Foi na tarde do último sábado (4) que a moradora de Novo Hamburgo, de 64 anos, recebeu seu cão gravemente ferido após ser atacado por um cachorro em via pública no bairro Primavera. Após tentativas frustradas de conseguir ajuda para socorrer, além da dificuldade financeira, tratou o pinscher em casa.
Contudo, ele não resistiu aos ferimentos e morreu na manhã de segunda (6). Abalada com a perda do animal, a mulher tomou uma atitude que veio a repercutir no País: enviou uma caixa com o cão morto para o gabinete da vereadora da causa animal Deza Guerreiro (PP), na Câmara de Vereadores de Novo Hamburgo.

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial
O ataque
Apesar de pedir para não ser identificada, a mulher concedeu entrevista exclusiva ao ABCmais e narrou o que aconteceu desde o fim de semana até a decisão de enviar a embalagem à parlamentar.
Uma das questões mais citadas por ela é que, segundo a moradora, o bairro lida com o ataque de cães de rua há anos. “Aqui tem um monte de casinha de cachorro, a gente não tem calçada ‘pra’ caminhar. Tem uma rua ali que ninguém passa porque os cachorros atacam todo mundo.”
Ela mora no mesmo endereço há 31 anos e possui outros dois cães de pequeno porte: um fox paulistinha de 19 anos e um dachshund (popularmente conhecido como “linguicinha”), de 7. O pinscher era o mais novo, com dois anos e meio, e costumava passear pela rua, retornando à residência, cercada, em seguida.
Contudo, por volta das 13h30 daquele sábado, cerca de 15 minutos após a saída rotineira, a mulher recebeu o animal, gravemente ferido, pelas mãos de uma vizinha, que relatou o ataque de um cão marrom.
Em função do intenso sofrimento do pinscher, a tutora decidiu administrar dipirona ao cão e disse, inclusive em depoimento às autoridades, que não o levou para atendimento veterinário por dificuldades financeiras, já que havia recentemente tratado um problema de saúde.
Então, ligou para o vice-prefeito Gerson Haas (PL), a quem questionou sobre “a pessoa que defendia os cães em situação de rua”. Na sequência, teria conseguido um telefone que acreditava pertencer a Deza, por onde teria sido orientada a contatar a parlamentar na segunda-feira. “Eu pedi ajuda sábado, quando meu cachorro foi atacado. Não ganhei ajuda de ninguém”, diz.
“Fiquei indignada”
Ferido, o animal foi sendo cuidado constantemente ao lado da cama da tutora. Ela alega que o vigiava repetidas vezes e que o pinscher seguia vivo até as 4h30 da madrugada de segunda. No entanto, quando a mulher acordou novamente por volta das 8 horas, ele já estava sem vida. “Disseram que ele ainda estava quente [quando foi entregue à Deza], mas o corpinho já estava duro quando vi que ele estava morto”, rebate.
“Eu fiquei com raiva [da situação], fiquei indignada com o ataque e que ninguém me ajudou desde sábado. Sou viúva há 21 anos. Ganhei ele, cuidava direitinho. Era meu parceirinho”, lamenta. Em depoimento à Polícia, documento que a reportagem também teve acesso exclusivo, afirmou que contatou o Canil Municipal diversas vezes para tratar sobre os animais em situação de rua. No entanto, não possui números de protocolo.
“Mandei [a caixa para a vereadora] porque não tinha mais o que fazer [para salvar o cão]”, diz, em entrevista por telefone. Abalada emocionalmente, expôs em interrogatório que a mensagem escrita na caixa foi colocada como “um pedido de ajuda” diante da falta de providências perante os cachorros soltos.
Ao colocar o animal em uma caixa e escrever a mensagem “Ver Deza, c/ carinho p/ proteger os animas”, teria contatado um motorista de aplicativo para fazer a entrega na Câmara de Vereadores e pago em dinheiro. Assim como o condutor disse em entrevista ao ABCmais esta semana, ela afirma desconhecê-lo, já que apenas acionou o aplicativo.
“Não conheço a vereadora”
A moradora do bairro Primavera pontuou que não teve a intenção de intimidar Deza Guerreiro. “Não conheço a vereadora. Não sou uma pessoa ruim. Mataram o meu cachorro na rua e eu me indignei. Ninguém faz nada. Já contatei ONG, ninguém resolve. Eu moro aqui há 31 anos e sempre foi um lugar tranquilo, mas, agora, tem rua que ninguém mais consegue passar porque é atacada”, afirma.
Indiciada
O caso foi parar na Polícia Civil, após a vereadora registrar um boletim de ocorrência na segunda-feira. Horas depois, o motorista de aplicativo foi espontaneamente até a delegacia prestar depoimento, já que era ele quem aparecia na imagem de câmera de monitoramento com a caixa em mãos na Câmara de Vereadores. Ficou com medo de represálias.
A moradora foi ouvida na manhã da quarta-feira (8), seguida de uma testemunha. O delegado Rafael Sauthier concluiu o inquérito nesta quinta (9) com o indiciamento por injúria real – quando o objetivo principal não é lesionar o corpo, mas atingir a honra e a autoestima da vítima através da humilhação – descarte irregular e transporte irregular de carcaça de animal e maus-tratos aos animais por omissão.
Apesar da ampla divulgação do indiciamento, ela afirmou no começo da noite que não recebeu o retorno conclusivo da Polícia Civil.