligação a cobrar), além do Centro de Referência da Mulher (CRM) Patrícia Esber (51) 99815-3503. Os serviços incluem acolhimento, proteção via Patrulha Maria da Penha (51 98413-4102) e o Programa Por Mim, com foco no suporte psicológico, social e jurídico. 

Gramado ganhará casa de passagem temporária para mulheres vítimas de violência | abc+



Gramado ganhará casa de passagem temporária para mulheres vítimas de violência

Foto: Fernanda Fauth/GES-Especial

Gramado irá inaugurar abrigo temporário para mulheres vítimas

Gramado fortalecerá a sua rede de proteção com um abrigo temporário para mulheres. Em um passo decisivo para o enfrentamento da violência doméstica, a cidade se prepara para inaugurar a Casa de Passagem para Mulheres Susana Bertolucci.

O projeto, vinculado ao Gabinete da Primeira-Dama, visa preencher uma lacuna no acolhimento de mulheres que precisam deixar o ambiente de risco imediato, mas que não possuem rede de apoio.

O Centro de Referência em Atendimento à Mulher (Cram) é o idealizador dessa iniciativa. Funcionando como uma porta de entrada para o suporte municipal, o centro oferece diversos serviços à comunidade feminina. De forma inicial, acolhe as vítimas, com atendimento do contexto de violência e orientação sobre a Lei Maria da Penha.

Ainda, realiza acompanhamento jurídico, com auxílio na elaboração de boletins de ocorrência e solicitação de medidas protetivas junto à Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento.

O Cram também fornece apoio multidisciplinar, com atendimento psicológico e assistência social contínua. “Hoje, as mulheres que vêm em busca de um apoio são acolhidas, é feito o acolhimento dessas mulheres, a gente entende qual é o contexto, a situação delas”, explica a diretora do Gabinete da Primeira-Dama, Suzana Strassburger.

A inauguração da casa de passagem está prevista para o dia 10 de março. O local, que não terá o endereço revelado justamente para resguardar a segurança das vítimas, receberá mulheres e seus filhos por períodos desde cinco dias até três meses, que é o permitido em lei.

A estrutura conta com três quartos, cozinha e áreas de convivência, sendo fruto de uma parceria entre o poder público e o setor privado.

*Colaboraram: Fernanda Fauth, Priscila Carvalho e Taís Forgearini

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