Além da antecipação do começo do El Niño em 2026, outro fenômeno acendeu o alerta de meteorologistas e climatologistas: uma onda de calor marítima incomum no Pacífico.
Segundo a meteorologista Estael Sias, da MetSul, “águas oceânicas excepcionalmente quentes se espalham por milhares de quilômetros, da costa da Califórnia até o México e avançando pelo Pacífico tropical, configurando uma das maiores e mais severas anomalias oceânicas do planeta neste momento”.

Foto: Nasa
El Niño antecipado
Historicamente, o fenômeno ganha força entre o fim do inverno e o começo da primavera, como foi visto no episódio de 2023-2024, quando ocorreu a maior enchente da história do Rio Grande do Sul. Neste ano, começa mais cedo, com efeitos já sentidos nas próximas semanas.
Onda de calor marinha
Estael explica que o fenômeno que chama atenção agora não impressiona apenas pela magnitude recorde, mas pelo momento em que é registrado. Normalmente, sinais mais robustos de aquecimento ligados ao El Niño se consolidam ao longo do segundo semestre, mas, neste ano, o oceano já apresenta condições favoráveis muitos meses antes do esperado.
Dados analisados pela MetSul mostram que, na costa Oeste da América do Norte, medições históricas revelam temperaturas do mar até 4°C acima da média em diversas áreas. Nos litorais da Califórnia e na costa do Pacífico do México, especialmente na região da Baja California, o aquecimento é extremo.
No local, essa mudança na temperatura da água já causa impacto. Cientistas observam aumento na mortalidade de aves marinhas por fome, consequência da migração ou redução de peixes em águas superaquecidas. Meteorologistas afirmam que situações semelhantes ocorreram durante o chamado “Blob” do Pacífico, entre 2014 e 2015, mas o evento atual pode se mostrar ainda mais abrangente.
O comportamento atual do Pacífico na costa do estado pode representar um sinal precoce de um episódio importante de El Niño, possivelmente com impactos amplificados pela combinação entre variabilidade natural e aquecimento global.
Calor vai além da superfície
Contudo, pesquisas mostram que as temperaturas altas anômalas penetram em profundidade. E é o que preocupa. “Isso porque águas mais quentes em camadas profundas armazenam energia suficiente para sustentar o aquecimento por períodos prolongados, favorecendo a persistência e intensificação do fenômeno”, esclarece a meteorologista.
Estael coloca ainda que instituições como a Scripps Institution of Oceanography registram sucessivos recordes diários de temperatura, alguns em séries históricas superiores a cem anos. “Em algumas regiões, a água está tão quente quanto em episódios clássicos de El Niño já estabelecido.”
“Mais cedo, mais forte e potencialmente mais duradouro”
“A onda de calor marinha funciona como combustível para o desenvolvimento de um El Niño mais cedo, mais forte e potencialmente mais duradouro. Modelos climáticos já indicam que esse aquecimento pode evoluir rapidamente para condições típicas de El Niño nos próximos meses, aumentando o risco de um evento significativo ainda durante o inverno do Hemisfério Sul”, diz a meteorologista.
Preocupação em escala global
O cenário acende alerta porque eventos intensos de El Niño costumam alterar padrões climáticos em todo o mundo. Na América do Sul, e particularmente no Brasil, os efeitos podem ser marcantes.
Enquanto no Sul do Brasil o El Niño geralmente favorece chuva acima da média, aumento de temporais, enchentes e episódios de tempo severo, no Norte e Nordeste, o fenômeno tende a reduzir precipitações, favorecendo seca, calor excessivo e agravamento de queimadas.
Condições mais favoráveis a eventos climáticos extremos
Estael coloca que, com oceanos mais quentes devido à mudança climática induzida por atividades humanas, “ondas de calor marinhas tornam-se mais frequentes, mais intensas e mais persistentes”. “Isso significa que, além da variabilidade natural associada ao El Niño, o planeta agora oferece condições mais favoráveis para extremos climáticos potencializados.”