abc+

PREVENÇÃO DE CHEIAS

Proposta de distrito industrial em Canudos reacende temor de alagamentos na Vila Integração

Moradores afirmam que aterramento previsto no novo Plano Diretor pode agravar cheias em área já atingida pelas enchentes de 2023 e 2024 e cobram estudos e garantias do poder público

Dário Gonçalves
Publicado em: 30/12/2025 às 15h:59 Última atualização: 30/12/2025 às 15h:59
Publicidade

A previsão de implantação de um distrito industrial no bairro Canudos, apresentada durante as audiências públicas do novo Plano Diretor de Novo Hamburgo, reacendeu a preocupação de moradores da Vila Integração, de Lomba Grande, com o risco de novos alagamentos. A comunidade, fortemente atingida pelas enchentes de 2023 e 2024, teme que o aterramento de uma área próxima à Avenida dos Municípios altere o comportamento do Rio dos Sinos e agrave a vulnerabilidade do loteamento.

Publicidade

Praça da Integração é um dos primeiros locais que ficam embaixo d'água em tempos de cheias | abc+



Praça da Integração é um dos primeiros locais que ficam embaixo d’água em tempos de cheias

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial

O tema voltou à pauta após representantes da Associação de Moradores da Vila Integração participarem, no fim de novembro, de uma reunião da Comissão de Direitos Humanos (Codir) da Câmara de Vereadores. No encontro, os moradores relataram a ausência de medidas estruturais para mitigar os impactos das cheias e cobraram maior transparência em relação aos estudos que embasam a proposta.

Segundo Jonathan Marmit, presidente da associação, as enchentes se tornaram mais frequentes após a conclusão da Avenida dos Municípios — que, na avaliação dos moradores, passou a funcionar como uma barreira para o rio. Para ele, a previsão de aterramento de uma área considerada de esponjamento do Rio dos Sinos amplia a insegurança.

“Depois que a avenida foi terminada, só cresceu o número de cheias na Vila, pois a água fica barrada para o lado de lá e escoa para o lado de cá. Agora, com esse projeto, com certeza vai piorar a situação. Falam em dique para Canudos, mas e nós? Parece que não existimos”, afirmou.

Publicidade

Área industrial e proximidade com a Vila Integração

Conforme o mapa apresentado no Plano Diretor, a área destinada ao distrito industrial fica junto à Avenida dos Municípios, enquanto a Vila Integração está localizada na margem oposta do Rio dos Sinos. A leitura do material reforça, na avaliação dos moradores, a apreensão em relação a possíveis impactos hidrológicos decorrentes do aterramento previsto.

A Vila Integração existe há cerca de 40 anos, abriga aproximadamente mil moradores e, segundo a associação, não se trata de ocupação irregular. “Aqui é tudo comprado, pagamos impostos caros. O bairro é bom de viver porque a gente faz ele ser bom”, destacou Marmit, citando ações comunitárias de manutenção de espaços públicos, como a praça do loteamento.



Enchentes recorrentes e sensação de abandono

Moradores relatam que, quando o Rio dos Sinos atinge a cota de inundação, ruas da Vila Integração já estão alagadas, dificultando a saída de casa. “Muitas vezes as pessoas não conseguem nem circular”, afirmou o vice-presidente da associação, Flávio Joel Silva Santos. Maria Alice Amorin dos Passos, tesoureira da entidade, acrescenta que os impactos não se restringem à Vila Integração. “Isso não vai atingir só nós, mas também regiões como Walahai e Porto das Tranqueiras.”

O conselheiro fiscal Anderson Morbach, morador de uma das áreas mais baixas do loteamento, relata que sua casa ficou completamente submersa na enchente de 2024. Segundo ele, cerca de 95% das residências da vila foram atingidas. “Quando se fala em tirar o colégio daqui, resolvem o problema do prédio público, mas as nossas casas ficam. Se perdermos tudo, falam em ajuda de mil reais, o que não recupera nada”, criticou.

Publicidade

A retirada da EMEB Helena Canho Sampaio da área de risco também é vista com preocupação. Para os moradores, a medida tende a isolar ainda mais a comunidade, sem resolver o problema estrutural das cheias. “Vão tirar a escola, mas nós continuamos aqui, com as enchentes”, resumiu Marmit.

