A alta no preço dos combustíveis, especialmente do diesel, já pressiona o transporte de cargas no Rio Grande do Sul e deve provocar impacto no preço das mercadorias nos próximos dias. Com forte dependência do modal rodoviário, o Estado já sente os reflexos no custo logístico, o que tende a ser repassado ao longo da cadeia até chegar ao consumidor final.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial/Arquivo
De acordo com o presidente da Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul — Fetransul, Francisco Cardoso, o impacto é direto e imediato. “Quando o diesel sobe nessa velocidade, o impacto nas operações é imediato. Nenhum setor consegue absorver um aumento dessa magnitude por muito tempo”, afirma.
A variação recente do combustível, segundo o presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística no Estado do Rio Grande do Sul — Setcergs, Delmar Albarello, ficou entre 28% e 32%, o que aumenta a pressão sobre o setor. “A instabilidade nos preços do petróleo, com flutuações diárias, aumenta a incerteza e dificulta o planejamento.”

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Segundo Cardoso, o cenário torna inevitável o repasse aos fretes. “É preciso que as empresas de transporte rodoviário de cargas, para garantir a qualidade, segurança e sustentabilidade de suas operações, repassem em seus contratos e tarifas esse aumento de custo”, acrescenta.
Albarello alerta que, operações com cargas completas, por exemplo, tendem a sentir mais rapidamente os efeitos da alta em comparação com cargas fracionadas. “É natural que a maioria das empresas tenha ajustado seus valores, implementando taxas emergenciais ou negociando reajustes para mitigar o impacto da alta do diesel”, afirma.
A relevância do transporte rodoviário no Estado amplia ainda mais o efeito da alta. Atualmente, cerca de 85% da produção gaúcha é movimentada por esse modal. “Discutir o custo do diesel é discutir o custo de levar alimentos, insumos e produção às cidades”, ressalta Cardoso.

Foto: Bruno Morais/GES-Especial
Agronegócio entre os mais afetados
A Fetransul já vinha apontando a pressão crescente do combustível sobre o setor. Em posicionamentos divulgados ao longo de março, a entidade destacou que o diesel representa entre 40% e 45% do custo operacional do transporte rodoviário de cargas, sendo o principal insumo da atividade.
Na prática, o aumento tende a atingir diferentes setores da economia. Entre os mais sensíveis estão o agronegócio, especialmente no transporte de grãos e fertilizantes, a indústria de base, além dos segmentos de alimentos e bebidas e o varejo. A expectativa é que o impacto seja percebido em cadeia, começando pelo frete e avançando até o preço final dos produtos.
O reflexo ao consumidor, inclusive, não deve demorar. “Como já chegou às bombas, em pouco tempo esse custo também alcança o consumidor final”, projeta o presidente da entidade. Além da pressão sobre os preços, o setor também demonstra preocupação com a regularidade no abastecimento. “O que nos preocupa é o abastecimento de diesel. Faltando diesel, os caminhões param”, alerta.
Impacto varia, mas já chega ao frete
Na avaliação do presidente da Setcergs, Delmar Albarello, o impacto sobre o setor é significativo, mas não uniforme. “Cada segmento da logística, assim como cada tipo de carga, sofre um impacto diferente. O diesel representa um custo variável, e generalizar um percentual de aumento nos fretes seria impreciso”, explica.
O dirigente também chama atenção para fatores que ampliam a pressão sobre os preços. Segundo ele, há movimentos de mercado que podem antecipar reajustes. ““Há especuladores que podem estar retendo produtos, aguardando melhores preços, o que pode antecipar o repasse ao consumidor”, afirma.
Albarello ainda aponta fragilidades estruturais. “A falta de fiscalização e de estoques reguladores agrava a situação”, diz. Em sua avaliação, o repasse pode ser ainda mais rápido em alguns casos. “Em geral, o impacto chegará ao consumidor final em breve”, afirma. Ele também menciona risco de desabastecimento, especialmente em períodos de maior demanda, como o escoamento da safra.
Funcionário de uma transportadora de Novo Hamburgo, que pediu para não ser identificado, comentou que até o momento, a empresa tem absorvido o prejuízo. “Isso estoura em nós. Não tem como repassar o aumento porque as empresas já contratam o frete com o valor do combustível embutido. Se aumenta o combustível, não temos como repassar isso porque já está fechado no contrato”, explica.
Produtos perecíveis tendem a sentir os efeitos de forma mais imediata. “Outros itens, como plásticos e commodities, podem demorar um pouco mais, mas o aumento é inevitável”, completa Albarello.

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Pressão já motivou pedidos ao governo
Diante da escalada nos preços, a Fetransul também encaminhou, no último dia 16, um ofício ao governo do Estado solicitando a avaliação de medidas para reduzir o impacto do diesel sobre o setor.
No documento, a entidade pede a análise de alternativas tributárias, como a discussão sobre o ICMS incidente sobre o combustível no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). A proposta busca reduzir custos logísticos e preservar a competitividade da produção gaúcha, além de minimizar riscos de desabastecimento em cadeias sensíveis, especialmente durante o escoamento da safra agrícola.
A federação também reconheceu medidas adotadas pelo governo federal, como a redução de tributos, mas destacou que o cenário segue instável, influenciado por fatores como o mercado internacional de petróleo e a variação cambial.

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Para o presidente do SETCERGS, o cenário também está ligado a fatores estruturais. Segundo ele, embora o mercado internacional influencie os preços, há limitações internas relevantes. “O Brasil poderia ser autossuficiente em petróleo, mas a capacidade de refino é insuficiente. Há um déficit de cerca de 25% no refino de diesel no país, agravado pela variação do dólar”, aponta.
O cenário já apresenta reflexos práticos em diferentes regiões do Estado. Levantamento da Famurs aponta que ao menos 142 municípios gaúchos enfrentam dificuldades no abastecimento de diesel, com impacto direto na manutenção de serviços essenciais. Prefeituras têm priorizado áreas como a saúde, enquanto obras e atividades que dependem de maquinário começam a ser suspensas.
“Essa situação tende a se agravar se nenhuma medida de garantia do abastecimento for tomada. Vamos levar esses dados ao governador e reforçar a necessidade de buscarmos alternativas para garantir o pleno funcionamento dos serviços”, afirmou a presidente da Famurs e prefeita de Nonoai, Adriane Perin de Oliveira.
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