Parecia uma prática inofensiva. Pedras retiradas dos rios serviam para construção civil, pavimentação de estradas e obras em geral. Durante décadas, a extração do leito fluvial foi tratada como um recurso abundante e sem custo ambiental relevante. Hoje, o entendimento mudou, pois passamos a sofrer as consequências ambientais desta prática.
O que a ciência foi descobrindo é que as rochas e pedras no leito de um rio não estão ali por acaso. Elas fazem parte de um sistema que controla velocidade, oxigenação, estabilidade e biodiversidade. Para a sociedade em geral, tirar pedras do rio pode ser o mesmo que tirar pedras de um campo, mas para especialistas, é como remover peças de uma máquina funcionando perfeitamente bem.
Quais são as consequências disso?
Especialistas destacam que não se trata de apenas um problema: a prática causa um conjunto de males que, acumulados, podem resultar em um impacto sério para regiões que dependem dos rios.
Queda no freio natural
Em condições naturais, as pedras e rochas criam atrito com a corrente, reduzindo a velocidade da água. Isso distribui melhor a força do rio ao longo do leito e diminui o impacto sobre as margens. Sem esse atrito, a água acelera, e correntezas mais rápidas têm poder de erosão muito maior.
O resultado direto é a instabilidade das margens. Pontes, estradas e construções ribeirinhas ficam expostas a um desgaste que, antes, as pedras ajudavam a conter. Em algumas situações, o próprio leito do rio muda de forma, porque sem as estruturas rochosas que seguravam o curso, a água começa a abrir novos caminhos.
Perdas de habitats
Vale destacar também que, além da função hidráulica, as pedras são moradia. Invertebrados aquáticos, larvas de insetos, crustáceos e diversas espécies de peixes dependem das superfícies rochosas e dos espaços entre as pedras para se alimentar, se reproduzir e se proteger de predadores.
Espécies como os cascudos, por exemplo, desenvolveram a capacidade de se fixar nas rochas justamente para viver em corredeiras. Quando o substrato rochoso desaparece, essas espécies não têm para onde ir.
Pesquisadores que estudam o rio Xingu alertam que trechos modificados, onde os sedimentos se acumularam e cobriram o leito rochoso, passaram de ambientes ricos em biodiversidade para regiões praticamente sem vida aquática.
Menor oxigenação
Outro ponto que a ciência reforça é o papel das rochas na qualidade da água. Quando a corrente bate contra pedras e quebra em pequenos fluxos, ela incorpora oxigênio. Esse processo, chamado de oxigenação por turbulência, é fundamental para a sobrevivência de peixes e organismos aquáticos que dependem de água bem oxigenada.
Em rios onde as pedras foram retiradas em larga escala, a água tende a fluir de forma mais uniforme e menos turbulenta, o que reduz a oxigenação natural. Isso prejudica diretamente a fauna aquática e, em casos mais graves, favorece o crescimento excessivo de algas e o processo de eutrofização, que empobrece ainda mais o ambiente.
O que pode ser feito?
De acordo com especialistas, é plenamente possível recuperar leitos fluviais degradados, no entanto, é lento e custoso. Técnicas de restauro fluvial incluem a reintrodução de rochas e substratos rugosos, o que começa a recuperar a diversidade de habitats ao longo do rio.
Pesquisas de restauro mostram que a simples diversificação do substrato já é suficiente para melhorar a biodiversidade, a qualidade da água e a estabilidade das margens em prazos relativamente curtos.




