Um pedaço de terra, cheio de verduras, legumes, temperos e chás no meio de tanto concreto é um respiro para quem vive o caos da cidade. O cheiro da terra mexida e os vários tons de verde da Horta Comunitária União dos Operários (Hocouno), no Mathias Velho, transformam a paisagem de um dos bairros mais populosos de Canoas.
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Foto: Nicole Goulart/Especial
E a visão deste lugar é terapia para o aposentado Dautro Lucas de Jesus, 69 anos. “Com tempo bom assim, eu venho aqui todos os dias. Sempre tem uma coisa para fazer. Só não venho em dia de chuva, porque não adianta vir aqui para se molhar”, conta o associado da horta que trabalha com a terra há pelo menos quatro anos no bairro.
“Aqui é alface, aqui tem couve, salsa, cheirinho verde, tem rúcula. Aqui tem cebola de corte, aqui tem mais um canteirinho de cebolinha de corte, mais um canteirinho de rúcula. Tem mais alface, alho e cebola de cabeça”, mostra com satisfação cada uma de suas plantações.
Na tarde desta quarta-feira (30), com céu azul, lá estava ele arrumando umas tábuas de madeira para fazer o cercado dos canteiros. “Até meio-dia, eu estava lá beneficiando as madeiras que vão vir para a estufa. Vou deixar uma na outra, vou pregar. Vou arrumando devagarzinho”, conta Dautro.
E o que é produzido alimenta muita gente. Além de ajudar a associação, as verduras também são vendidas para fora. E os conhecidos fazem pedidos. “Às vezes, encomendam pela minha mulher. Chego em casa e tem uma baita de uma lista. Esses dias eu levei na bicicleta três molhos de beterraba, couve, quatro pés de alface e temperinho. Faço um troquinho”, afirma.
As hortaliças são cultivadas sem agrotóxicos ou qualquer fertilizante industrializado. A terra é preparada com serragem, cascas de frutas e outros materiais orgânicos que enriquecem o solo de forma natural.
Trabalha a terra, trabalha a cabeça
Do outro lado do terreno, Dautro ainda tem mais um canteiro que guarda uma história curiosa. “Isso é brócolis, mas foi comprado numa bandeja de repolho, mas veio brócolis”, conta rindo da situação. “Um dia eu vim aqui e os meus colegas estavam plantando repolho. E disseram que ia sobrar. Ai eu plantei, mas era brócolis. E ainda precisa de mais, então comprei o resto na Ceasa. O rapaz lá me deu brócolis de novo, mas era para ser repolho. No final, é tudo brócolis.”
A variedade não representa somente uma alimentação saudável. Explicar planta por planta ou contar histórias também faz bem para a mente. “Isso aqui é uma distração, é uma terapia. É muito bom”, destaca o aposentado e ex-metalúrgico.
“Um dia, eu falei com um doutor e ele me perguntou se eu andava de bicicleta, eu disse sim. ‘Faz bem’, ele me disse. Ele me perguntou o que mais fazia e eu disse que trabalhava numa horta comunitária. ‘Faz bem, continua assim que tu vai bem’, o doutor falou. Faz bem para a saúde, para as pernas, para um monte de coisa”, frisa.
“Enchente levou tudo, mas eu não me queixo”
Um pouco mais de um ano atrás, quando a enchente atingiu Canoas, a força da água misturada com terra estragou as plantações, como lembra Dautro. “Tinha um canteiro que estava com alfaces. Um outro canteiro estava com 80 pés de repolho, já começando a formar a cabeça. Ai veio a enchente e levou tudo, mas eu não me queixo. Isso aconteceu para todo mundo.”
Mas o aposentando também observa que o solo enriqueceu após a catástrofe. “Quando eu voltei, primeiro mês, tirei umas alfaces muito grande. Coisa mais linda. Parece que a terra ficou mais gorda.”

