O cenário em torno das projeções do El Niño ficou ainda mais preocupante. O meteorologista Luiz Nachtigall, da MetSul, fez um alerta nesta quarta-feira (8) para o que se espera nos próximos meses: “Um quadro cada vez mais preocupante para o fenômeno El Niño com condições potencialmente jamais antes vistas pela ciência desde que se iniciaram as medições de temperatura do mar no Oceano Pacífico ainda durante o século 19″.
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Foto: MetSul
“Projeções mais recentes causam espanto entre meteorologistas ao redor do mundo”
Segundo o meteorologista, vários modelos de clima atualizaram nesta semana as projeções para os próximos meses para o El Niño “e o cenário que já era extremo e inédito se tornou ainda mais extremo“.
“As projeções mais recentes causam espanto entre meteorologistas ao redor do mundo, uma vez que jamais os dados indicaram intensidade sequer parecida para um episódio de El Niño, mesmo nos mais intensos, como 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.”
Dados atualizados neste mês indicam um aquecimento ainda maior do Oceano Pacífico Equatorial, o que eleva a possibilidade “de um episódio sem precedentes na era das observações modernas”.
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Pico pode superar Super El Niño de 2015 “com ampla margem”
Para Nachtigall, o destaque fica para o modelo sazonal do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), que atualiza as projeções uma vez por mês e voltou a apontar para a intensidade máxima do fenômeno.
A média dos cenários mostra anomalia de aproximadamente +3,9 °C na região Niño 3.4, o Pacífico Equatorial Centro-Leste, em dezembro, quando o fenômeno pode atingir o pico. Esse valor extraordinário superaria com ampla margem o recorde observado durante o poderoso El Niño de 2015-2016.
“Para se ter ideia da magnitude do que este modelo indica, a temperatura projetada está cerca de 1,1°C acima do antigo recorde registrado em 2015”, afirma o meteorologista. Ele explica ainda que, “em climatologia, uma diferença dessa ordem em uma região oceânica tão extensa representa uma mudança gigantesca na quantidade de calor armazenada no Pacífico tropical e tem potencial para provocar alterações profundas na circulação atmosférica global”.
Intensidade excepcional já em julho
Neste mês, o aquecimento na região Niño 3.4 apresenta temperatura muito alta, aproximadamente 1,95°C acima da média de 1990-2020, praticamente atingindo o limiar de +2,0°C, que é tradicionalmente associado aos chamados eventos de Super El Niño.
“É uma intensidade excepcional para esta época do ano, especialmente considerando que o aquecimento ainda deverá continuar durante os próximos meses”, pontua Nachtigall.
Novas rodadas do ECMWF mostram aumento de cerca de 0,3°C em relação às previsões divulgadas em junho. Além disso, praticamente todos os cenários do conjunto de simulações ficaram mais quentes, evidenciando uma tendência consistente de fortalecimento do fenômeno.
Mesmo usando o novo monitoramento, o Relative Oceanic Niño Index (Roni), que reduz a influência do aquecimento global sobre os valores absolutos da temperatura do mar, as projeções apontam para um valor próximo de +3,4°C, também superior aos maiores registros históricos.
Último trimestre de 2026 promete ser marcado por evento extremo
O cenário extremo, contudo, não aparece apenas no modelo europeu. Segundo o meteorologista da MetSul, as previsões mais recentes do NOAA FV3 SFSv1.1 Beta, assim como simulações do CFSv2, Météo-France S9 e outros sistemas internacionais de previsão sazonal, convergem para um evento de intensidade excepcional durante o último trimestre de 2026.
Segundo ele, há pequenas diferenças entre os modelos quanto ao momento do pico. Enquanto o ECMWF projeta continuidade do aquecimento ao redor de dezembro, o modelo norte-americano CFSv2 sugere que o pico poderá ocorrer em novembro. “Apesar dessa diferença temporal, ambos indicam um El Niño extraordinariamente intenso.”
Impacto do aquecimento global
A intensidade do El Niño é favorecida pelo aquecimento global dos oceanos. Como a temperatura média da superfície do mar atualmente é superior à registrada há algumas décadas, “torna-se mais fácil atingir valores absolutos recordes”.
“Ainda assim, mesmo quando esse fator é levado em consideração por índices relativos, como o RONI, o evento projetado continua aparecendo como potencialmente histórico. Caso tais previsões de modelos se confirmem, o El Niño de 2026 poderá modificar significativamente padrões climáticos em diversas regiões do planeta”, alerta Nachtigall.
Impactos comuns em eventos de El Niño
Historicamente, episódios muito fortes de El Niño costumam alterar a distribuição das chuvas, favorecer enchentes em algumas áreas – como é o caso do Sul do Brasil –, secas severas em outras, aumentar a frequência de ondas de calor e influenciar a atividade de ciclones tropicais em diferentes oceanos.
“Novas atualizações dos modelos serão fundamentais para confirmar se o Pacífico realmente caminha para registrar o mais intenso El Niño já observado desde o início das medições modernas, mas já é uma certeza que será um El Niño intenso e histórico, com probabilidade cada vez maior de se tornar o mais intenso já visto nos tempos modernos.”