Há exatos dois anos, em 4 de maio de 2024, um sábado, a região vivia um dia inacreditável que se estendeu de forma angustiante naquele mês e até hoje causa calafrios em quem sofreu, literalmente, na pele, a inundação histórica do Rio Grande do Sul.
O caos da enchente do Rio dos Sinos, que se iniciou nos dias 1, 2 e 3, precedida pela cheia dos rios Taquari e Caí nos dias anteriores, teve a interdição de todas pontes sobre o Rio dos Sinos como um aviso. Na noite da sexta-feira, dia 3, a cheia começou a se transformar em uma inundação nunca antes vista.
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Foto: Fotos Paulo Pires/GES
E foi na madrugada do dia 4, há dois anos, que milhares de casas seriam inundadas em São Leopoldo, Novo Hamburgo e Canoas, além de outras cidades da região e da capital Porto Alegre, assustadoramente atingida pelo Guaíba. Todos sofreriam com uma catástrofe climática tragicamente histórica.
As lembranças daquele primeiro sábado de maio estão muito vivas na memória de diversos moradores que tiveram que deixar praticamente tudo para trás. Móveis, veículos, eletrodomésticos, eletrônicos, mantimentos, roupas, lembranças de uma vida como fotos e pertences ficaram para trás e afundaram nas águas da inundação.
A elevação do rio atingiu o ponto mais crítico na manhã do dia 4. Na medição em São Leopoldo se registrou mais de 8,1 metros às 5h30. O nível só baixaria dos 8m à noite.
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Pesadelo vivido em família
Deborah Siqueira Campos, 63 anos, viveu o pesadelo da inundação de maio de 2024 junto com a mãe Rosalina Tarouco, 91 anos. Moradora de São Leopoldo, Deborah contou que a casa da mãe ficou coberta por 2,2m de água durante 22 dias, e que a mãe precisou ficar três meses sem poder voltar. “Antes da água subir, o meu irmão levou a nossa mãe para Novo Hamburgo, e eu fiquei para levantar as coisas, quando o nível da água atingiu o muro, eu sai de casa. Fui a pé com os vizinhos até a esquina, onde tinha um barco de voluntários.”
De acordo com Deborah, na época ela morava no Centro, e ia cuidar da mãe, mas as águas também chegaram ao prédio onde morava. “Morava no primeiro andar e a água chegou no nível da garagem, ficou 1,26m, fiquei isolada no meu apartamento. Durante a semana eu vinha de barco para a casa da mãe para ver se ninguém tinha invadido e monitorar o nível da água.”
A moradora recordou que levaram 22 dias para as bombas retirarem a água e quando voltou para a casa da mãe, ainda tinha água nos tornozelos. “Aqui os parentes vieram nos ajudar a limpar a casa. Foi um mutirão de três dias para limpar o grosso e o que sobrou colocamos na garagem e passei semanas limpando.”
Deborah contou que a mãe perdeu praticamente tudo de dentro de casa e que recuperaram poucas coisas. Nenhuma parte do imóvel precisou ser reconstruída, porém tem partes que precisam ser arrumadas. “Perdeu roupas, cobertas, móveis e louças, só a geladeira e o fogão que foi possível recuperar. Mas recebemos ajuda e doações de vizinhos, ganhamos água, cobertas, roupas e cestas básicas.”
Lembranças e problemas

Foto: Eduardo Zanotti/Especial
Adriana Schiel, 60 anos, lembra do pesadelo (e da altura que água chegou em sua residência) que a deixou dois meses e meio fora de casa no bairro Rio dos Sinos, em São Leopoldo. No pátio, de duas casas, a água atingiu 1,8m em uma e 1,5m na outra. Adriana disse, que em primeiro momento foi para a casa do irmão, em Ivoti, mas depois conseguiu um apartamento emprestado com um amigo. “Estou retomando a vida até hoje. Tem muita coisa para arrumar ainda. Mas devagar estamos indo”, explica.
Conforme Adriana, foi necessário reconstruir o assoalho da casa, que tem 70 anos, e algumas tábuas precisaram ser trocadas. “A piscina saiu do lugar, até hoje estou lidando com problemas de vazamentos. Também tem algumas rachaduras, mas tudo com o tempo dá para arrumar.”
Segundo Adriana, a família perdeu muita coisa – todos os móveis se perderam pois eram de MDF, e as fotos que tentou recuperar, mas ficaram muito danificadas. “Nos anos 1960, a água subiu uns 22 centímetros, então achamos que seria a mesma coisa, mas foi muito pior”.
O trauma da enchente ainda é forte na família. “A minha mãe tem 85 anos, faz trabalhos manuais e perdeu tudo, até hoje ela chora quando lembra.”
Adriana recordou, ainda, que precisou de muita ajuda dos amigos para limpar a casa. “Quando a gente conseguiu voltar, entramos com um pouco de água ainda, que usamos para tirar o barro da casa. Estávamos sem luz, então fomos atrás de um gerador, aí conseguimos usar o lava jato. Levamos de duas a três semanas para terminar.”
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“Pensei que iria voltar logo”

