Era metade de janeiro deste ano quando o nome da ativista da causa animal Paula Lopes foi anunciado pela Prefeitura de Canoas para o comando na Secretaria do Bem-Estar Animal. Houve quem celebrasse a indicação.
Após sete meses à frente da secretaria, ela pediu exoneração do cargo no dia 13 de agosto. Quase um mês depois, a Polícia Civil lança a Operação Carrasco, com a ex-secretária como alvo da ação.

Foto: Paulo Pires/GES
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As denúncias que chegaram ao conhecimento da Polícia, por meio de pessoas ligadas a ONGs e que trabalharam para a secretaria, apontam as mortes de 239 animais durante o período em que Paula Lopes esteve à frente da pasta.
A média é de, pelo menos, 30 animais, entre cães e gatos, mortos por mês, por meio de eutanásias autorizadas, com as injeções aplicadas em animais doentes e debilitados, explica a delegada Luciane Bertoletti, que coordenou a apuração.
“Foram diversas denúncias. Muita gente sabia o que estava acontecendo: uma matança indiscriminada dos animais. Eles eram mortos ali mesmo e depois levados por um caminhão em sacos de lixo.”
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A ação contou com o apoio do Instituto-Geral de Perícias. Durante o cumprimento do mandato, policiais e técnicos constataram indícios de crueldade. Foram encontrados restos de 14 animais mortos em um freezer.
Além disso, muitos animais estavam doentes, especialmente gatos, convivendo em um mesmo espaço, sem qualquer ventilação, situação que já havia sido apontada pelas primeiras denúncias à Polícia, ainda no mês de março.
O objetivo das mortes, esclarece a delegada, era a diminuição de custos à Secretaria do Bem-Estar Animal. Isso porque, embora a eutanásia seja uma prática conhecida em alguns casos, o número é considerado excessivo.
“O objetivo era para diminuir custos. O tratamento de um bicho adoentado é muito mais caro que o medicamento para a eutanásia”, explica a delegada. “Pelo que os veterinários falaram, o medicamento custa em torno de cinquenta reais. O custo do tratamento é muito mais alto.”
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Medicamentos
Além da ex-secretária Paula Lopes, estão sendo investigadas também uma veterinária da Secretaria do Bem-Estar Animal, que seria comparsa nos crimes, e uma cuidadora, que seria braço direito de Paula.
Os mandados foram cumpridos não apenas na sede da secretaria, mas também na casa da ex-secretária, no Instituto Paula Lopes, na casa da veterinária e também em um sítio, em Arroio dos Ratos, que pertence a uma parente do principal alvo da apuração.
“O sítio é propriedade de uma parente da ex-secretária”, aponta Luciane. “Foram apreendidos, no local, milhares de medicamentos, alguns vencidos, inclusive. Eram treze armários lotados com todo o tipo de medicação para animais.”
Para os policiais que cumpriram mandado no sítio, foi passada a informação, pela proprietária do sítio, de que os medicamentos encontrados teriam sido doados, mas não se sabe por quem.
A Polícia busca descobrir a procedência dos medicamentos e se houve algum tipo de desvio da Prefeitura de Canoas, já que, para a Polícia, a proprietária do sítio disse que os remédios eram uma doação recebida pela ex-secretária.
A investigação também quer descobrir por que R$ 100 mil em dinheiro foram encontrados na casa de Paula Lopes, o que se alinha às suspeitas de estelionato e lavagem de dinheiro feitas contra a ex-secretária.
“A gente sabe que ela mantém há anos um instituto e que recebia doações para o cuidado de animais”, observa Luciane. “Mas o porquê de ter tanto dinheiro em espécie dentro de casa ainda não sabemos.”
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Próximos passos
Após a primeira etapa da Operação Carrasco, a Polícia Civil irá se concentrar em ouvir testemunhas e analisar todo o material apreendido durante a ação desta quinta-feira, avisa a delegada.
“Temos muitas informações a serem apuradas devido às denúncias”, salienta. “Uma parte da investigação foi concluída, com os cumprimentos dos mandados de busca. Agora, com o material apreendido e a ajuda dos laudos do IGP, vamos montar o quebra-cabeça e definir as próximas etapas da investigação.”
Quem é Paula Lopes?
Empresária e ativista da Causa Animal, Paula Lopes atua há mais de 20 anos na causa animal. No ano 2000, fundou o Projeto Adoradores de Vira-Latas, onde viabilizou castrações para as regiões mais vulneráveis da região metropolitana.
O foco era o controle populacional, atendimento de casos graves e albergagem de animais sem tutores, além de suporte para protetores da causa animal de diversas regiões. Em 2018, fundou a Associação Nacional Instituto Paula Lopes, onde atua até hoje.
“Estão tentando achar cabelo em ovo”, diz Paula Lopes
A reportagem entrou em contato com a ex-secretária Paula Lopes na tentativa de ouvi-la, porém, não houve retorno. No final da manhã desta quinta-feira, ela se manifestou por meio das redes sociais, onde tem milhares de seguidores. Confira o que disse:
“Está tudo bem. Estou em casa e está tudo certo. Isso é só mais um reflexo do que a política faz. Desde que fui para Canoas, em janeiro, logo nas primeiras semanas já tive que ir para o Ministério Público por causa de denúncias. As pessoas que perdem algo, não querem perder e começam a fazer denúncias infundadas. Nunca teve nada. Estão tentando achar cabelo em ovo. Estou muito tranquila. Eles entraram aqui em casa, reviraram tudo, levaram algumas coisas. Vamos esperar o desenrolar. Mais uma vez, vão cair por terra as informações infundadas. Meu único objetivo vai ser sempre ajudar os animais.”
O que diz a Prefeitura de Canoas?
A reportagem entrou em contato com a Administração visando obter o ponto de vista da administração sobre o caso.
Em nota encaminhada pela assessoria de comunicação, a Prefeitura de Canoas informa que “recebe com indignação as denúncias relacionadas à operação realizada na manhã desta quinta-feira (4). A Administração sempre se comprometeu a tratar o cuidado com os animais como prioridade. A Prefeitura reitera que colabora com as investigações e abriu um expediente interno para apurar os fatos com todo o rigor.”