O depoimento de Belisia de Fátima, de 41 anos, levou a Polícia Civil a novos detalhes sobre o triplo homicídio ocorrido em Esteio no começo desta semana.
Ela é a esposa de Jocemar Antunes, 45, apontado, assim como a companheira, como um dos quatro envolvidos na morte do bebê Miguel Martins Kosmalski, de dois meses, da mãe Kauany Martins Kosmalski, 18, e do adolescente Ariel Silva da Rosa, 16, no último domingo (20).
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Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial
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Mudança de responsabilização
Em nova coletiva de imprensa, o titular da 3ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana (DPRM), o delegado Cristiano Reschke, informou que Belisia prestou esclarecimentos nesta quinta-feira (24), mesmo dia em que teve a prisão preventiva decretada. A partir do relato, houve uma mudança de responsabilização perante a participação de cada um, especificamente dos jovens, de 15 e 17 anos, no crime.
De acordo com a delegada Marcela Smolenaars, ambos os adolescentes, que possuem um relacionamento homoafetivo, moram com o casal e a filha de 4 anos há pouco tempo. Inicialmente, as autoridades acreditavam que os jovens tinham participado apenas da ocultação dos cadáveres.
Segundo narrou à Polícia, a mulher descobriu a traição de Antunes e não conseguiu aceitar a relação extraconjugal com Kauany, que frequentava a residência, localizada no bairro Santo Inácio. Ao perceber a insatisfação de Belisia, o adolescente de 15 anos planejou o crime com ela, enquanto o companheiro, de 17, tinha conhecimento da mentoria.
Participação no crime
No domingo, enquanto bebia vinho dentro do carro de Antunes com as vítimas e o companheiro nas proximidades da Fábrica da LaSul, o jovem de 15 anos pediu um motorista de aplicativo para Belisia, que, ao chegar ao local por volta das 22h30, retirou Kauany do veículo do marido e a esfaqueou.
A agressora chegou a ficar com uma lesão no rosto em função do confronto com a vítima. “Jocemar, vendo a cena, acabou matando Ariel para preservar a esposa, porque ele estava pedindo por socorro”, explicou a delegada.
Na sequência, Belisia teria descartado as facas usadas contra as vítimas e os chinelos brancos de Kauany em um matagal próximo ao ponto onde ocorreram os crimes. Hoje, a mulher levou os policiais até o local. O calçado foi encontrado, o que corrobora com a versão da investigada.

Foto: Polícia Civil
Na sequência, se deslocaram para esconder os corpos um bueiro, na beira do Rio dos Sinos, na Luiz Pasteur. Enquanto um dos adolescentes foi o mentor e ficou atento para avisar caso populares se aproximassem, o outro, de 17, auxiliou na desova.
“É chocante a falta de remorso, é zero remorso o que eles mostram”, pontua Marcela. Os jovens prestaram esclarecimentos ao Ministério Público e ao Conselho Tutelar na tarde de quarta (23).
Ainda de acordo com ela, os adolescentes não aceitaram a prisão de Antunes. “A idolatria por Antunes era tanta, que um deles precisou ser contido pelos policiais no momento que souberam da prisão”, completa.
“Por que ninguém quer falar o que aconteceu com o bebê?”, questiona a delegada
Em relação ao contexto do caso, a maior lacuna gira em torno da morte do bebê. Antunes disse às autoridades que teria matado Kauany e o amigo, mas não se lembrava do que teria acontecido com o pequeno Miguel.
A versão apresentou inconsistências com a confissão da esposa já na terça (22), visto que ela relatou ter atacado a jovem. Contudo, Belisia repetiu a versão do marido ao dizer que não se recordava de como a criança havia sido morta. Ela teria ficado dentro do carro com os adolescentes durante os ataques.
Depois dos crimes, Rosa teria sido colocado no banco da frente, ao lado de Antunes, enquanto o corpo de Kauany ficou deitado em cima de Belisia, o bebê e os outros dois envolvidos, no banco de trás. Segundo o casal, a criança não teria emitido som durante o percurso até o local da desova.
O jovem de 17 anos teria jogado Miguel por último no bueiro. No entanto, em depoimento, Belisia informou que não sabia dizer se ele estava vivo ou morto.
“Por que ninguém quer falar o que aconteceu com o bebê?”, questiona a delegada. Para Reschke, há um complô entre os envolvidos para omitir o crime contra a criança. A causa da morte deve ser esclarecida pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP) até o começo da próxima semana.
Falta de remorso
O que chama atenção da Polícia é a falta de arrependimento de terem cometido o crime. “O que eles têm remorso é de terem estragado a vida deles e da criança por causa da Kauany”, explica.
A investigação deve ainda apurar se Antunes tinha premeditação do crime cometido contra Kauany, mas, para a delegada, ele teve consentimento não só por corroborar com o crime cometido pela esposa, mas por medo de que perdesse integridade moral caso a relação extraconjugal se tornasse pública.
Marcela pontua ainda que as autoridades devem pedir a acareação de Belisia e Antunes para colocá-los frente a frente e esclarecer pontos contraditórios dos depoimentos.
Em andamento
Além do laudo do IGP, as autoridades solicitaram um exame de paternidade para comprovar se Antunes era o genitor de Miguel. Ainda, os telefones dos envolvidos foram apreendidos e passam por análise que podem esclarecer outros detalhes sobre o planejamento do crime.
Uma perícia luminol também foi feita no veículo onde os corpos foram transportados. Os resultados devem ser entregues às autoridades na próxima semana.

Foto: Polícia Civil
Não era pai de santo
Ainda durante a coletiva, Reschke disse que representantes do povo de matriz africana entraram em contato com as autoridades e informaram que Antunes não tinha os requisitos, ou seja, não era reconhecido oficialmente como pai de santo. Para o delegado, isso configura como “mais uma fraude” praticada por ele.