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DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

"A nossa escravidão ainda é nítida": primeira vereadora negra de São Leopoldo fala sobre avanços e luta contra o preconceito

Leopoldense, professora aposentada e disseminadora da história das abayomis, Nadir Maria de Jesus avalia que é necessário agir mais do que apenas falar

Priscila Carvalho
Publicado em: 20/11/2025 às 12h:10 Última atualização: 20/11/2025 às 12h:11
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Professora aposentada, ativista do movimento negro e antirracista, fã e disseminadora da história das abayomis, a leopoldense Nadir Maria de Jesus, 63 anos, fala sobre a importância do Dia da Consciência Negra e dos avanços da pauta ao longo do tempo, mas alerta: ainda há muito a fazer, e tudo começa com agir mais do que apenas falar.

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Nadir de Jesus com objetos representativos e bonecas abayomis



Nadir de Jesus com objetos representativos e bonecas abayomis

Foto: Priscila Carvalho/GES-Especial

Nascida em São Leopoldo, Nadir foi a primeira mulher negra eleita vereadora no município, em 2020. “Nós tivemos um gabinete somente de mulheres pretas. Nunca tinha acontecido isso na Câmara de Vereadores”, orgulha-se. Depois, assumiu o Departamento de Igualdade Racial e, ainda, a titularidade da Secretaria Municipal de Direitos Humanos.

Para ela, falar de 20 de novembro não é falar de uma comemoração. “Assim como a gente não comemora o dia 13 de maio (Dia da Abolição da Escravatura), a gente não comemora o dia 20 de novembro. A gente pega essa data para refletir, mas, com certeza, falar dos avanços que já tivemos – que em 136 anos de libertação são poucos, poderiam ter sido muito mais”, pondera.

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Avanços

Como exemplos de avanços, a educadora cita as cotas raciais e sociais pra ingressar nas universidades e no mercado de trabalho, a instituição das leis federal 10.639, de 2003, e municipal 6.116, de 2006, que tornam obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira nos ensinos fundamental e médio de todas as escolas.

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“São avanços para que o Brasil possa fazer uma pequena reparação de tudo o que nos foi tirado, que nos foi arrancado. Esses avanços aconteceram porque pessoas nos antecederam para que nós pudéssemos, hoje, estar ocupando esses espaços, por nossas capacitações”, disse. “Eu vejo como avanço e vejo como reparação, não apenas como consolo.”

Situações de preconceito “normalizadas”

Nadir avalia que, pela falta de se falar no assunto e reconhecer o racismo como tal, muitas situações foram normalizadas ao longo dos tempos. “Quando a gente é pequena, acaba crescendo achando normal as amiguinhas não querendo pegar na tua mão; achando normal tu abrir um livro de história e só ter princesas brancas e nunca princesas negras; acaba achando normal abrir um livro de história e a parte dos negros ser apenas a parte da escravidão”, exemplificou.

“Eu fui me descobrindo como mulher preta, exatamente por essas coisas que eu só fui perceber depois que eu cresci, que eu fui entender tudo aquilo que acontecia”, acrescentou.

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Uma das situações de preconceito que a marcou, foi quando cursava Magistério. Indo para a escola, com o mesmo uniforme que outras alunas, foi abordada por uma senhora na rua. “A mulher me disse: ‘Eu tenho notado que tu passa aqui todos os dias no mesmo horário. Tu tá procurando faxina?’. Enchi os olhos de lágrimas. Foi uma situação nítida. Não interessava o uniforme que eu estava, que era igual ao das minhas colegas. Mas a minha pele era diferente. Então, a minha passada naquela rua era pra procurar faxina”.

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Lembrou também de caso já quando atuava como professora e estava chegando em uma escola, com um grupo de docentes. “Uma senhora veio e me perguntou se eu era tia da limpeza. Nós estávamos entre cinco ou seis, mas ela não fez essa pergunta para as outras, só para mim”.

A simbologia das abayomis

Nas palestras e oficinas que promove, uma das histórias que Nadir gosta de exaltar é a das bonecas abayomis, feitas pelas escravizadas africanas, quando levadas de sua terra em navios, para acalmar suas crianças e lembrar dos filhos pequenos que ficaram na África. As bonecas eram feitas com pedaços de tecidos de suas próprias roupas, e confeccionadas apenas com nós. “Essas bonecas não tinham boca, olhos, não tinham nada, para poder representar todo um continente africano”, destaca.

“Quando eu levo as abayomis para as escolas, empresas, em todos os lugares que eu sou convidada, o que eu quero transmitir é isso: quando tu faz uma abayomi, tu entrega o melhor de ti. Tu tem resistência, quer ter muita sorte e esperança na vida. E quando tu dá pra alguém uma abayomi, tu está desejando tudo de melhor pra ela”, complementa Nadir, ressaltando a simbologia Abayomi para ela.

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“Tento concretizar a minha fala, com as minhas ações”

Hoje, além de vários objetos representativos pela casa, Nadir enfeita até sua árvore de Natal com as bonecas abayomis. “Casei no ano passado e meu buquê foi feito de bonecas Abayomi”, salienta.

“Eu tento concretizar aquilo que eu faço. Porque também não adianta só falar, que é uma das coisas que eu cobro das pessoas. As pessoas pegam o microfone e falam que são antirracistas, que não são homofóbicos, não são machistas, que não têm intolerância religiosa, mas nas suas ações, eles não fazem nada disso. Então, eu tento concretizar a minha fala, com as minhas ações”, justifica.

Analisando que ainda há muito a ser feito para que o racismo, de fato, seja extinto, Nadir entende que velhos hábitos podem ser mudados, e lamenta o preconceito e a falta de oportunidades ainda vistos. “A gente só não tem os grilhões na perna, mas a nossa escravidão ainda é nítida. Ainda falta muito pra gente chegar naquilo que a gente chama de libertação. Mas, para isso, eu preciso contar com pessoas que não são negras, porque essa luta não pode ser só minha.”

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