Relatos de dificuldades na entrega de óleo diesel a produtores rurais do Rio Grande do Sul acenderam um alerta entre entidades do agronegócio e da indústria. Produtores e organizações do setor relatam o cancelamento de pedidos de combustível e aumento repentino no preço do produto, enquanto a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sustenta que o Estado possui estoques suficientes para garantir o abastecimento regular.
O tema ganhou força justamente no momento em que o Estado está em plena colheita da safra de verão, especialmente de arroz e soja, período em que a demanda por diesel aumenta para o funcionamento de máquinas agrícolas e para o transporte da produção.
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Foto: Giovani Wrasse/Irga
Entidades do setor agropecuário relatam que produtores enfrentam dificuldades para receber combustível já encomendado. Segundo a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), há reclamações recorrentes sobre a não entrega de diesel por parte de transportadores revendedores retalhistas (TRRs) nas propriedades rurais.
Empresas do segmento de TRR, que compram combustível das distribuidoras e vendem para fazendas, indústrias e transportadoras, também relatam dificuldades no acesso ao produto.
Segundo representantes do setor, a estratégia tem sido fracionar as entregas para evitar que clientes fiquem totalmente sem abastecimento, especialmente em regiões com forte atividade agrícola.
Colheita em risco
Em comunicado divulgado no sábado (7), a Farsul afirmou que empresas responsáveis pela distribuição informaram que o problema teria origem nas refinarias, que teriam suspendido a distribuição do combustível sem aviso prévio ou justificativa.
A federação ressalta que a situação é grave porque ocorre durante o período de colheita, quando as lavouras ficam mais vulneráveis a prejuízos caso as atividades no campo sejam interrompidas. “O problema ocorre em todas as regiões do Estado. São 900 mil hectares de arroz atingidos e, em breve, iniciaremos a colheita de soja”, diz a entidade.
A Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) também manifestou preocupação com o cenário. A entidade afirmou ter recebido diversos relatos de atrasos e cancelamentos na entrega de diesel, além de aumento superior a R$ 1,20 por litro do combustível em poucos dias.
Segundo a federação, a situação ocorre em um momento delicado para o setor arrozeiro. Atualmente, a saca de arroz é comercializada em média por cerca de R$ 55, valor abaixo do custo de produção, estimado entre R$ 85 e R$ 90, o que pressiona ainda mais a rentabilidade dos produtores.
A entidade também orientou agricultores a comunicar eventuais irregularidades envolvendo preços ou abastecimento do combustível. As informações, segundo a Federarroz, poderão ser encaminhadas a órgãos como Ministério Público, Polícia Civil, Polícia Federal, ANP e entidades de defesa do consumidor.
Indústria também manifesta preocupação
A preocupação também chegou à indústria. A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) afirmou acompanhar com atenção os relatos de dificuldades na distribuição de combustíveis no Estado.
Para a entidade, o abastecimento regular de diesel é essencial para a indústria, a logística e as cadeias produtivas. A federação ressalta que o agronegócio, considerando suas diversas etapas, responde por cerca de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) do RS, o que faz com que eventuais dificuldades no campo tenham reflexos diretos sobre a atividade industrial e a logística.
Segundo o presidente da entidade, Claudio Bier, o desabastecimento pode afetar o transporte de insumos, a distribuição de produtos e o funcionamento das cadeias produtivas. A Fiergs afirma que seguirá monitorando a situação e defende a atuação coordenada entre empresas do setor energético e autoridades públicas para evitar impactos mais amplos sobre a economia gaúcha.
“Sem indicativos de falta”
Enquanto entidades de diferentes setores demonstram preocupação, a ANP afirma que não há indicativos de falta de combustível no Estado. Em nota divulgada no domingo (8), a agência informou que entrou em contato com os principais fornecedores da região após relatos sobre dificuldades na aquisição de diesel por produtores rurais.
Segundo a agência, o Rio Grande do Sul possui estoque suficiente para assegurar o abastecimento regular do combustível. A produção e a entrega do diesel seguem em ritmo normal pelo principal fornecedor da região, a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas. A refinaria é operada pela Petrobras e é responsável por boa parte do abastecimento de diesel no Estado.
“Equipes técnicas da ANP estão realizando verificação das instalações e operações relevantes. As distribuidoras serão formalmente notificadas para que prestem os devidos esclarecimentos à ANP sobre o volume em estoque, os pedidos recebidos e os pedidos efetivamente aceitos. Caso seja necessário, a agência está preparada para adotar todas as medidas cabíveis a fim de assegurar a continuidade e a normalidade da oferta de diesel no país”, disse a ANP em nota.
