abc+

VEJA VÍDEO

"Fiz o sinal da cruz e entreguei a vida a Deus": Sobreviventes convivem com marcas de tiroteio que completa 1 ano em Novo Hamburgo

Foi no fim de 22 de outubro de 2024 que Rua Adolfo Jaeger protagonizou o maior ataque a tiros da história da cidade

Isaías Rheinheimer
Publicado em: 22/10/2025 às 06h:00 Última atualização: 22/10/2025 às 09h:36
Publicidade

Um ano depois, policiais e vizinhos ainda se lembram com clareza do tiroteio que começou na noite do dia 22 e se estendeu até a manhã de 23 de outubro de 2024. Entre os feridos do ataque que marcou Novo Hamburgo está o soldado João Paulo Farias Oliveira, 27 anos, um dos primeiros policiais a chegar ao local em apoio aos colegas de farda Kirsch e Volz, que não sobreviveram aos disparos do atirador Edson Crippa.

Publicidade

LEIA TAMBÉM: Tiroteio em Novo Hamburgo: Brasil ainda patina no controle de armas 1 ano após tragédia no bairro Ouro Branco

Soldado Farias levou sete tiros, inclusive um na cabeça, e sobreviveu ao ataque do atirador Edson Crippa | abc+



Soldado Farias levou sete tiros, inclusive um na cabeça, e sobreviveu ao ataque do atirador Edson Crippa

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

CLIQUE AQUI PARA RECEBER NOSSA NEWSLETTER

Farias foi atingido por sete tiros – na cabeça, no abdômen, nas pernas e nos braços – durante o confronto. As cicatrizes no corpo de Farias contam parte da história.

Mas o que ficou gravado na memória vai além da dor física. “Quando vi que meu terceiro carregador havia sido destruído por um disparo e não tinha mais como revidar, fiz o sinal da cruz e entreguei minha vida a Deus”, relembra.

Publicidade

Veja o vídeo

Sobreviventes convivem com marcas de tiroteio que completa 1 ano em Novo Hamburgo

Filho e sobrinho de brigadianos, Farias tinha pouco mais de quatro anos de corporação quando viveu o episódio. Ele relata que, durante o tiroteio, chegou a perder quase toda a consciência após ser atingido na cabeça. Ele permaneceu mais de uma hora ferido na calçada, na linha de tiro do criminoso, até ser resgatado por uma equipe do Batalhão de Operações Especiais (Bope).

Soldado Farias levou sete tiros, inclusive um na cabeça, e sobreviveu ao ataque do atirador Edson Crippa | abc+



Soldado Farias levou sete tiros, inclusive um na cabeça, e sobreviveu ao ataque do atirador Edson Crippa

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

Publicidade

Internado em estado gravíssimo, Farias passou por múltiplas cirurgias. “Tenho certeza de que foi um milagre. Eu saí do hospital em 9 de novembro, dia de São Teodoro, o padroeiro dos militares. Não acredito em coincidências”, coloca.

GM também foi baleado

O guarda municipal Volmir de Souza, 55, também sobreviveu ao ataque e carrega lembranças que ainda lhe tiram o sono. Ele estava entre os agentes que tentaram socorrer o soldado Farias, alvejado no confronto.

Publicidade

A cena que presenciou pouco antes de ser atingido ainda o persegue. “Eu vi o Farias fazendo o sinal da cruz e entendi que ele estava se despedindo. Foi ali que decidi correr até ele, pra tentar tirar o colega do chão. Nesse momento, escutei o estampido e senti a pancada”, relembra.

Guarda municipal Volmir de Souza tentou salvar soldado Farias e foi baleado quatro vezes pelo atirador | abc+



Guarda municipal Volmir de Souza tentou salvar soldado Farias e foi baleado quatro vezes pelo atirador

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

O primeiro disparo atravessou seu corpo e o fez tombar. “O tiro passou pelo meio da coluna, foi como uma descarga elétrica, assim, da cabeça aos pés. Caí sem movimento no chão a poucos metros do brigadiano”, recorda o GM.

Publicidade

Souza conseguiu se arrastar e se abrigou atrás de um poste.