Foto: Nicole Goulart/Especial
A presidente da horta, Lucy Lopes de Oliveira, também relembra como foi ano passado. “Foi terrível. Olhava e não acreditava. Tanto é que saímos no domingo de madrugada daqui. E quando voltamos, só bicho morto. Desolamento terrível”, comenta com desânimo.
Mas a ergue a voz novamente para agradecer o apoio que a horta recebeu. “Mas começamos do nada. Renovamos, renascemos das cinzas, com muita ajuda do povo. Um povo muito solidário, pessoas que vieram de vários lugares”, ressalta.
Um dos setores da horta que ainda está se reerguendo está sob os cuidados da própria Lucy. “Eu trabalho muito com ervas e chás. Estamos fazendo uma estufa de ervas medicinais. Antes da enchente, tínhamos 200 catalogadas, além das verduras. Agora, com a estufa vai ter bancada para proteger melhor. O pessoal vem buscar, tem dor de dente, é uma ferida”, relata.
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Mais que uma horta
Ter um grande espaço de plantação no meio urbano já é um grande feito, ainda com o tamanho de um hectare. Mas a Hocouno também é Associação de Moradores de Bairro Mathias Velho, oferecendo suas dependências para encontros de grupos da terceira idade, aulas de informática e de música, futebol e eventos culturais.
Mais recentemente, o local passou a abrigar o primeiro Núcleo Comunitária de Proteção e Defesa Civil (Nupdec) da Prefeitura de Canoas. A associação foi indicada pelos próprios moradores, exatamente por ser essa referência dentro do bairro.
Há 40 anos na horta, a presidente Lucy destaca a importância de ter o núcleo. “É maravilho. Quando tiver uma tragédia, uma enchente, as pessoas saberem a quem recorrer, ter um lugar indicado. Tem gerador porque pode falta luz, água. Isso engrandece o nosso espaço, o ambiente, valoriza e torna conhecido a associação.”
Parceria com a Emater
A Hocouno possui atualmente 38 associados, para além das cerca de 70 famílias que participam de outras atividades. Mas a horta no Mathias Velho não está sozinha nesse trabalho com a terra dentro da cidade. De acordo com a engenheira agrônoma da Emater-RS em Canoas, Caroline Lima, são cinco hortas ativas em quatro bairros.
“Todas essas hortas têm a função de segurança e soberania alimentar. As pessoas cultivam, se alimentam dali, trocam aquele excedente. Temos duas hortas um pouco mais organizadas que já trabalham na questão de comercializar esse excedente. Fazem feirinha e doam muita coisa é produzido a mais”, explica a extensionista rural.
A rotina em cada uma delas costuma ser parecida entre si. “Cada integrante das hortas trabalha de forma coletiva e individual. Cada um tem sua responsabilidade sob o seu canteiro, de manter limpo, de cultivar. E os espaços em comum é trabalhado junto, é comum em todas elas, como roçada, limpeza. Geralmente é composta por pessoas idosas, aposentadas, que se juntam ali como uma forma de lazer, de produção de alimentar”, afirma.
A engenheira agrônoma presta assistência atrás de uma parceria da Emater com a Prefeitura de Canoas, através da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação (SMDEI), que vem sendo renovada ano a ano desde 2021.
“Nós da Emater em Canoas, temos uma parceria com eles, de levar mudas e sementes. Prestamos alguma assistência técnica quando precisa, ajudamos em alguns processos de organização, fazemos oficinas. Ficamos com uma parceiro. Eles têm muita autonomia e muito conhecimento. É muito aprendizado junto com eles”, completa Caroline.
Hortas comunitárias de Canoas
Santa Isabel
Rua Clóvis Beviláqua, 1771 – Harmonia
Cras Harmonia
Rua Sobral Pinto, 35 – Harmonia
União dos Operários
Rua 18 de Novembro, 400 – Mathias Velho
Vó Maria
Rua Itamar de Mattos Maia, esquina com Maranhão – Niterói
Nancy Pansera
Área Verde 13, Setor 6 – Guajuviras