A leopoldense Fontana, 32 anos, é uma das finalistas do reality RuPaul’s Drag Race UK vs The World, competição de drag queens, gravada em Londres, na Inglaterra, e transmitida na BBC e streaming WOW todas as terças-feiras. Natural da Vila Esperança, no bairro Jardim América, ela mora em Estocolmo, na Suécia, há 11 anos.
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Fontana conta que a oportunidade de participar do programa surgiu há cerca de um ano, quando recebeu o convite para retornar à atração. “O processo seletivo acontece de maneira sigilosa, não tem como se inscrever. A gente foi escolhida a dedo pela RuPaul para voltar. Me sinto muito honrada, pois ela escolhe as favoritas dela nas temporadas internacionais para fazer a versão vs The World.”
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Fontana recordou que foi vice-campeã do Drag Race Suécia, há três anos, e por ter conquistado grande destaque no programa, conseguiu se estabelecer e se colocar no mapa das drags queens com sua arte. “Quando acabou o Drag Race na Suécia, achei que seria o ápice da minha carreira, nunca imaginei que viveria isso que estou vivendo hoje, que é o meu maior sonho.”
Inspiração
A leopoldense revela que tem três inspirações na vida, que são as cantoras Britney Spears e Beyoncé, e a drag queen RuPaul. “Já fui no show da Britney, da Beyoncé e agora estou sendo julgada pela RuPaul, essa lenda. Ela não foi só a responsável por colocar a nossa arte no mainstream, de colocar a gente na televisão, mas criou um espaço seguro para esse meio, algo que foi inovador e revolucionário.”
Episódios
O sétimo episódio (de oito) foi ao ar no dia 10 de março, e segundo Fontana, a competição está cada vez mais difícil. “Toda vez que entrava naquele palco e via RuPaul sentada na minha frente, parecia que a minha alma ia sair do corpo, pois a presença dela é muito forte. Então precisa ter um jogo de cintura para fazer as coisas acontecerem, se não você não dá conta.”
Fontana diz que, apesar de se um sentimento muito forte de realização estar sendo julgada pela RuPaul, sabe que é uma competição e que todas as participantes querem o mesmo objetivo. “É uma sensação maravilhosa, mas ao mesmo tempo é uma competição que você está arriscando perder o seu sonho toda a semana.”
“Shantay, you stay”
Ao longo dos sete episódios, Fontana lembra que já viralizou três vezes. A primeira foi quando ficou entre as piores da semana e precisava passar pela repescagem. “Lip sync for your life (duble por sua vida)” costuma ser o bordão da RuPaul para a prova. “Shantay, you stay” é o bordão dito para quem continua na competição. A segunda vez foi quando uma participante da Tailândia tentou arrumar confusão. “Eu disse: ‘epa, não faz escândalo comigo, pois sou brasileira e aqui ninguém vai fazer escândalo comigo’. E a terceira viral foi a apresentação da música Crazy Frog, algo que, segundo Fontana, foi algo inesperado no programa. “Virou um momento icônico que entrou para a história do programa.”
“Estou realizando o meu maior sonho”
Fontana contou que nunca imaginou que chegaria onde está hoje, e quando para pensar na época que vivia na Vila Esperança com a mãe e o irmão em uma casa de madeira, nunca passou por sua cabeça que realizaria o maior sonho, se participar de RuPaul’s Drag Race. “Esse programa tem uma projeção internacional que atinge o mundo inteiro. Hoje tenho seguidores e fãs que me acompanham de todos os cantos do mundo.”
A leopoldense recordou que quando falava para a mãe que tinha vontade de dançar, cantar, estar nos palcos, ela ouvia que isso era sonho de gente rica e que precisava encontrar outro. “Eu cresci dessa forma, e hoje vivo esse sonho que foi tirado de mim, e é algo muito especial.”
Segundo ela, a sua arte e drag estão muito associadas à sua história, das coisas que ela passou. “Quando eu decidi ser drag, escolhi ser uma contadora de histórias. Não para carregar o peso da história, mas para criar espaços onde essas histórias se tornam tópicos relevantes para que não se repitam.”
Diferença Cultural
Morando na Europa há 11 anos, Fontana notou que as pessoas são muito frias e não tem aquele calor humano que tem no Brasil. “Sendo brasileira já causo um impacto automaticamente pela minha nacionalidade, e já sou um alvo automático, pois eu decido sorrir e cumprimentar todas as pessoas do estúdio, por exemplo, o que culturalmente, não é todo país que você cumprimenta quem não conhece, ou que você decide abraçar.”
Para Fontana, representar o Brasil em uma competição internacional tem os desafios culturais e da competição. “Sou a segunda brasileira a participar desse programa (a primeira foi Melissa Bianchini), então eu carrego comigo muito das minhas. Quando estou naquele palco, eu não estou sozinha, estou representando muitas outras queens que sonham em estar aqui.”
