Cientistas acompanham de perto as mudanças no Pacífico Equatorial para entender o El Niño que se aproxima, inclusive antecipado, em 2026. De acordo com a meteorologista da MetSul Estael Sias, dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos, mostram anomalias térmicas que chegam a 8°C em grandes áreas oceânicas profundas.
Essa temperatura anormal está concentrada em uma gigantesca Onda Kelvin, descrita como “monstruosa” pela meteorologista, que se trata de uma massa de água mais quente que se desloca do Oeste para Leste, em direção à América do Sul, ao longo da faixa equatorial.
Segundo ela, esse aquecimento extraordinário ocorre em níveis raramente observados na história moderna, prenunciado um El Niño forte.
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Foto: Nasa/MetSul
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Grandes pulsos de calor submerso
O que se observa atualmente é “um sinal clássico e importante da formação de El Niño”. “Ondas Kelvin oceânicas funcionam como grandes pulsos de calor submerso. Elas transportam energia térmica acumulada no Pacífico Oeste em direção às águas próximas da América do Sul, favorecendo o aquecimento progressivo da superfície do mar.”
Segundo Estael, quando essa “piscina” de água superaquecida atinge o Pacífico Leste, a temperatura da superfície aumenta de forma significativa, o que “altera os padrões atmosféricos globais e fortalece a configuração típica de El Niño, com impactos em diversos continentes”.
Atual onda quente monstruosa foi formada em março
Os cientistas observam uma ligação clara entre o processo atual e rajadas intensas provocadas em função do Estouro de Vento de Oeste – chamadas de Westerly Wind Bursts (WWBs) – que ajuda a empurrar águas quentes para Leste e reforça a formação das Ondas Kelvin.
Foi justamente esse fenômeno que, em março, formou a atual Onda Kelvin monstruosa que deve alcançar o Pacífico Leste nas próximas semanas, ampliando ainda mais o aquecimento oceânico.
“Essa reserva de calor está entre 100 e 250 metros de profundidade, funcionando como uma poderosa fonte de energia térmica que deverá emergir na superfície nas próximas semanas, reforçando demais o aquecimento oceânico.”
Ela explica que, com a subida desse calor oceânico à superfície, deve formar rapidamente a chamada “língua de águas quentes”, marca clássica de episódios de El Niño.

Foto: NOAA
Sucessão de ondas quentes preocupa
A meteorologista pontua que, além desta que está em curso, dados já começam a mostrar sinais de mais uma Onda Kelvin, impulsionada por outro intenso episódio de vento de Oeste em abril, sendo esta a quarta grande onda deste processo climático em evolução.
“A sucessão de ondas quentes no Pacífico abaixo da superfície do mar é particularmente preocupante porque demonstra persistência e crescente intensidade. Cada nova Onda Kelvin injeta mais calor no sistema oceânico-atmosférico, aumentando a probabilidade de um El Niño forte ou até histórico”, explica Estael.
El Niño mais cedo
O atual padrão já é suficiente para encerrar a La Niña – fenômeno oposto ao El Niño – do ano passado, migrando para neutralidade. No entanto, há rápido avanço para “uma fase quente cada vez mais robusta”. O novo episódio deve ser sentido ainda neste outono, o que foge dos padrões históricos, já que, normalmente, o El Niño se instala entre o fim do inverno e o começo da primavera.
“O volume de calor abaixo da superfície é um dos indicadores mais confiáveis da força futura do fenômeno. Quanto maior essa reserva térmica, maior o potencial de aquecimento superficial nos meses seguintes e de um El Niño forte a intenso.”
Um fenômeno plenamente estabelecido no inverno, muito antes do padrão climatológico habitual, indicia que o pico tende a ocorrer no último trimestre do ano, entre primavera e começo do verão, podendo configurar um evento de grande impacto climático global.