CLIQUE AQUI: Assine o ABCmais e apoie o jornalismo profissional

Publicidade

Esposa no plantão

Cerca de 40 minutos após ser baleado, o GM foi socorrido, e quando chegou no Hospital Municipal de Novo Hamburgo um das pessoas que auxiliou no seu atendimento foi sua esposa, Viviane, que é recepcionista da instituição. Foi ela quem o levou para a realizar tomografia, quando identificaram que a hemorragia era mais grave do que inicialmente se imaginava.

“Se ela não estivesse ali, talvez fossem demorar um pouco mais para me levar o exame e daí poderia ter sido tarde. Mais uns minutos não tinha mais volta. Então, devo minha vida à Deus e a ela que ficou o tempo todo do lado, enquanto a equipe estava atendendo os outros feridos.”

Publicidade

Hoje, ele encara as cicatrizes como parte da profissão, mas admite que a memória daquela noite ainda o acompanha. “A gente veste a farda preparado pra enfrentar o perigo, mas ninguém está preparado pra ver um colega sendo executado e outro fazendo o sinal da cruz.”

Reforma tenta “apagar” sinais da noite de terror

As marcas de alguns tiros ainda são visíveis na fachada da casa verde da Rua Adolfo Jaeger, 397. Na época, a fachada ficou completamente perfurada pelos disparos. Um ano depois, o cenário mudou. Há cerca de dois meses, uma equipe de pedreiros contratada pela família fez uma manutenção na frente da casa, cobrindo boa parte dos buracos. Ainda assim, é possível perceber os remendos recentes de cimento nas paredes e as placas de compensado que substituíram as janelas destruídas pelos tiros.

Apesar de obra ter coberto buracos na parede, ainda sobraram resquícios da noite trágica na casa verde da Rua Adolfo Jaeger, no bairro Ouro Branco em Novo Hamburgo | abc+



Apesar de obra ter coberto buracos na parede, ainda sobraram resquícios da noite trágica na casa verde da Rua Adolfo Jaeger, no bairro Ouro Branco em Novo Hamburgo

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

A estrutura de madeira que protege a sacada continua marcada. Ripas quebradas e esfarrapadas denunciam o passado violento que paira sobre o endereço. Nenhum membro da família Crippa voltou a ser visto no imóvel desde o fatídico dia. Sobraram, no local, um saco e meio de cimento e as lembranças que os vizinhos tentam sepultar.

O vizinho Paulo Silva, 67, se emociona ao lembrar da data. Na segunda-feira do dia 13 de outubro deste ano, ele caminhava com a esposa Ana da Silva quando passou em frente à casa onde tudo aconteceu e relembrou do episódio.

“Foi uma noite terrível, até me emociono muito pelos policiais [mortos]. A gente achava que era um assalto, mas o tiroteio não acabava nunca. O desespero era total, ninguém dormiu”, recorda. Mesmo com a fachada reformada, o impacto permanece.

Apesar de obra ter coberto buracos na parede, ainda sobraram resquícios da noite trágica na casa verde da Rua Adolfo Jaeger, no bairro Ouro Branco em Novo Hamburgo | abc+



Apesar de obra ter coberto buracos na parede, ainda sobraram resquícios da noite trágica na casa verde da Rua Adolfo Jaeger, no bairro Ouro Branco em Novo Hamburgo

Foto: Isaías Rheinheimer/GES-Especial

O ataque*

Foi por volta das 23 horas do dia 22 de outubro de 2024 que o motorista aposentado Eugênio Crippa, 74, ligou para o 190 e avisou sobre ameaças sofridas na residência da família na Rua Adolfo Jaeger, no bairro Ouro Branco. Dizia, no telefonema, que o filho Edson Fernando Crippa, 45, estava intimidando ele e a esposa, 70, com “fortes xingamentos”. Edson estaria em surto psicótico.

Os soldados Everton Raniere Kirsch Junior, 31, e Rodrigo Volz, 31, foram recebidos pelos idosos. Os policiais pediram para Edson trazer documentos para o registro da ocorrência e ele concordou, em tom amistoso. Era para ser mais um atendimento rotineiro de desavença familiar. Mas o denunciado, ao voltar, sacou uma arma da cintura e disparou contra a cabeça do soldado Kirsch, que caiu no pátio.

