A enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024 provocou um dos maiores deslocamentos populacionais já registrados em um desastre climático no Brasil.
Pesquisa inédita divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (1º), aponta que 922.233 pessoas mudaram de endereço depois da tragédia. Deste total, 349.366 moradores deixaram suas casas diretamente por causa da enchente. Ete número equivale a 5,5% da população residente nos 133 municípios pesquisados.
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Foto: Geison Concencia/GES-Especial
Os dados fazem parte da Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS), primeiro levantamento domiciliar realizado pelo IBGE exclusivamente para mensurar os impactos sociais de um desastre natural.
Além de contabilizar perdas materiais, a pesquisa buscou compreender como a tragédia alterou a vida das famílias, os padrões de moradia, trabalho, educação e qualidade de vida da população atingida.
Os números revelam que a destruição causada pelas chuvas ultrapassou os danos estruturais às cidades. Ela modificou a distribuição da população em diversas regiões do Estado e obrigou milhares de famílias a reconstruírem suas vidas em novos endereços, muitas vezes longe dos bairros onde viveram durante décadas.
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Ligação com a tragédia
Segundo o levantamento, 14,6% dos moradores dos 133 municípios pesquisados mudaram de residência após o desastre climático. Embora nem todas essas mudanças tenham sido motivadas exclusivamente pelas enchentes, a pesquisa mostra que quase quatro em cada dez pessoas que trocaram de endereço o fizeram em razão direta da tragédia.
Os dados também evidenciam que a mudança de moradia esteve fortemente associada aos danos estruturais provocados pelas águas. Entre todos aqueles que mudaram de endereço após o desastre, 71,6% viviam em imóveis que sofreram avarias.
Quando considerada apenas a parcela cuja mudança ocorreu por causa das enchentes, esse percentual sobe para 90,6%, demonstrando que a destruição das residências foi o principal fator para o deslocamento das famílias.
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Perfil econômico
Outro aspecto observado pelo IBGE é que a tragédia atingiu de forma mais intensa a população de menor renda.
Entre os moradores que precisaram mudar de endereço, 28,3% viviam em domicílios cuja renda mensal era de até R$ 2 mil, proporção superior à observada na distribuição da população total pesquisada. Para os pesquisadores, o dado indica que famílias economicamente mais vulneráveis tiveram maior dificuldade para permanecer em suas moradias ou reconstruí-las após as enchentes.
A pesquisa também demonstra que a destruição não ficou restrita às áreas tradicionalmente mais pobres.
Embora a incidência tenha sido maior entre famílias de baixa renda, imóveis de todas as classes sociais sofreram impactos. Mesmo entre domicílios com renda superior a R$ 10 mil mensais foram registrados danos estruturais, evidenciando que a dimensão do desastre ultrapassou diferenças econômicas.
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Mais de 2 milhões de imóveis nas áreas afetadas
Ao todo, o IBGE estima que 2,33 milhões de domicílios estavam localizados na área abrangida pela pesquisa. Destes, 53,2% apresentaram algum grau de dano estrutural provocado pelas enchentes. Em números absolutos, 81.272 casas foram classificadas como destruídas, enquanto 190.253 foram consideradas muito danificadas. Somadas, essas duas categorias representam 11,7% de todas as residências analisadas.
Mesmo onde as estruturas permaneceram em pé, os impactos foram expressivos. O levantamento mostra que 88% dos domicílios sofreram ao menos uma consequência relacionada às enchentes, fosse ela estrutural ou não. Já 68,7% registraram problemas nos bairros ou nas ruas próximas, como vias destruídas, acúmulo de lixo, interrupção do transporte coletivo e danos em pontes e rodovias.
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Impactos posteriores
Os transtornos vividos pelas famílias não se limitaram ao momento em que as águas atingiram as cidades. Em centenas de milhares de residências, o acesso foi completamente interrompido, obrigando moradores a abandonar temporariamente suas casas.
A pesquisa identificou que 726.358 domicílios tiveram pelo menos um morador que precisou passar uma noite ou mais fora de casa devido às enchentes, situação que corresponde a 31,2% das moradias pesquisadas.
Em muitos casos, o retorno sequer foi possível nos primeiros dias após a tragédia. Casas inundadas, risco de desabamento, isolamento por alagamentos e destruição das vias de acesso impediram milhares de famílias de voltar rapidamente para seus imóveis.
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Voluntários foram essenciais
O levantamento também dimensiona a dificuldade enfrentada durante os resgates durante a tragédia.
Em 652.107 domicílios, o acesso ficou totalmente comprometido pelas enchentes. Nessas situações, embarcações foram o principal meio utilizado para retirar moradores das áreas inundadas, respondendo por 70% das operações de salvamento.
Os voluntários tiveram papel predominante, participando de 74,9% dos resgates, percentual superior ao registrado pelos órgãos oficiais, como Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e Forças Armadas.