Postos relatam mercado “estressado”
Segundo o presidente do Sulpetro, João Carlos Dal’Aqua, não há um desabastecimento generalizado de diesel no Estado, mas o mercado enfrenta dificuldades pontuais diante do aumento repentino da demanda. De acordo com ele, distribuidoras têm priorizado o atendimento de postos com contratos, geralmente vinculados a bandeiras, enquanto estabelecimentos independentes podem encontrar mais dificuldade para adquirir o produto.
“Temos um fornecimento estressado que está chegando aos postos. A Petrobras está bombeando dentro da normalidade, mas não há como atender uma demanda que aumenta 20% ou 30% de uma hora para outra”, afirma.
Dal’Aqua explica que a demanda cresce nesta época do ano em função do início da colheita agrícola. Ao mesmo tempo, empresas do segmento de TRR também podem enfrentar maior dificuldade de acesso ao produto por não manterem contratos fixos com as distribuidoras. “As distribuidoras estão repassando valores diferentes o tempo todo, tanto na gasolina quanto no diesel. Toda decisão de preço é do revendedor, que leva em conta volume, estratégia comercial e concorrência local”, explica.
Petrobras adota sistema de “cota-dia”
Em meio ao aumento da demanda por estoques e à disparada do preço internacional do petróleo, a Petrobras passou a adotar um sistema conhecido como “cota-dia” na venda de diesel para distribuidoras.
A medida divide o volume mensal contratado pelas empresas em retiradas diárias, impedindo que grandes compradores antecipem carregamentos para formar estoques maiores antes de eventuais reajustes de preço.
No mercado, o mecanismo tem sido interpretado como uma forma de racionamento preventivo. Segundo informações publicadas pela Agência Estado, a decisão foi tomada após a disparada das cotações internacionais do petróleo e a percepção de corrida de consumidores para abastecer tanques enquanto o preço interno permanece defasado em relação ao mercado externo.
De acordo com analistas do setor, a Petrobras atualmente atende cerca de 70% da demanda nacional por diesel. O restante é suprido por importações, que teriam sido reduzidas nas últimas semanas devido à diferença entre o preço internacional e o valor praticado no Brasil.
Dependência de importação
Com a retração das importações, regiões mais distantes dos principais centros de produção podem sentir primeiro eventuais dificuldades de abastecimento. Segundo fontes do setor, áreas como o Nordeste e o Rio Grande do Sul costumam depender mais de volumes complementares vindos do exterior.
Executivos do mercado afirmam que, caso a diferença entre os preços internacionais e o valor vendido no País persista, a tendência é de aumento da pressão por reajustes para restabelecer a atratividade das importações e evitar problemas de suprimento.
ANP diz que produção garante abastecimento
De acordo com a ANP, o Rio Grande do Sul produz mais diesel do que consome e não foram constatadas justificativas técnicas ou operacionais que expliquem eventuais recusas no fornecimento do produto. A ANP acrescentou que aumentos de preços considerados injustificados também poderão ser investigados em conjunto com órgãos de defesa do consumidor.
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O setor de transporte de cargas, que depende diretamente do combustível para manter as operações logísticas, informou que acompanha o cenário antes de se posicionar oficialmente. Procurado pela reportagem, o Sindicato das Empresas de Transporte de Carga e Logística do Rio Grande do Sul (Setcergs) afirmou que não fará manifestação neste momento.
“Diante das informações e cenários que mudam dia a dia, o Setcergs não se pronunciará ainda. Estamos acompanhando o setor, e junto com mais entidades, o pronunciamento será feito nos próximos dias”, informou a entidade.
Conflito no Oriente Médio
Além das questões logísticas e comerciais envolvendo a distribuição de combustíveis, o cenário internacional também aparece no radar de entidades do setor produtivo. A Fiergs destaca que o agravamento das tensões no Oriente Médio tem ampliado as incertezas no mercado internacional de energia.
Segundo a entidade, conflitos na região podem afetar a oferta mundial de petróleo e gerar instabilidade no mercado de combustíveis, o que aumenta a preocupação em relação à segurança do abastecimento.
Para o presidente do Sulpetro, João Carlos Dal’Aqua, com a forte volatilidade do barril, distribuidoras têm evitado trazer produto do exterior. “O diesel importado não está vindo porque há muita instabilidade no preço do petróleo. Com essa oscilação, as empresas suspendem compras para evitar grandes perdas”, afirma.
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