A morte de Isac Emanuel Ribeiro da Silva, de 35 anos, confirmada nesta terça-feira (24), aumentou para sete o número de óbitos na RS-115 em cerca de 10 dias. Entre acidentes de carro, de moto e atropelamentos, principalmente entre Igrejinha e Gramado, os 41 quilômetros da rodovia se transformaram em uma sequência de tragédias que reacendem o debate sobre segurança viária no trecho.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Isac era marido de Clarissa Felippetti, de 38 anos. O casal e a amiga Fernanda Barros, 35, foram atropelados no início da manhã de sábado (21), no acostamento da RS-115, em Três Coroas. As duas mulheres morreram na hora. O trio havia saído minutos antes para pedalar, quando foram atingidos pelas costas por um Fiat Palio prata, emplacado em Gramado. De acordo com o Comando Rodoviário da Brigada Militar (CRBM), o motorista, além de fugir do local sem prestar socorro, estava embriagado e não possui habilitação.
De acordo com um amigo de Isac, Marciel Soares, o ciclista teve morte cerebral confirmada na noite de segunda-feira (23) e um novo exame, realizado na manhã desta terça (24), confirmou o diagnóstico. Ele estava internado em estado gravíssimo em Canoas desde o dia do acidente, e deixou, junto com a esposa, uma menina de 8 anos e um menino de 6.
Em 2011, o pai de Clarissa também perdeu a vida em um acidente de trânsito na RS-115.
Investigação
Já no sábado, policiais civis de Três Coroas identificaram dois estabelecimentos situados à margem da mesma rodovia, em que o motorista esteve consumindo álcool. Ouvido na Delegacia de Três Coroas, o segurança de uma boate da cidade de Taquara atestou que o motorista chegou altamente embriagado no estabelecimento, tendo permanecido consumindo bebidas até o fechamento. Imagens de câmeras de monitoramento confirmam os horários de chegada e saída do motorista do Palio.
Dados mostram que 2026 já é mais letal que 2025
O comandante do Comando Rodoviário da Brigada Militar, Cléu Minuzzo, detalha que a ERS-115 tem início no entroncamento com a ERS-239, em Taquara, e segue até Gramado, no km 41. O trecho entre o km 0 e o km 26 é atendido pelo Grupo Rodoviário de Taquara (GPRv), enquanto a partir do km 27, no limite entre Três Coroas e Gramado, a responsabilidade passa ao Grupo Rodoviário de Gramado.
Conforme os dados atualizados, em 2026 o GPRv Taquara atendeu duas ocorrências com mortes, que somaram quatro vítimas. Já na área do GPRv Gramado, foram dois acidentes com dois óbitos. A morte de Isac não constava no balanço inicial porque ocorreu dias depois, no hospital. Ainda assim, entre os dias 13 e 24 de fevereiro, sete pessoas morreram em ocorrências na rodovia — três delas no atropelamento dos ciclistas.
Os números de pouco mais de uma semana já são maiores que os de 2025, quando o GPRv Taquara atendeu três acidentes, com três óbitos, no mesmo trecho. Enquanto o GPRv Gramado contabilizou uma ocorrência com uma vítima fatal no ano passado.
Em relação aos acidentes com feridos, o trecho atendido por Taquara contabilizou, em 2025, 91 ocorrências com 218 pessoas lesionadas, além de 36 casos que resultaram apenas em danos materiais. Em 2026, até agora, foram nove acidentes com 20 feridos e seis ocorrências apenas com danos materiais.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
No trecho de Gramado, em 2025 foram 39 acidentes com 93 pessoas feridas e 14 registros apenas com danos materiais. Em 2026, são cinco ocorrências com 12 feridos e dois casos que resultaram somente em prejuízos materiais.
O comandante ressalta que o Comando Rodoviário realiza fiscalizações diárias, com uso de radar e testes do etilômetro, buscando reduzir o número de acidentes e preservar vidas. Ele também reforça o apelo para que motoristas respeitem os limites de velocidade e que pedestres e ciclistas redobrem a atenção ao utilizarem a rodovia.
Fiscalização intensificada na rodovia
Entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026, os grupos rodoviários de Taquara e Gramado abordaram, juntos, mais de 14 mil veículos na ERS-115 e identificaram mais de 15 mil pessoas. No período, foram realizadas 574 operações de fiscalização, sendo 151 delas voltadas especificamente ao combate à embriaguez ao volante. Aproximadamente 200 motoristas foram flagrados dirigindo sob efeito de álcool.
Além das infrações de trânsito, as ações também resultaram em 56 prisões por diferentes crimes. Entre elas, 12 por tráfico de drogas, duas por porte ilegal de arma e 14 capturas de foragidos da Justiça.
