Menos de 48 horas após anunciar a possibilidade de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros que entram no mercado norte-americano, o governo dos EUA divulgou a proposta de mais uma sobretaxa. Desta vez, de 12,5% e envolvendo, além do Brasil, outros 58 países e a União Europeia.

Foto: Agência Brasil
O texto usado para fundamentar a possível cobrança adicional também se baseia na seção 301 da Lei de Comércio de 1974, utilizado na investigação pelo Escritório de Comércio dos EUA (USTR), que já prevê os 25% de tarifa. O objetivo do governo liderado por Donald Trump busca é restabelecer tarifas de emergência que foram anuladas por decisão da Suprema Corte do país em fevereiro deste ano.
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A decisão para cobrar 25% sobre produtos brasileiros se baseou, conforme os Estados Unidos, em práticas desleais, como o uso do PIX. Já os 12,5%, que envolve outras nações, traz a alegação de que há falhas no combate ao comércio de produtos fabricados com trabalho forçado, o que também afetaria o comércio norte-americano que, segundo o relatório, seguiria todas as leis trabalhistas.
O documento atual não afirma se as tarifas divulgadas nesta semana serão somadas, mas este é o entendimento do governo brasileiro, que busca reverter a situação. Somadas as tarifas terão valor total de 37,5%. Outros países, além dos 60 que receberiam 12,5%, entram na lista de nova cobrança, mas com sobretaxa de 10%.
Enquanto o processo para definir a cobrança de 25% segue até o dia 15 de julho, as audiências sobre os 12,5% devem ser encerradas no dia 7 de julho.
Em ambas as propostas há uma lista de exceções. Pelo Brasil, entrariam produtos como café, carnes, frutas e minérios.
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Impactos no RS

Foto: Divulgação
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Claudio Bier, destaca que a sucessão de investigações e anúncios de novas barreiras comerciais gera um cenário de crescente insegurança para os negócios internacionais.
“A indústria gaúcha acompanha com grande preocupação mais essa proposta de tarifa adicional. A constante incerteza em relação às regras de acesso ao mercado norte-americano afeta negativamente os negócios, dificulta o planejamento das empresas e compromete investimentos de longo prazo. O que as empresas precisam é de previsibilidade para competir e gerar empregos”, afirma Bier.
A entidade ressalta que o ambiente de instabilidade pode agravar ainda mais a competitividade dos produtos gaúchos nos Estados Unidos, um dos principais destinos das exportações industriais do Rio Grande do Sul.
“Desde a adoção das primeiras medidas tarifárias pelos Estados Unidos, as exportações da indústria gaúcha para aquele mercado vêm registrando retração significativa. A eventual implementação de novas sobretaxas tende a ampliar as dificuldades enfrentadas pelas empresas exportadoras e reduzir ainda mais sua competitividade frente a concorrentes de outros países”, ressalta o dirigente.
A Fiergs informou ainda que defende a intensificação do diálogo diplomático e comercial entre os governos brasileiro e norte-americano, bem como a atuação coordenada do setor produtivo para demonstrar os impactos econômicos negativos das medidas propostas sobre as cadeias produtivas dos dois países.
Setor coureiro-calçadista

Foto: Arquivo/GES
Conforme o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), embora a decisão tomada no âmbito da Seção 301 seja passível de reversão, ela preocupa a atividade.
“Historicamente, os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de calçados. A medida é anunciada em um momento de recuperação, após queda do tarifaço de 50%, ocorrida no final de fevereiro. A possibilidade de novas tarifas traz mais insegurança tanto para o exportador brasileiro quanto para o importador norte-americano“, avalia o dirigente, ressaltando que a iniciativa tem potencial de criar uma desvantagem competitiva para as exportações nacionais em benefício de outros exportadores para os Estados Unidos, em especial os asiáticos.
A preocupação chega em um cenário de recuperação das exportações do calçado. Em abril, as exportações para os Estados Unidos contabilizaram 842,9 mil pares e geraram US$ 14,72 milhões, incrementos de 40,5% e 16,5%, respectivamente, ante o quarto mês do ano passado. Já no acumulado do quadrimestre, as exportações para o destino somaram 3,8 milhões de pares e US$ 54,5 milhões, alta de 7,8% em volume e queda de 18,9% em receita no comparativo com o mesmo intervalo de 2025.
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No setor de couros, o cenário também mostra que as tarifas não seriam nada positivas para o Brasil (pois tem nos Estados Unidos o seu segundo mais importante destino de couros), tampouco para os norte-americanos (que têm no Brasil um parceiro comercial de longa data, fornecedor de uma extensa cadeia produtiva que vai desde manufaturados em larga escala até produtos artesanais).
O Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) explica que as exportações de couros do Brasil para os EUA de janeiro a abril de 2026 somaram US$ 40 milhões (vice-liderança em participação). O balanço geral de 2025 alcançou US$ 142,7 milhões (também na segunda colocação de participação).
Metalmecânico
Outro setor que acompanha com anseio a possibilidade de novas sobretaxas é o metalmecânico, com forte atuação no Vale do Sinos e em Canoas. Segundo o presidente do Sindimetal-RS, Sergio Galera, as alegações que constam no relatório norte-americano não são condizentes com a realidade.
“Eles alegam uso do Pix, prejuízos em empresas de lá, mas me parece que deve haver outro interesse por trás, algo que justifique um outro acordo, por exemplo. O Brasil precisa sentar e mostrar que algo está sendo feito e que nossas medidas não interferem nas empresas norte-americanas. Vamos aguardar para ver se chegam a um consenso para que isso (a sobretaxa) não aconteça. Se não chegarem seremos novamente os mais prejudicados”, avalia.
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