A leopoldense espera que, estando nesse lugar que está hoje, que consiga abrir espaço para mais brasileiras que possam levar a arte e a cultura para lugares inimagináveis. “Internacionalmente, o gringo tem uma visão muito limitada e estereotipada do nosso país, e tendo brasileiras em programas internacionais, a gente mostra coisas que as pessoas não esperam ou não sabem sobre o nosso país.”
Mesmo morando há 11 anos fora, Fontana escolheu representar o Brasil no momento que recebeu o convite para voltar ao programa. “Decidi que seria autêntica comigo mesma, e que minha essência brasileira permaneceria intacta em toda a competição. Eu carrego um peso forte de ser brasileira, pois a fanbase do Brasil é muito presente. Todos são muito amáveis, recebo muito amor do Brasil, e eles não deixam ninguém mexer comigo.”
“Demorou para ser minha profissão”
Fontana contou que antes de ser drag queen, já teve muitas profissões. Quando ainda morava no Brasil fez um ano de serviço social, depois mudou para jornalismo, e depois foi para administração. Além disso, também já foi professora de inglês em cursinhos e fez estágio em uma multinacional. “Só que estudar administração e trabalhar em escritório era algo bem remunerado, comparado à estrutura e vida que tinha quando mais nova, mas estava muito distante do que eu queria fazer e do meu sonho, então eu vivia uma vida muito triste.”
Quando se mudou para a Suécia, teve a oportunidade de explorar tudo o que sempre quis. “Foi quando comecei a estudar música, já tive banda de Bossa Nova aqui, fiz curso de maquiagem. Aqui na Suécia é necessário ter licença e um registro de maquiadora para atuar na área.”
A leopoldense também trabalhou em restaurantes e com limpeza, ou seja, teve vários trabalhos em todos esses anos até conseguir o objetivo. “Hoje faz seis anos que faço a Fontana. Vivo da minha arte, consigo fazer os meus shows, minhas colaborações nas redes sociais, sou embaixadora de algumas marcas e consigo trabalhar mesmo com a Fontana a minha arte drag.”
Sua melhor versão
Para Fontana, o começo foi difícil porque para ser drag queen, segundo ela, é necessário ser boa em maquiagem, cabelo, performance, comédia, atuação, música e dança. “Todas as drags precisam escolher o caminho que pretendem trilhar, se é na dança, na comédia, se é mais voltada para o segmentos de beleza e de miss, enfim, são várias caixinhas de drag.”
No começo Fontana ainda precisa se encontrar na arte, aprimorar a maquiagem e a própria Fontana. Segundo ela, muitas drags se colocam como personagens, mas ela não diz que a Fontana é uma personagem, mas sim a melhor versão dela mesma. “O começo foi conturbado porque era o hobby, que era o que eu amava fazer, mas que leva um tempo para você se encontrar na arte. Mas hoje eu olho para trás e vejo que o processo justifica onde eu estou hoje. Eu explorei vários caminhos para me encontrar e chegar onde cheguei.”
“Sofri muito Bullying”
A leopoldense contou que durante a infância sofreu muito bullying, e teve que aprender a ser adulta e a se defender da vida muito cedo. “Troquei de escolas oito vezes durante o meu ensino fundamental e todos os anos, todas as escolas, era a mesma luta. Eu era subestimada, humilhada, então, quando eu chego aqui hoje e me vejo na televisão toda terça-feira em horário nobre. Lembro que no Brasil, terça-feira era o paredão do Big Brother. Então a sensação de estar aqui é difícil de colocar em palavras, porque é um sonho muito maior do que eu imaginei e que eu fosse chegar.”
Fontana contou que as mensagens que recebeu no seu caminho foram as piores, que ela nunca sairia da Vila Esperança, que nunca chegaria onde sonhava e que tinha que se satisfazer com a vida que tinha.
Missão cumprida
Para Fontana, a sensação é de missão cumprida, e que sente muito orgulho de estar representando o Brasil, a cultura e a comunidade. “É muita felicidade, porque eu sonhei muito com esse momento e se eu cheguei até aqui, com certeza muitas outras como eu vão chegar, então eu tenho noção da responsabilidade que eu carrego por ser a segunda brasileira a participar de RuPaul’s Drag Race.”
“Missão cumprida, chegamos no maior palco do mundo, da maior competição de dragas, e isso me abre muitas portas. Eu não vejo a hora de ver o que o futuro tem para me oferecer”, celebrou Fontana.
Segundo a leopoldense, os próximos projetos e sonhos envolvem levar a coroa de rainha da drags da RuPaul’s Drag Race UK vs The World, trazer esse título para o Brasil para poder comemorar com todos e abrir mais espaço para que mais pessoas possam ter essa oportunidade.
“No meu maior sonho o meu próximo projeto é ser a vencedora da RuPaul’ Drag Race Uk vs The World e se eu vencer, vou carregar essa coroa pelo mundo inteiro com muito orgulho com muita vontade de vencer e inspirar muitas pessoas, e olhar na cara de cada um dizer você consegue, você vai chegar lá, não desista.”