O outro PM foi perseguido por Edson e baleado quase na Rua Bento Gonçalves. O atirador voltou para casa e atirou contra os pais. Depois no irmão, Everton Luciano Crippa, 49, e na cunhada, 41, que recém tinham chegado de carro pelos pedidos de socorro de Eugênio. O automóvel, um Jeep Renegade com placa de Cuiabá (MT), estacionado na frente, ficou com marcas de tiros.

A rede de rádio e grupos de WhatsApp da corporação fizeram o alerta de “militar e civis feridos”. Até então, não se sabia a gravidade. Cinco brigadianos e um guarda municipal que chegaram para resgatar as vítimas também foram baleados. A situação já estava fora de controle. A intensidade dos tiros só aumentava. Rompiam o silêncio da noite, para espanto de moradores de vários bairros.

Equipes de diferentes cidades, tanto da Brigada Militar quanto da Guarda Municipal, foram se posicionando nos arredores na tentativa de socorrer os feridos e conter o atirador. Policiais de folga, alguns de bermuda, chinelos e coldre com arma na cintura, também chegavam.

“É na casa verde de dois pisos”, se avisavam. Porém, quando se aproximavam, eram prontamente repelidos pelas rajadas do morador, posicionado em uma janela no andar superior da residência.

Os agentes, que revidavam em várias frentes, ainda não estavam organizados em pontos estratégicos para um cerco. Protegidos atrás de muros e paredes, se perguntavam: “É fogo amigo?” Estavam incrédulos com a reação violenta do morador. Não conseguiam sequer se aproximar da propriedade para resgatar as vítimas baleadas.

Por volta de 0h30, entrou em ação o Batalhão de Operações Especiais (Bope), de Porto Alegre. As vítimas passaram a ser resgatadas com a proteção de escudos balísticos. Os feridos foram sendo levados em ambulâncias para o Hospital Municipal de Novo Hamburgo e o Centenário, em São Leopoldo. Alguns arrastados até as macas em meio ao fogo cruzado. O soldado Kirsch já estava morto. Depois veio a confirmação do óbito de Eugênio e, mais tarde, de Everton.

Derrubou dois drones

Eram 0h45 quando o atirador derrubou dois drones, um da BM e outro da GM. Por volta das 3h30, ainda durante os resgates, houve confronto que durou cerca de dez minutos. Lâmpadas de apartamentos próximos voltaram a acender. Os estrondos eram de uma guerra.

Os outros nove feridos foram hospitalizados. Com todas as vítimas retiradas da área de conflito, restava render ou abater o assassino. Um silêncio se fez até as 5h50, quando estourou outra troca de tiros. Ecoavam munições de grosso calibre e estrondos que pareciam de bombas.

A ofensiva derradeira

Os policiais entraram pelos fundos de uma casa vizinha, por volta das 8h30. Dois estampidos foram ouvidos e logo dois atiradores de elite correram até a esquina com a Rua Bento Gonçalves, onde estava um caminhão de bombeiros e uma ambulância. E veio a notícia. Edson estava morto.

Apesar das centenas de disparos, ele ainda estava com poder de fogo. Na peça que servia de trincheira, segundo a Brigada Militar, foram apreendidas mais de 300 munições. A residência do atirador estava crivada de balas, assim como uma casa vizinha à esquerda. Ficou um mar de cápsulas nos pátios, calçadas e na rua.

Local onde ocorreu ataque a tiros no bairro Ouro Branco | abc+



Local onde ocorreu ataque a tiros no bairro Ouro Branco

Foto: Arquivo/GES-Especial

Os cinco mortos

  • Rodrigo Volz, 31, policial militar – teve morte cerebral confirmada um pouco mais de 24 horas após o fim do caso;
  • Everton Kirsch Júnior, 31, policial militar – morto durante ataque a tiros;
  • Everton Crippa, 47, irmão do atirador – atingido durante tiroteio, foi levado para atendimento no HMNH, mas não sobreviveu;
  • Eugênio Crippa, 74, pai do atirador – morto durante ataque a tiros;
  • Edson Crippa, 45, atirador – encontrado morto dentro de casa.

*Com informações de Silvio Milani

Publicidade