“O El Niño vai mostrar suas garras”. É com essa frase que a meteorologista Estael Sias, da MetSul Meteorologia, resume o cenário esperado para o Rio Grande do Sul a partir de quinta-feira (16).

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial Arquivo
Depois de uma semana que começou com frio, o Estado deve enfrentar uma sequência de temporais que pode se estender até segunda-feira (20) ou, em algumas regiões, terça, com risco de chuva intensa, vendavais, granizo, microexplosões atmosféricas e alagamentos. Para os meteorologistas, este será o primeiro grande episódio de tempo severo associado ao fortalecimento do Super El Niño.

Foto: Metsul Meteorologia
A previsão indica que diferentes sistemas meteorológicos vão atuar em sequência sobre o Estado. A combinação entre uma frente fria, um corredor de umidade vindo da Amazônia (rio atmosférico) e o avanço de ar mais quente criará um ambiente altamente favorável à formação de tempestades. A faixa que vai da Serra à Região Metropolitana, passando pelos vales e chegando ao Litoral Norte, aparece entre as áreas que exigem maior atenção ao longo dos próximos dias.
Embora o El Niño não provoque uma tempestade específica, ele altera o comportamento da atmosfera sobre a América do Sul. Neste ano, o Oceano Pacífico atingiu níveis considerados historicamente elevados de aquecimento, caracterizando um Super El Niño. Segundo a MetSul, esse cenário favorece episódios mais frequentes de chuva acima da média e aumenta o potencial para eventos meteorológicos extremos durante o inverno e a primavera. A sequência prevista para os próximos dias é apontada como o primeiro grande teste desse novo padrão atmosférico.
O cenário também é compartilhado pela Defesa Civil Estadual, que emitiu um alerta de “tempo severo”. O aviso é válido durante cinco dias, a partir desta quinta (16) até segunda-feira (20)

Foto: Metsul Meteorologia
Atmosfera reúne os ingredientes para tempestades severas
De acordo com a MetSul, o cenário preocupa não por causa de um único temporal, mas pela sucessão de sistemas meteorológicos que atuarão sobre o Estado. Enquanto uma frente fria avança pelo Sul do Brasil, um poderoso rio atmosférico transportará grande quantidade de umidade da Amazônia em direção ao Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, o ingresso de ar quente fornecerá energia para o desenvolvimento das nuvens de tempestade.
Essa combinação aumenta o potencial para temporais organizados, capazes de produzir chuva intensa em curto intervalo de tempo. Rajadas de vento entre 120 e 130 km/h a 1.500 metros de altitude (não na superfície) podem causar tempestades repentinas, queda de granizo, elevado número de descargas elétricas e até microexplosões atmosféricas — fenômeno caracterizado por correntes descendentes extremamente intensas que atingem o solo e provocam ventos destrutivos em áreas localizadas.
Para a MetSul, trata-se de um dos episódios de maior preocupação desde o início do inverno, justamente porque diferentes eventos de instabilidade poderão ocorrer em sequência, sem que haja um período prolongado de estabilidade entre eles.
O que esperar dia a dia