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial
“Foi um pesadelo, um verdadeiro filme de terror”, recorda Genessi Izidra da Roza Oliveira, moradora da Rua das Palmeiras, bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo. A aposentada que mora há 17 anos na mesma casa diz que saiu de lá na manhã do dia 3 de maio, quando o bairro foi evacuado. “Passei a noite inteira acordada, a água já estava passando por cima do dique e ficamos apavorados. Foi terrível.”
Ao deixar a residência, tentou erguer alguns móveis do quarto, sala e da cozinha planejada recém-reformada. “Pensei que voltaria logo. Em junho de 2023, tinha entrado 30 cm de água dentro de casa.” Apesar da positividade, foram mais de 30 dias fora do lar. “Fui acolhida por familiares em um bairro mais alto em Novo Hamburgo.”
Emocionada, diz que teve sorte de a estrutura de sua casa não ter sido danificada. “Graças a Deus, fui abençoada.” Afinal, o imóvel ficou completamente submerso. “Os barcos passavam por cima das casas.”
Depois, quando a água finalmente baixou, o desespero seguiu presente. “Todos os dias que vinha aqui, pensava em virar as costas e ir embora. Era uma carniça, uma lama.” Dona Genessi reforça que o que deu forças foi a ajuda da população. “O brasileiro é um povo muito bom. Recebemos ajuda de todos os cantos, já que na vizinhança não podíamos ajudar ninguém, estávamos todos na mesma situação”, completa.
“Nunca imaginamos que poderia acontecer algo assim”

Foto: Juliano Piasentin/GES-Especial
Outra moradora do Santo Afonso, Izete de Souza, é proprietária de uma padaria na Rua Punta Arenas. “Eu e o meu marido temos o comércio há 30 anos e nunca imaginamos que poderia acontecer algo assim.”
Quando a chuva começou, eles imaginavam que seriam alagamentos de rotina. “Pensamos que não viria [a água do Rio dos Sinos], mas quando vimos, não dava para tirar mais nada.” Na padaria, não sobrou nada. “As memórias são horríveis. Nossa casa também foi atingida, ficou submersa, assim como o comércio.”
A família deixou o bairro no dia 3 de maio e só voltou para avaliar os estragos mais de 30 dias depois. “A vontade era de fechar e sumir. Imagina, ficaram 50 sacos de farinha mais de um mês embaixo da água. Quando entramos, o cheiro era horrível, tudo fermentado.”
Hoje, dois anos após a catástrofe, diz que não sabe como conseguiram vencer os desafios. “Investimos primeiro na reforma da padaria, que levou dois meses. Para nossa casa, conseguimos voltar mais de um ano depois.”
Sobre a previsão de um novo El Niño, diz que fica mais tranquila por observar as obras efetuadas pelo município no bairro, como o desassoreamento de arroios e a reconstrução do dique. “Esperamos que não aconteça de novo”, finaliza.
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“Medo que tudo aconteça novamente”

Foto: Paulo Pires/GES
Em Canoas, a proprietária de uma loja de calçados no bairro Mathias Velho, Michele Pacheco, 40 anos, reflete sobre a resiliência humana diante da adversidade. Emocionada ao relembrar a maior tragédia climática do município, a ex-moradora do Mathias Velho é categórica ao mencionar o episódio: “foi o povo pelo povo”, lembrando que no momento inicial foram os voluntários que se juntaram as comunidades que resgataram os moradores dos bairros inundados.
No dia 4 de maio de 2024, Michele e a família foram resgatados de barco por voluntários. Para a comerciante, o momento mais marcante foi durante o trajeto, quando o barco, com cerca de dez pessoas, bateu em uma árvore e quase virou.
“O barco estava cheio porque não tinha nenhum outro meio de resgate. Não tinha ninguém da Defesa Civil para ajudar. Quando batemos na árvore, foi terrível. Balançou demais. Estava com toda a minha família [marido, filhos, mãe e irmãs].Pensei que pudéssemos morrer ali. Foram momentos de terror. O alívio só veio quando chegamos em solo firme.”
A enchente resultou em um prejuízo de 250 mil reais, com a perda total do estoque na loja. A água permaneceu por 30 dias em diversas ruas do Mathias Velho.
“Quando retornamos, o cenário era de guerra, com lama, barro e um odor horrível que persistiu por meses. Era uma visão desoladora. Passamos 20 anos construindo para a água vir e levar tudo em questão de segundos.”
Michele conta que o processo de limpeza e organização levou cerca de dois meses. “Foi um “trabalho de formiguinha” para tentar reerguer o negócio. A reabertura ocorreu alguns meses depois. Foi um recomeço literalmente do zero.”
Dois anos depois, a reconstrução ainda está em processo. A loja não atingiu 100% dos padrões anteriores à enchente, e o trabalho de formiguinha continua, com a necessidade de arrumar o outro lado do estabelecimento e lidar com as contas.
“O bairro Mathias Velho mudou drasticamente. Está com muitos imóveis para alugar ou vender. Parece quase um bairro abandonado. O comércio local está retraído. O movimento das vendas caiu significativamente. Muitos clientes se mudaram.”
Diante das incertezas e do medo de uma nova enchente, Michele cogita a ideia de sair do bairro e se mudar para outra área de Canoas que não tenha sido atingida.
“O sentimento de medo de que tudo aconteça novamente é constante. Qualquer chuva forte reacende a preocupação”, finaliza.
Lembrando daqueles primeiros dias de maio de 2024

