Com o semblante cansado, Elisabete Catarina Martins Soares, de 61 anos, repete a frase que resume a angústia que vive desde o ano passado: “É um pesadelo, e parece que nunca passa”. Pela quarta vez em pouco mais de um ano, ela e o marido, Valdemar Batista Soares, 65, precisaram abandonar a casa onde moram, no bairro Vila Rica, em São Sebastião do Caí, por causa da cheia do Rio Caí. O casal está, desde quarta-feira (18), em um dos abrigos montados pela Prefeitura no Parque Centenário.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
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A decisão de sair foi tomada com antecedência, diferente das outras vezes, quando a água invadiu a casa com rapidez e pouco pôde ser salvo. Nesta nova enchente, Elisabete e o marido decidiram não arriscar. “Antes, a gente tentava esperar, achava que não ia subir tanto, mas aí perdi tudo”, conta. Desta vez, ela conseguiu ao menos retirar alguns móveis e pertences de maior valor, mas, ainda assim, alguma coisa ficou para trás.
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Quem não ficou para trás foram seus “companheiros” de toda hora, os cães Spoki e Tinho, e o cavalo Guri. Nesta quinta-feira (19), no abrigo, Elisabete gastava o tempo interagindo com os animais de estimação, em um gesto que resume o apego e a dor de quem precisa deixar para trás a própria casa sem saber o que encontrará quando retornar.
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“É sempre o mesmo desespero”, desabafa. “A gente tenta se aprumar, luta para ter o mínimo, mas nunca tem certeza de que essa luta vai parar. Já perdi tudo três vezes. Agora, é torcer para que, quando eu voltar, ainda tenha alguma coisa lá.”
Rio Caí volta a inundar a cidade
O medo de reviver um cenário de destruição está mais uma vez presente. Desde o final da tarde de quarta-feira (18), o Rio Caí ultrapassou a cota de inundação, de 10 metros, e, nesta quinta, já chega próximo aos 13 metros, com tendência de alta, segundo a Defesa Civil. Mais de 270 pessoas já precisaram sair de casa. A maioria está em cinco abrigos disponibilizados pela Prefeitura.
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Entre os moradores afetados, muitos relatam a sensação de estar “sendo perseguidos pela água”. É o caso de Aline Rosa Fiel, de 43 anos, moradora da Rua Pinheiro Machado, no bairro Navegantes, que é sempre uma das primeiras regiões atingidas pela água quando o rio extravasa. Da sacada do segundo piso de casa, ela observa com apreensão o avanço das águas e diz viver uma constante tentativa de escapar do risco.

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial
“Morei em três casas diferentes tentando fugir da enchente, e todas já foram atingidas. Parece que, onde eu vou, a água vem atrás. Em maio do ano passado, a água chegou no segundo piso. A marca ainda tá ali na parede, e agora eu fico aqui olhando, torcendo para que não se repita”, coloca.
Aline nasceu em São Sebastião do Caí e conhece, como poucos, os impactos da cheia do rio. Ela conta que nem mesmo o loteamento popular, projetado para tirar moradores de áreas de risco, escapou da enchente de 2024. “Não tem mais um lugar seguro aqui. Só os morros. E, mesmo assim, tem o risco de deslizamento”, sublinha.
Prefeitura e Bombeiros projetam: nível do rio não deve passar dos 13,5 metros
O clima é de apreensão em São Sebastião do Caí desde a última quarta-feira, e inúmeras famílias já retiraram os móveis de casa e seguem em alerta, especialmente devido à instabilidade climática e com a previsão de a chuva seguir pelo menos até sexta-feira (20).
Entretanto, a Prefeitura, baseada nas previsões mais recentes, trabalha com a possibilidade de o nível do Rio Caí chegar a 13,5 metros, abaixo da cheia histórica de maio de 2024, quando o rio atingiu os 17 metros e deixou mais de 80% da cidade submersa.
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Para o comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários, Anderson Josiel da Rosa, a situação é preocupante, mas há um esforço para evitar novos traumas.
“Infelizmente, nosso município está sendo mais uma vez atingido por uma inundação, o que acarreta severos danos à comunidade. Temos uma ferida aberta das duas últimas grandes enchentes. Desta vez, o trabalho preventivo da Defesa Civil ajudou a evitar resgates em situações críticas. Mas o medo segue presente”, destaca.