Foto: Metsul Meteorologia
Quinta-feira
A mudança no tempo começa a ganhar força graças ao ingresso de ar muito quente na atmosfera desde esta quarta-feira (15). Isto fará com que as primeiras áreas de instabilidade avancem sobre o Estado com o deslocamento da frente fria. Durante o dia, a atmosfera ficará progressivamente mais instável, favorecendo pancadas de chuva fortes e temporais isolados.
No Vale do Sinos, Serra, Região Metropolitana e Litoral Norte, aumenta o risco de chuva intensa, rajadas de vento e episódios localizados de granizo entre a tarde e a noite.
Sexta-feira
A sexta-feira tende a marcar o início da fase mais crítica da sequência de instabilidades. Com maior disponibilidade de calor e umidade, as tempestades podem ganhar intensidade e organização.
Segundo a MetSul, cresce o potencial para vendavais, chuva torrencial em curto período, granizo e microexplosões atmosféricas, capazes de causar destelhamentos, queda de árvores e interrupções no fornecimento de energia elétrica.
Sábado
O sábado deverá manter o ambiente extremamente instável. Novas áreas de chuva devem se formar ao longo do dia, mantendo elevado o risco de temporais.
Como o solo já poderá estar encharcado em diversas regiões, aumenta também a possibilidade de alagamentos urbanos, enxurradas e rápida elevação de arroios e pequenos cursos d’água, especialmente onde houver repetição de episódios de chuva intensa.
Domingo
A instabilidade permanece sobre o Estado. Mesmo que alguns períodos de melhora ocorram entre uma área de chuva e outra, a atmosfera continuará favorável ao desenvolvimento de novas tempestades.
Os riscos seguem concentrados em chuva forte, rajadas de vento e granizo, principalmente na metade norte gaúcha.
Segunda-feira (e possibilidade de terça)
A tendência é que o sistema comece a perder força gradualmente no início da próxima semana, mas ainda não se descarta a ocorrência de novos temporais. Conforme a evolução dos sistemas meteorológicos, a instabilidade poderá persistir até terça-feira em algumas regiões do Rio Grande do Sul.
Região deve ficar entre as áreas de maior atenção
Pelas projeções meteorológicas, a faixa que compreende a Serra, os vales, a Região Metropolitana e o Litoral Norte reúne condições para registrar alguns dos temporais mais significativos do episódio.
É justamente nessa área que estão municípios como Novo Hamburgo, São Leopoldo, Canoas, Campo Bom, Sapiranga, Estância Velha, Porto Alegre, Gramado e Canela, onde a combinação entre chuva intensa e vento forte poderá provocar transtornos como alagamentos, queda de árvores, destelhamentos e interrupções no fornecimento de energia elétrica.
“O período prolongado de tempo severo está associado a um bloqueio atmosférico que se intensifica sobre o sudeste do Brasil, dificulta o deslocamento dos sistemas meteorológicos (frente fria) e favorece a concentração de calor e umidade sobre o Rio Grande do Sul”, informa a Defesa Civil Estadual, ressaltando também que a chuva — já moderada — pode persistir até a próxima sexta-feira (24).
O primeiro grande teste do Super El Niño
Nos últimos dias, a MetSul Meteorologia publicou uma série de análises indicando que o Oceano Pacífico atingiu um novo patamar de aquecimento. As águas superficiais da faixa equatorial já apresentam anomalias próximas de 2°C acima da média, enquanto os principais modelos climáticos projetam que esse aquecimento pode chegar a entre 3°C e 4°C nos próximos meses, cenário compatível com um Super El Niño.
A intensidade do fenômeno é acompanhada internacionalmente por meio do Índice Oceânico de Niño (ONI), calculado a partir da média móvel de três meses da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, no Pacífico Equatorial. É esse indicador que permite classificar os episódios de El Niño em fracos, moderados, fortes ou muito fortes. Segundo a MetSul, o cenário atual coloca o fenômeno entre os mais intensos já observados nas últimas décadas.
Desde o início das medições modernas, apenas alguns episódios atingiram intensidade semelhante, como os registrados em 1972/73, 1982/83, 1997/98 e 2015/16. Todos ficaram marcados por alterações importantes no clima em diferentes regiões do planeta, incluindo períodos de chuva muito acima da média no Sul do Brasil.

Foto: Metsul Meteorologia
Isso não significa que todas as tempestades sejam provocadas diretamente pelo El Niño. O fenômeno atua modificando o comportamento da atmosfera, favorecendo a formação de sistemas meteorológicos mais frequentes e intensos, especialmente entre o fim do inverno e a primavera. No Rio Grande do Sul, esse padrão costuma resultar em mais episódios de chuva volumosa, temporais e cheias de rios.
Para a meteorologista Estael Sias, o período que começa nesta quinta-feira representa justamente o primeiro grande episódio de tempo severo associado ao fortalecimento do Super El Niño. Depois de semanas em que o fenômeno aparecia apenas nas projeções dos modelos e nas medições do Pacífico, seus efeitos começam a ser sentidos de forma mais evidente sobre o Estado, servindo como uma amostra do comportamento esperado para os próximos meses.

Foto: Metsul Meteorologia
Como se trata de um evento de longa duração e com potencial para mudanças rápidas nas condições do tempo, os riscos podem variar de intensidade entre uma região e outra ao longo dos próximos dias.