Como o café consegue influenciar até mesmo os níveis de estresse de quem ama essa bebida? Um grupo de pesquisadores sugere que a resposta está no intestino e nas bactérias dele.

Foto: Ruha Zaitoun/Pexels
Os efeitos do café foram, e continuam a ser, objetos de muitos estudos, seja na melhora do humor ou do intestino. Diferentes pesquisas apontam que essa bebida tão amada está associado a benefícios, como na redução do risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e até mesmo ao risco reduzido da doença de Parkinson.
Mais recentemente, outra pesquisa sugeriu que beber de 2 a 3 xícaras de café por dia pode reduzir o risco de demência e adiar o declínio cognitivo. Publicada na revista científica Jama em 2026, ela foi feita por estudantes tanto da Escola Pública de Saúde T.H Chan, de Harvard, quanto pelo Instituto Broad, que é do MIT em conjunto com a universidade estadunidense.
Segundo uma pesquisa de 2025, cerca de 44% dos brasileiros tomam entre 3 e 5 xícaras de café por dia. Os dados são do Instituto Axxus de 2025, que contou com mais de 4 mil entrevistados, e foram divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic).
Dos apreciadores da bebida, 63% afirma que toma pois sente uma melhora no humor e na disposição, enquanto outros 42% vê nela um momento para pausa, reflexão e paz.
Mas o grupo do centro de pesquisas APC Microbiome Ireland, da Universidade de College Cork, queriam entender como isso acontece. “O café é mais do que apenas cafeína”, disse o principal autor e professor John Cryan. “É um fator alimentar complexo que interage com nossa microbiota intestinal, nosso metabolismo e até mesmo nosso bem-estar emocional.”
A resposta está… nas bactérias
“Os nossos resultados revelam o microbioma e as respostas neurológicas ao café”, explica Cryan à universidade irlandesa. “O café pode modificar o comportamento coletivo dos microrganismos e os metabólitos que eles utilizam.”
Ainda conforme o professor, os resultados sugerem que o café, mesmo que sem cafeína, pode influenciar a saúde de diferentes maneiras, “porém complementares”. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores investigaram como o consumo do café afeta o eixo microbiota-intestino-cérebro.
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Eixo microbiota-intestino-cérebro
“A microbiota intestinal é um ecossistema complexo de bactérias que desempenha funções cruciais, como proteção contra patógenos, absorção de nutrientes e regulação imune”, explicam as pesquisadoras Livia Pinto Heckert Bastos e Marluce Shirlei Cordeiro.
Evidências mostram que a microbiota influencia nessa comunicação bidirecional entre o intestino e o cérebro, inclusive com bactérias que desempenham papéis tanto na melhora quanto piora da saúde mental, por exemplo.
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De diários até testes psicológicos
Ao todo, 62 pessoas participaram do estudo: 31 delas tomam café e 31 não. Foram considerados consumidores quem toma regularmente de 3 a 5 xícaras por dia, o que é considerado seguro e moderado pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) para a grande maioria.
Todos passaram por uma série de testes psicológicos, tiveram que registrar o consumo de cafeína e alimentação em diários, além de passarem por testes de fezes e urina. Esses dados foram analisados para entender as alterações do microbioma de cada um, assim como a percepção de humor ou estresse.
Abstinência
Durante duas semanas, os participantes ficaram sem beber café. Para os consumidores assíduos da bebida, mudanças significativas aconteceram no perfil dos metabólitos durante o período de abstinência quando comparado aos que não bebem normalmente.
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Tem diferença entre descafeinado e com cafeína?
Depois, o café foi reintroduzido aos consumidores regulares de maneira anônima: metade dos participantes tomou descafeinado e a outra consumiu com cafeína, sem saber.
Ambos os grupos reportaram menos estresse, depressão e impulsividade, enquanto melhorou o humor e a performance cognitiva. “Isso sugere que o café melhora o humor significativamente, independente de conter cafeína”, segundo a universidade.
Bactérias
Outro fator notado pelo estudo foi o aumento de bactérias, como Eggertella sp ou Cryptobacterium curtum, que foi maior em quem toma café do que em quem não é um consumidor. Ambas podem desempenhar um papel importante na eliminação de bactérias intestinais, que fazem mal à saúde, quanto de infecções estomacais.
Em mulheres, houve também o aumento na bactéria Firmicutes, que é muito associada a emoções positivas no corpo delas.
Melhora na aprendizagem e memória? Só com café descafeinado
Uma melhora na aprendizagem e na memória também foi observada pelos pesquisadores, mas apenas em quem tomou café descafeinado. Isso sugere que outros componentes, além da cafeína, podem ser responsáveis pelos benefícios.
Por outro lado, apenas a bebida com cafeína foi relacionada com a redução de ansiedade, aumento do estado de alerta e da atenção, assim como risco menor de inflamações.
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Café não faz milagres
O pesquisador ainda alerta que somente tomar café não irá automaticamente levar aos benefícios. “À medida que o público continua a considerar mudanças na dieta para um equilíbrio digestivo adequado, o café tem o potencial de ser utilizado como uma intervenção adicional dentro de uma alimentação saudável e equilibrada.”
Como qualquer outro alimento ou bebida que possui benefícios, é necessário seguir um estilo de vida saudável e entender que ele não será benéfico para todas as pessoas. O recomendado, em caso de dúvidas, é sempre estar em contato com um médico especialista ou o profissional de saúde que já possui o seu histórico pessoal.
Limitações
Uma das limitações do estudo foi a ausência de medidas diretas do trânsito fecal, que pode ser afetado pelo café, já que seriam necessários testes invasivos. Por conta disso, foi usada a Escala de Bristol para Fezes (BSS).
Os pesquisadores alertam que o estudo não analisou os resultados tendo em mente os diferentes grupos raciais que participaram. A pesquisa recebeu investimentos das empresas Nutricia, DuPont/IFF, e Nestle.
Fontes: Coffee and Tea Intake, Dementia Risk, and Cognitive Function (2026); Eixo microbiota-intestino-cérebro, alimentação e saúde mental: uma revisão bibliográfica; Evolução dos Hábitos e Preferências dos Consumidores de Café no Brasil (2019-2025); Habitual coffee intake shapes the gut microbiome and modifies host physiology and cognition (2026);