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GUILHERME SCHMIDT

OPINIÃO: A covardia machista que mata

Nossas leis que abrandam a reclusão prisional acabam abrandando crimes hediondos como os feminicídios, e isso causa uma sensação de impunidade

Guilherme Schmidt
Publicado em: 24/10/2025 às 17h:12
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Há apenas uma década o termo feminicídio surgia no Brasil. A Lei 13.104, de 2015, tornava o crime de assassinato de mulheres hediondo, com penas mais altas (penas que, inclusive, foram aumentadas há um ano por nova lei complementar). 

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Era o justo e necessário endurecimento contra crimes covardes cometidos por homens contra as mulheres que antigamente até se chamavam de “passionais” e acabavam tendo este fator, por incrível que pareça, como atenuante na pena. Havia, inclusive, a tese da legítima defesa da honra, na qual o homem poderia alegar que matou a companheira porque ela o teria traído. Isso acabou.

Sociedade precisa combater a violência contra a mulher  | abc+



Sociedade precisa combater a violência contra a mulher

Foto: Adobe Stock

Avançamos na lei, enfim, mas, passados dez anos da mudança penal, o nosso mundo machista ainda tem muito a evoluir. Os covardes “valentões” seguem atacando mulheres como se elas fossem submissas às suas vontades. E pior: muitos ataques são com requintes de crueldade, colocando até a crianças como alvo dos crimes hediondos. 

Mais do que nunca, é preciso denunciar casos de violência e ameaças domésticas. E, mais do que nunca, as autoridades têm que agir de forma mais rigorosa e ativa em relação a medidas protetivas, que são, convenhamos, paliativas e, em muitos casos, ainda enfurecem mais o algoz.

Os números vêm, infelizmente, crescendo. O Estado somava até o início deste mês, oficialmente pelos dados do governo, 57 feminicídios, uma média de 6,3 por mês. Em 2024, foram 72 mortes, média de 6 por mês. Ou seja, infelizmente já estamos com números piores que o do ano passado e a tendência que outubro feche com mais de 60 mulheres vítimas destes crimes inaceitáveis. Aqui na região metropolitana, são mais de dez mortes – elas ocorreram em Porto Alegre, Canoas, Novo Hamburgo e São Leopoldo, só para citar algumas cidades. 

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Nos últimos dias, aqui no Estado, conforme os noticiários, pelo menos três mulheres foram mortas por seus companheiros e, ainda por cima, tendo os filhos pequenos, todos menores de 5 anos, como testemunhas da execução. Em um dos casos, em Parobé, o assassino ainda chamou a mãe da vítima para ver a cena após o ataque.

Em São Leopoldo, a vítima, uma jovem mãe de apenas 25 anos, ainda sobreviveu ao ataque a facadas do ex-companheiro. Mas, após mais de um mês internada no hospital e várias cirurgias, ela acabou não resistindo e morreu. 

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Crueldade e leniência

Crueldade é pouco. Desumanos, estes ataques mostram que algo está muito errado na nossa sociedade, que nos últimos anos parecer estar trilhando um caminho inverso ao da evolução em termos de empatia, sensibilidade e respeito ao outro.

Mas há um outro ponto que chama a atenção e piora a situação: nossas leis permissivas e falhas em punir crimes hediondos.

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A Justiça tem sido leniente e relaxado penas de crimes hediondos, tudo, infelizmente, de forma legal. Por exemplo: o caso do homem que esquartejou uma mulher em Porto Alegre em agosto deste ano. Ele já era tinha sido condenado por matar a própria mãe (que tinha 76 anos), há dez anos, concretando o corpo da idosa em um móvel da casa.

Por “bom comportamento”, teve a pena de 28 anos “relaxada” e “progrediu” em janeiro de 2024, apenas 9 anos após o crime (em 2015) e menos de seis após o julgamento (em 2018), para o regime semiaberto de prisão.

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Passado apenas mais um ano, descumpriu medidas do semiaberto e era considerado, desde fevereiro deste ano, foragido. Resultado: o psicopata voltou a matar uma mulher em agosto deste ano. E com requintes de crueldade, esquartejando a vítima e espalhando as partes dela em malas, sacos – e até hoje a cabeça segue desaparecida.

Parece loucura, mas ele cometeu dois assassinatos de mulheres nos últimos dez anos (apesar de o crime da mãe ter sido “só” considerado homicídio duplamente qualificado). Ficou só 8 anos preso pelo primeiro crime. Será julgado – espera-se – com mais severidade pelo segundo crime. Mas, após, vai cumprir esta viciosa e condenável prática de cumprir parte da pena e ter direito à possibilidade do “relaxamento”. Pelo menos dessa vez não será apenas um terço da pena imposta…

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Mas este caso é uma comprovação clara de que nosso sistema judiciário (que liberou o condenado sem qualquer exame psicológico) se tornou ineficaz e irrisório e coloca, de volta nas ruas, pessoas perigosas.  

Esta “progressão” de pena que reduz o tempo de reclusão do condenado é um dos motivos que faz com que os covardes assassinos não tenham medo da punição.  

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E a covardia machista de matar a mulher “só para ela aprender” ou por não se submeter ao “seu homem” segue forte na nossa decadente sociedade. E, no caso do feminicídio, ocorrendo sem discriminação de classe social. O machismo vai do pobre ao rico. 

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Educação e justiça

Vendo esta escalada covarde e criminosa de feminicídios, é preciso educar cada vez mais nossas crianças e jovens sobre respeito. Sobre direitos, deveres, sobre ser humano e entender que ninguém pode ser dono do destino do outro, ainda mais da vida de uma pessoa, principalmente crianças, idosos e mulheres.

É preciso ensinar que fazer valer a lei do mais forte para que sua vontade prevaleça de qualquer maneira é errado, é o caminho para o desrespeito, a insensibilidade, a falta de empatia.

E as autoridades têm que ser mais rigorosas. Esta máxima de que “todos merecem uma segunda chance” não pode significar o relaxamento de penas em crimes hediondos.

O condenado precisa cumprir a pena. Uma pessoa que mata outra de forma cruel e covarde não pode ter sua pena drasticamente reduzida só porque se diz arrependido ou porque se comporta dentro do presídio. Isso é igualmente cruel com a vítima e seus familiares.

O relaxamento de uma pena por crime hediondo precisa passar por rigorosa avaliação.

Se isso não for levado em conta, seguiremos neste ciclo vicioso de violência e covardia, onde as vítimas são enterradas e seus algozes “seguem em frente”…  

 

 

 

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