Copa lembra que a vida não é feita de semideuses
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Gosto muito do Poema em Linha Reta, do Fernando Pessoa. Ele começa com os seguintes versos: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”. Num mundo onde a gente ostenta cada vez mais nossas conquistas (cotidianas ou não) nas redes sociais, o fracasso não tem espaço na estante nem aparece no Instagram. Neste mundo, é difícil lembrar de quem não venceu.
Mas a humanidade, com suas falhas e seu suor, ressurge numa arena esportiva. É comum torcermos pelo mais fraco. Aplaudimos o corredor que cruza cambaleante a linha de chegada nas últimas posições, apesar de não lembrarmos do segundo colocado. Não sei se isso é uma herança cristã que faz com que estendamos a mão aos desfavorecidos ou simplesmente um lembrete das nossas próprias limitações. Só sei que os desempenhos de Cabo Verde, Congo e de Curaçao nesta Copa, mesmo com todas as limitações, nos lembram que nem todo vencedor chega em primeiro. No fundo, assim como Fernando Pessoa, o mundo está farto de semideuses e quer ver gente de carne, osso e sonhos.

Foto: @thebluewaveffk
Uma noite digna de ir pro feed
Assim como aconteceu com o goleiro Vozinha, de Cabo Verde, que virou uma celebridade após o bom desempenho contra a Espanha, no sábado, os holofotes foram para outro desconhecido. No tempo normal, Eloy Room se tornou o goleiro com mais defesas em Copas do Mundo: 15. Passou pelas mãos dele o histórico empate da ilha caribenha com uma população menor que a de Novo Hamburgo. Dificilmente Curaçao passará de fase, mas Room já tem uma “vitória” digna de ir para o feed do Instagram. Tudo bem que Enner Valencia e sua trupe contribuíram. Definitivamente, o ex-colorado não está tendo uma Copa de semideus.

Foto: @thebluewaveffk
Nunca será só futebol
O clichê “nunca será só futebol” se enquadra aqui. Após a partida da vida, Room fez questão de acrescentar ainda mais humanidade nesta história. Mostrou uma camiseta em memória de Jarzinho Pieter. Ex-goleiro de Curaçao, ele morreu de ataque cardíaco em 2019, quando estava concentrado num hotel para uma partida contra o Haiti pela Liga das Nações da Concacaf. Room assumiu a titularidade após a partida do ex-companheiro. Na camiseta ostentada por Room com a foto de Jarzinho estava escrito em papiamento, um dos três idiomas de Curaçao, “isto é para você! Amor puro!”
Goleiros se destacam
Ainda na temática “Davi X Golias” nesta Copa, o goleiro do Irã Alireza Beiranvand foi outro que chamou atenção no final de semana, fazendo até o momento em que escrevo a defesa mais difícil do torneio para muitos. O arqueiro voou para defender a finalização de De Cuyper dentro da pequena área. Foi fundamental para travar a Bélgica. Obviamente, foi eleito o melhor jogador da partida.
Segundo tempo preocupante
O Haiti é outra destas seleções sem semideuses que atraem a empatia da gente. Mas na sexta-feira não teve chance para epopeia. A defesa em linha e com marcação alta foi um convite para infiltrações de Vini Jr e Raphinha. Ainda assim, o desempenho do país caribenho no segundo tempo forçou ao menos três defesas importantes de Alisson. E isso é preocupante para quem postula o título.
Novidades contra a Escócia
Raphinha vinha fazendo uma partida interessante até a lesão. Chance para Luiz Henrique (que já jogou com Ancelotti quatro vezes na ponta direita), Rayan (que fez um jogo honesto contra o Haiti) ou até Endrick (que atua nesta posição no Lyon). Além da mudança na direita, a partida de quarta-feira contra a Escócia pode ter a estreia de Neymar, depois de mais de um mês sem jogar.
Espanha “estreou”
Outro ensinamento do esporte é a chance de recomeço. E a Espanha colocou isso em prática após o empate contra Cabo Verde na primeira rodada. No domingo, lembrou por que é uma das favoritas à Copa do Mundo de 2026. Goleada de 4 a 0 contra a Arábia Saudita com desempenho convincente.

Foto: @cristiano
Jogar em função do craque?
Se a lógica na seleção da Argentina é montar um esquema de jogo para tirar o melhor de Messi, contando com a anuência quase devocional dos demais jogadores, em Portugal a situação parece diferente. Jogadores têm sido criticados pelos “adeptos” portugueses por não “procurarem” Cristiano Ronaldo (foto) na partida contra o Congo.
A entrevista do meia João Neves, no pós-jogo, ajudou a inflamar a torcida. “Sabemos o que Cristiano fez por nós, mas agora não é diferente de nós. É apenas mais um jogador para ajudar. Não é diferente dos demais.” Para uma parte da torcida, a declaração diminui a importância de CR7 dentro do grupo. “Respeitem o maior jogador de Portugal. Corram por ele”, resumiu um torcedor. Na estreia de Portugal, CR7 tocou pouco na bola e concluiu a gol três vezes. Messi já foi bem mais participativo e fez três gols. A julgar pela estreia, valorizar o craque faz sim a diferença.
Debate não é de hoje
Esta história de montar o time para explorar o melhor de um jogador não é de hoje. Não era craque, concordamos, mas lembro do Grêmio dos anos 90, que foi forjado para cruzar a bola na área para a finalização de cabeça de Jardel. Se dá certo, não vejo problema nenhum em beneficiar quem é mais eficiente. O problema é se o time todo faz concessões e o “iluminado” não corresponde.
Eroooouuuu!!!!!
Como diria Fausto Silva, erooooouuu. E errou feio. A apresentadora Florencia Peña e toda a equipe de produção de um programa argentino foram demitidos depois que falaram ao vivo que o pai de Messi, Jorge Horacio, havia morrido. A família precisou emitir uma nota oficial, informando que Jorge passa por um problema de saúde, mas que evolui favoravelmente dentro do quadro que apresenta. Criticou ainda a falta de sensibilidade, respeito e escrúpulos.
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