O comandante Cléu Minuzzo, afirma que as ações são permanentes e envolvem fiscalização com radar e uso do etilômetro, com foco na redução de acidentes e na preservação de vidas. Ele também reforça o apelo para que motoristas respeitem os limites de velocidade e que pedestres e ciclistas redobrem os cuidados ao utilizarem a rodovia. “Nos solidarizamos com as famílias e seguiremos trabalhando a fim de garantir um trânsito cada vez mais seguro e também concitamos a todos que fazem parte do trânsito que contribuam para essa causa tão importante, dirigindo com cuidado, respeitando os limites de velocidade.”
Duplicação é prioridade para reduzir acidentes
O prefeito de Igrejinha, Leandro Horlle, afirma que melhorias como as rótulas construídas pela EGR – Empresa Gaúcha de Rodovias no segundo semestre do ano passado, próximas à fábrica Usaflex e à cervejaria Heineken — no limite com Três Coroas —, além do redutor de velocidade colocado na entrada do bairro Saibreira, ajudaram a reduzir os acidentes que eram frequentes nestes pontos da RS-115.
“Isso tudo foi construído graças à reuniões com a EGR, deixando esses trechos de conversão mais seguros. No entanto, a 115 já extrapolou e muito seu limite de capacidade. Nós precisamos de uma duplicação, principalmente entre Igrejinha e Três Coroas, mas elas não podem vir através de cobranças de pedágios. Como presidente da Ampara (Associação dos Municípios do Vale do Paranhana), já busquei diversas vezes agendar uma reunião com o governo do Estado, mas não conseguimos evoluir para discutir o que é essencial, que é a duplicação”, explica Horlle.
Os pedágios aos quais o prefeito de Igrejinha se refere fazem parte do pacote de concessões do Bloco 1 de Rodovias, a qual inclui a RS-115. Conforme o cronograma do Estado, os primeiros trechos duplicados serão entregues até 2030, com conclusão estimada para 2032. Contudo, para isso serão implementados dois pórticos de pedágios free flow instalados a partir do ano que vem. O primeiro no km 14,9, na altura da cervejaria Heineken, ao custo de R$ 3,92, e o segundo no km 31,5, em Gramado, custando R$ 4,62.
Por conta disso, mesmo entendendo que a iluminação da rodovia é dever do Estado, Horlle afirma que não pode tomar a iniciativa de iluminar a RS-115 porque as obras previstas iriam exigir a retirada. “Enquanto não nos receberam para nos ouvirem e explicarem o que pretendem, não conseguimos avançar em nada”, afirma. “Contudo, a maioria dos acidentes ocorre por imprudência dos motoristas”, conclui.

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Já a prefeita de Taquara — onde a rodovia começa e é duplicada —, Sirlei Silveira, pede por redutores de velocidade e passarelas no trecho que abrange os bairros Eldorado e Santa Maria.
“Os pedidos começaram ainda em janeiro de 2023, com ofícios enviados à EGR solicitando redutores, travessias seguras e reforço na iluminação. “Tivemos reuniões com a EGR, com presença da Polícia Rodoviária e da comunidade, e o presidente (Luis Fernando) Vanacôr se comprometeu com intervenções de curto prazo. Mas, até agora, nada foi executado”, afirmou a prefeita em julho de 2025. “No entanto, desde então, apenas redutores de velocidade (que parecem quebra-molas) foram colocados”, acrescentou nesta terça-feira (24).

Foto: Dário Gonçalves/GES-Especial
Mortes por acidentes na RS-115 nos últimos dias
- Celoi dos Santos Dutra, 52 anos, e Mário Augusto Machado, 55 anos. Morreram após colisão frontal entre um Chevrolet Classic e um Toyota Corolla, na noite de sexta-feira (13), no km 13, em Igrejinha. Ambos moravam em Três Coroas.
- Marina Maria de Carvalho, 33 anos. Morreu após ser atropelada na noite de quarta-feira (18), no km 39, em Gramado, enquanto retornava do trabalho. Era moradora de Gramado.
- Clarissa Felippetti, 38 anos, e Fernanda Barros, 35 anos. Morreram após serem atropeladas na manhã de sábado (21), no km 19, enquanto pedalavam. As duas moravam em Três Coroas.
- Isac Emanuel Ribeiro da Silva, 35 anos. Foi atropelado no mesmo acidente que vitimou Clarissa e Fernanda, na manhã de sábado (21), no km 19. Teve a morte confirmada na terça-feira (24), após permanecer internado em estado grave. Era morador de Três Coroas.
- Eduardo Rodrigues Sager, 21 anos. Morreu após acidente de motocicleta no domingo (22), no km 34, em Gramado. Morava em Três Coroas.
*Colaboraram Isaias Rheinheimer e Mônica Pereira.
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