Falta de estudos e cobranças por transparência

Outro ponto levantado pela associação é a falta de clareza sobre estudos técnicos relacionados à área. Morbach afirma que, ao buscar informações por meio da Lei de Acesso à Informação, recebeu como resposta que não há projetos específicos para a Vila Integração. “O vereador Eliton [Ávila (Podemos)] disse que a prefeitura falou em estudos, mas oficialmente dizem que não existe nada. A gente quer respostas concretas, estudos apresentados, garantias reais”, afirmou.

Publicidade

Anos atrás, a comunidade reuniu mais de 800 assinaturas em um abaixo-assinado solicitando a construção de um dique para a Vila Integração. Até hoje, segundo os moradores, não houve retorno sobre a demanda.



Debate na Câmara e posicionamento de vereadores

Durante a reunião da Codir, a presidente da comissão, professora Luciana Martins (PT), informou que o Movimento Roessler para Defesa Ambiental ingressou com denúncia no Ministério Público contra a proposta de implantação do distrito industrial. Ela defendeu a escuta de especialistas técnicos para avaliar os impactos do projeto.

O vereador Enio Brizola (PT) lembrou que o tema já foi debatido anteriormente no Legislativo e se posicionou contra edificações sobre áreas de esponjamento do Rio dos Sinos. Para ele, as soluções passam por obras integradas de contenção ao longo de todo o curso do rio, desde a nascente em Caraá. Brizola também citou investimentos federais em obras no dique do bairro Santo Afonso e no programa Compra Assistida para famílias atingidas por enchentes.

Já o vereador Eliton Ávila (Podemos) relatou que, ao contatar a Diretoria de Esgotos Pluviais, foi informado de que o Governo do Estado realiza estudos sobre toda a Bacia do Sinos. O parlamentar reforçou a necessidade de mobilização comunitária para acompanhar o andamento das discussões.

Reunião dos moradores com o Conselho de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores | abc+



Reunião dos moradores com o Conselho de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores

Foto: Daniele Souza/CMNH

Ao final do encontro, Luciana Martins apontou um descompasso entre as ações da administração municipal e as demandas apresentadas pelos moradores, sugerindo a realização de assembleias comunitárias para ampliar o debate.

Enquanto o novo Plano Diretor segue em discussão, moradores da Vila Integração afirmam que não são contrários ao desenvolvimento do município, mas defendem que qualquer avanço venha acompanhado de garantias. “Se isso for aprovado, que segurança nós vamos ter de que estaremos protegidos?”, questionou Morbach.

Prefeitura afirma que não há estudos conclusivos

Em nota, a Prefeitura de Novo Hamburgo esclareceu que, até o momento, não existem estudos técnicos conclusivos sobre a implantação de um distrito industrial na área mencionada. Segundo a Administração, o Plano Diretor é “um instrumento de diretrizes e intenções de ordenamento territorial e não autoriza, por si só, a implantação de empreendimentos”.

O Executivo municipal ressaltou que qualquer eventual projeto dependerá obrigatoriamente da elaboração de Estudo de Impacto Ambiental e do respectivo licenciamento ambiental junto aos órgãos competentes. A Prefeitura também garantiu que nenhuma iniciativa será conduzida em desacordo com a legislação vigente ou que coloque em risco a segurança da população.

Ainda conforme o documento enviado à reportagem, a área em questão chegou a ser “retirada da proposta do Plano Diretor, reforçando o caráter preliminar das discussões”.

O texto ainda será apresentado a comunidade em audiências públicas que iniciam no mês de março. As reuniões acontecerão sempre às 19h, começando em 3 de março, no bairro Santo Afonso e arredores, seguindo no dia 5 de março, em Lomba Grande; no dia 9 de março, abrangendo os bairros Primavera, Boa Saúde e região; no dia 11 de março, na Roselândia; no dia 13 de março, em Canudos; e encerrando no dia 17 de março, no Centro e arredores. Os locais dos encontros ainda serão divulgados.

Publicidade