Foto: Fernando Gusmão/Arquivo-GES
De 27 a 30 de abril, o Estado foi vivendo sob alertas para tempestades (com chuvas ultrapassando acumulados de 100 a 200mm) que eclodiram no início de maio. O Vale do Caí foi o primeiro a ser castigado aqui na região, enquanto o do Taquari já vivia situação caótica com deslizamentos e inundações que afetariam dezenas de municípios.
No feriado de 1.º de maio, uma quarta-feira chuvosa e de muitos alagamentos, o governador Eduardo Leite faz o dramático alerta climático: “deverá ser o maior desastre do nosso Estado”. Em 2 de maio, quinta-feira, Canoas começa a evacuar o bairro Mato Grande. Chove muito na Serra e Norte gaúcho. O Estado pede ajuda. Lula anuncia reforço das Forças Armadas. Cidades ficam isoladas pela alta dos rios Caí e Sinos e já há muitos desalojados na região. Leite decreta estado de calamidade pública. O Rio Taquari chega a 31 metros em Lajeado.
Em 3 de maio, sexta-feira, Canoas determina a evacuação do Mathias Velho, Harmonia, Central Park e Cinco Colônias. Aeroporto Salgado Filho e Trensurb suspendem operações. Com o nível do Sinos acima de 7 metros (5m acima do normal) na medição de São Leopoldo, o tráfego nas pontes da BR-116 é bloqueado, assim como na Ponte (de ferro) 25 de Julho; o mesmo ocorreria depois com as outras duas pontes. Com o Sinos já próximo dos 8 metros, as águas ultrapassam o sistema de diques e começam a inundar bairros em São Leopoldo e Novo Hamburgo. Há relatos de rompimentos do dique nos bairros leopoldenses Vicentina, São Miguel, Campina e Rio dos Sinos, o que afetaria até a Scharlau e Santos Dumont e, no lado hamburguense, o Santo Afonso.
No dia 4 de maio, sábado, o caos se instala a partir da dramática madrugada, com casas e prédios sendo inundados e luz sendo cortada. A Vila Palmeira, em Novo Hamburgo, é evacuada. Em São Leopoldo, moradores fogem para a BR-116 e outros pontos mais altos. O rompimento de diques inunda parte de São Leopoldo (inclusive o Centro) e áreas no limite com Novo Hamburgo. Pessoas ficam ilhadas no bairro Mathias Velho, em Canoas. O Guaíba, a 5,16m, inunda parte de Porto Alegre.
No dia 5 de maio, domingo, o sol aparece e o cenário é de incredulidade e de resgates. Os rios do Sinos e Caí param de subir, mas o Guaíba, em Porto Alegre ainda recebe as águas. Em Canoas (a foto da capa do ABC acima), a água avança sobre 60% do município. As cidades estão ilhadas; rodovias inundadas. No dia 7 de maio, o Dnit começaria um incrível aterro (uma típica “estrada de chão”) de quase dois metros de altura sobre o asfalto da BR-116 para tentar liberar o trânsito no dia 9. O mês de maio seria de espera da baixa das águas para a volta gradual ao lar, a limpeza, o anúncio de medidas de auxílio e, ainda, sob a incerteza e o medo com o clima instável.
O RS contabilizou naqueles dias 185 óbitos (e 23 desaparecidos), 478 cidades afetadas (95 com situação de calamidade pública reconhecida pelo Estado) e um total de mais de 2,1 milhões de pessoas atingidas, sendo que mais de 81 mil tiveram que viver vários dias em abrigos. A população atingida nas três principais cidades da nossa região foi de 12,8% em Novo Hamburgo (29,1 mil pessoas), 41,6% em São Leopoldo (90,3 mil) e 45,4% em Canoas (157,8 mil) – percentual só superado na região metropolitana – é claro que com número de habitantes bem menor – por Eldorado do Sul, que teve 82,2% (32,5 mil) da população atingida.
*Material redigido por: Guilherme Schmidt, Eduardo Zanotti, Juliano Piasentin e Taís Forgearini