O sábado, dia 10, foi marcado por um momento de surpresa e comoção para a comunidade da região. A instituição de longa permanência para idosos Oásis Santa Ângela anunciou que encerrará as atividades, no final de fevereiro, após 53 anos de trabalho em Canela.
FOMENTAR A ECONOMIA: Centro de Feiras de Canela receberá mais de R$ 14 milhões para revitalização

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Atualmente, o local é lar para 46 idosos, além de 13 irmãs guanellianas. O Oásis tem como mantenedor o Instituto Filhas de Santa Maria da Providência.
Com caráter social, a entidade filantrópica sobrevive de parte da aposentadoria dos assistidos, de convênios com o poder público e de vagas particulares. Entretanto, a irmã Sônia Maria Southier, responsável pela administração, destaca que o valor recebido por mais de 60% dos idosos é muito abaixo do custo mensal, estimado em R$ 5 mil por pessoa.
A irmã acentua que os problemas financeiros começaram em 2015, principalmente devido às exigências legais para manter uma instituição de longa permanência. Os encargos salariais dos profissionais da saúde envolvidos no cuidado com os idosos 24 horas por dia, de acordo com a diretora, pesam no orçamento de cada mês.
Segundo ela, a dedicação é em tempo integral, já que há 20 idosas com dependência de grau 3, ou seja, totalmente dependentes do cuidado da equipe.
Déficit de R$ 2,4 milhões
Relatórios contábeis divulgados apontam que, há 11 anos, o local opera com déficit. O maior deles foi em 2021, durante a pandemia de Covid-19, que teve um saldo negativo de R$ 565 mil. Entre janeiro e outubro de 2025, os débitos registrados giram em torno de R$ 345 mil.

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
De modo geral, a estimativa é de um prejuízo de R$ 2,4 milhões ao longo desse período. A irmã Sônia pondera que a instituição não deve para ninguém e que esse valor foi coberto pela própria congregação e também por heranças deixadas por idosas.
A diretora revela que o lar possui 50 funcionários e uma folha salarial que ultrapassa os R$ 150 mil. O trabalho é realizado também pelas irmãs, que não recebem salários e colocam as aposentadorias recebidas em um fundo comum.
RESULTADO POSITIVO: Turistas que visitaram Gramado em novembro de 2025 ficaram mais de 5 noites na cidade
“A comunidade nos ajuda muito. A gente não tem falta de alimentos ou produtos de higiene, mas temos um déficit por mês que começa em R$ 70 mil, por causa de todos os salários”, atesta a irmã, citando que o local conta com atendimento de médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, nutricionista, assistente social, psicólogo e educador físico.
“Decisão dolorosa”

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
“É uma decisão dolorosa, mas que precisa ser tomada para a gente não ir à falência. Neste momento, não temos alternativa. Nós tentamos de tudo”, acrescenta a irmã, salientando que era de conhecimento da comunidade e do poder público as dificuldades financeiras enfrentadas.
Ela reforça que ajuda pontual não adianta, pois é preciso honrar com o compromisso de pagar os salários dos profissionais todos os meses.
SERVIÇO PÚBLICO: Empresa vencedora de licitação promete transporte público de excelência para Gramado
“A dor é grande, mas também foi grande a compreensão, porque aqui sempre houve vínculo, entrega e amor no cuidado diário”, assegura. “Enquanto o social não for tratado como prioridade permanente, outras histórias com a do Oásis Santa Ângela continuarão a se repetir”, lamenta ao falar sobre o encerramento das atividades.
OPORTUNIDADE NA SERRA: Prefeitura de Gramado estima 4 mil inscritos para o concurso público do magistério
A diretora frisa que a decisão está sendo amadurecida há mais de um ano. “Chegou o momento que não temos mais recursos. O que guardamos em caixa é para pagar as demissões. Nos comprometemos e vamos pagar todos os direitos dos funcionários”, alega. “Saímos de coração partido, mas com muita gratidão a todos. Gratas pelo o que conseguimos fazer, pela comunidade que nos acolheu e ajudou e, com certeza, vai estar ao nosso lado”, comenta.
Convênios com prefeituras da região
A instituição conta com convênios com as prefeituras da região. São quatro idosas de Canela e duas de Gramado.

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
O secretário de Assistência Social de Gramado, Ilton Gomes, diz que o Executivo já foi oficialmente comunicado sobre a decisão do lar e que as demais instituições conveniadas ao município seguem com suas atividades normalmente, sem qualquer alteração nos serviços prestados.
“Modelo bom para todos”: Comitiva de Gramado irá para Bombinhas analisar funcionamento e cobrança de taxa ambiental
Ele complementa que as idosas serão acolhidas em outro local conveniado, garantindo a continuidade do atendimento. “Nosso principal compromisso é com o bem-estar e a dignidade das pessoas idosas. Todo o processo de realocação está sendo conduzido de forma responsável, técnica e humanizada, garantindo que nenhuma idosa fique desassistida”, afirma.
A Prefeitura de Canela afirmou à reportagem que não irá se manifestar sobre o tema.
Como ficará a estrutura do Oásis

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Localizado nas margens da RS-235, em Canela, o Oásis possui uma área de cerca de 7 hectares. O terreno e a edificação pertencem à congregação. Assim, as 13 irmãs que moram na instituição devem continuar residindo no local.
“Não estamos vendendo nada. Pode até chegar esse momento, mas não é o nosso desejo”, argumenta a irmã Sônia, ao relatar que já recebeu propostas para vender a área.
A diretora pontua que a instituição está aberta ao diálogo com outras entidades que possam ter interesse em administrar o espaço, mas que é preciso que tenham como premissa o cuidado com a saúde ou os idosos. “Nós não temos nada firmado ainda. O nosso primeiro foco é cuidar deste momento, conduzir com muita humanidade e com muito cuidado e auxiliar as famílias”, afirma. “Como vai ressurgir algo novo eu não sei, mas esperamos que sim, e em prol da vida”, acrescenta.
“À espera de um milagre”
A família de uma assistida pela instituição, que pediu para não ser identificada, conta que sabia que o Oásis passava por problemas financeiros, mas não imaginava a gravidade do caso e nem sobre a hipótese do espaço fechar.
A idosa, em 2025, completaria 50 anos morando no lar. “Realmente, fomos pegos de surpresa com o anúncio. Essa notícia nos abalou profundamente, não só pelo desafio que isso vai causar, mas, principalmente, porque o Oásis é a casa da nossa idosa e sempre acolheu não só ela, como nossa família também. Posso dizer que fizemos verdadeiros amigos ao longo desses anos, principalmente as irmãs, que são seres realmente abençoados e iluminados”, destaca a familiar, reforçando a dedicação da equipe que atua no local.
INFRAESTRUTURA TURÍSTICA: Revitalização da Rua Coberta, novo paisagismo na Rua Torta e melhorias no Expogramado são projetos para 2026 em Gramado
A família enfatiza que ainda não sabe para onde a idosa irá e que, conforme pesquisas, uma instituição particular cobra seis vezes mais que o valor pago atualmente no Oásis.
“Confesso que estamos ‘à espera de um milagre’ para que o Oásis continue funcionando, seja sob o comando da congregação ou, talvez, uma parceria público-privada. A instituição tem uma importância enorme, não só para todos os envolvidos diretamente, mas para a comunidade das nossas cidades e merece ser mantida”, prospecta.
LEIA TAMBÉM