A Polícia Civil avança a apuração em torno das eutanásias praticadas na Secretaria do Bem-Estar Animal de Canoas. Inicialmente, acreditava-se que ocorreram 239 mortes de animais entre janeiro e julho. Agora, sabe-se que houve quase o dobro de procedimentos.
Segundo a investigação, um pequeno caderno, contendo os registros diários do que era feito na Secretaria do Bem-Estar Animal, acabou confirmando o número de 478 eutanásias executadas durante o período de sete meses.
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Foto: Paulo Pires/GES
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Conforme a delegada Luciane Bertoletti, responsável por conduzir o inquérito da batizada Operação Carrasco, o caderno ganhou protagonismo por se tratar de uma prova contundente de que a ex-secretária Paula Lopes tinha conhecimento de cada procedimento.
“Agora, além dos depoimentos, temos uma prova entregue por uma pessoa muito próxima à secretária Paula Lopes”, confirma. “O caderno contém os registros de tudo o que acontecia na Secretaria do Bem-Estar Animal.”
Luciane aponta que cada morte de cão e gato era registrada no caderno. Tudo era escrito diariamente a mão, com datas e horários dispostos claramente para o controle interno da pasta.
“Era mais grave do que pensávamos. A média era de 68 eutanásias por mês”, aponta. “É claro que sabemos dos procedimentos executados antes da atual gestão da secretaria, porém o número explodiu. Imagine que, em apenas um mês, chegaram a matar 190 animais.”
Ao todo, dez depoimentos acabaram confirmando os maus-tratos durante o período, afirma a delegada. Além de funcionários, tutores foram ouvidos e contaram a realidade do que acontecia no local.
“O sistema da secretaria apontava um número que o caderno provou ser irreal, já que o dia a dia no caderno evidencia a prática regular das eutanásias”, explica. “Tudo para reduzir os custos de um tratamento que poderia ser prolongado.”
Também chamou a atenção da delegada a falta de critério para o procedimento. “Às vezes, o cãozinho era recolhido com a pata machucada e levado para o Bem-Estar Animal. Acabava desaparecendo do dia para a noite, porque entrava em uma triste contagem de animais mortos no local.”
Entenda o caso
A Polícia Civil lançou a Operação Carrasco no dia 4 de setembro, baseada em uma série de denúncias a respeito de animais mortos na pasta.
Os relatos apontavam as mortes de animais doentes por meio eutanásia, uma prática sugerida em determinados casos. Porém, havia o uso desmedido do procedimento no local desde que a secretária Paula Lopes assumiu o cargo.
Durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão na sede da secretarias, policiais e técnicos do Instituto-Geral de Perícias (IGP) encontraram 14 animais mortos e acondicionados em sacos plásticos em um freezer.
“Foram diversas denúncias. Muita gente sabia o que estava acontecendo: uma matança indiscriminada dos animais. Eles eram mortos ali mesmo e depois levados por um caminhão em sacos de lixo”, esclareceu a delegada Luciane.
Além da ex-secretária Paula Lopes, estão sendo investigadas uma veterinária da Secretaria do Bem-Estar Animal, que seria comparsa nos crimes, e uma cuidadora, que seria braço direito de Paula.
Os mandados foram cumpridos não apenas na sede da pasta, mas também na casa da ex-secretária, no Instituto Paula Lopes, na casa da veterinária e também em um sítio, em Arroio dos Ratos, que pertence a uma parente do principal alvo da apuração.
“O sítio é propriedade de uma parente da ex-secretária”, aponta Luciane. “Foram apreendidos, no local, milhares de medicamentos, alguns vencidos, inclusive. Eram treze armários lotados com todo o tipo de medicação para animais”.
Já na casa da ex-secretária, os policiais encontraram R$ 100 mil em dinheiro, o que levanta as suspeitas em cima das denúncias de estelionato e lavagem de dinheiro feitas à Polícia.
O que diz a defesa?
O advogado de Paula Lopes, Gilson Araújo, afirma que os fatos apresentados serão esclarecidos e que em um momento oportuno sua cliente irá se manifestar oficialmente sobre as denúncias.