A quarta-feira (17) iniciou com restrição dos atendimentos eletivos no Hospital Universitário (HU), em Canoas. O anúncio de um cronograma de pagamentos feito pela Prefeitura, às vésperas da paralisação, não foi suficiente para impedir a suspensão de procedimentos e serviços de saúde sem urgência ou emergência no local.

Foto: Paulo Pires/GES
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Na noite da última terça-feira (16), o prefeito Airton Souza informou o repasse, até dia 25 de setembro, de R$ 2,6 milhões para os pagamentos em atraso dos médicos que atuam no HU. No entanto, a medida foi classificada como insuficiente pela categoria.
“Em primeiro lugar, temos a promessa de pagamento, mas esse grupo de médicos historicamente já recebeu inúmeras promessas de pagamento não executadas. Em segundo lugar, a questão financeira não é a única causa da restrição, temos questões do ponto de vista técnico que tornam o exercício da medicina perigoso no hospital para médicos e pacientes. A restrição dos atendimentos não é uma escolha, mas uma consequência inevitável da falta de condições financeiras e estruturais.”, explica o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Marcelo Matias.
O sindicato afirma que os médicos optaram pela restrição dos atendimentos devido a uma série de dificuldades enfrentadas, entre elas: sobrecarga de trabalho, falta de insumos, equipamentos inoperantes, escalas de médicos incompletas devido à recusa de profissionais em trabalhar no hospital e insegurança em relação aos pagamentos e rescisões.
“Os médicos, mesmo sabendo do potencial de receber os seus recursos, optaram por manter a restrição para justamente buscar melhorias de condições de trabalho e atendimento à população. Os médicos não estão pensando apenas em si, eles querem que haja condições seguras para exercer a profissão.”
O presidente afirma que os problemas vão além da quitação de salários e rescisões.
“Reconhecemos o movimento da Prefeitura em tentar angariar recursos para efetuar os pagamentos, mas não muda o fato de que os problemas são muito maiores. É de conhecimento público a ausência de escalas de médicos completas. Tem sido impossível convencer os profissionais a vir trabalhar sem ter a certeza que terão condições de trabalho e que irão receber”, pontua Matias.
Pacientes internados e atendimentos classificados como de emergência e/ou urgência estão mantidos no hospital. No entanto, quem procurou atendimento ambulatorial ou tinha consulta, exame ou cirurgia marcada teve o procedimento eletivo suspenso.
“As restrições abrangem, primordialmente, os ambulatórios. Por exemplo, o centro obstétrico está com restrições de consultas que não são de emergência, pois deveriam ser atendidas pela Atenção Básica de Saúde. Considerando que faltam anestesistas no hospital, só serão executadas cirurgias de pacientes já internados, especialmente as mais urgentes, que representam risco de morte.”
Sem atendimento
Na fila de espera há 5 anos, Terezinha D’Ávila, 63 anos, realizaria uma cirurgia de tendão do braço nesta quarta-feira. Diante da restrição dos atendimentos eletivos, a moradora de Montenegro precisou retornar para o município sem a realização do procedimento.

Foto: Paulo Pires/GES
“O sentimento é de frustração. O hospital não deu previsão nenhuma. Fui informada de que não tinha como fazer a cirurgia porque ‘estava tudo um caos pelas más escolhas’. Eles cancelaram uma porção de cirurgias marcadas. Várias pessoas tiveram os procedimentos suspensos. Parece que não temos valor nenhum”, lamenta a aposentada.
Com um cisto no braço, Irene Raguse, 71, não conseguiu encaminhamento para cirurgia no hospital.
“Fui informada no hospital que não tinha como fazer todos os exames que preciso para ser encaminhada para uma cirurgia. Vim de Capela de Santana para voltar para casa sem uma solução ou previsão. Estou chateada. Faltei ao trabalho para ser atendida e não consegui”, descreve a costureira.
Sem expectativa de atendimento, a idosa revela preocupação com a saúde. “Tenho medo de que a situação piore.”
O que diz a Prefeitura
Por meio de nota, a Prefeitura de Canoas afirma que não foi informada com precisão acerca dos serviços com restrição no HU. A Secretaria Municipal de Saúde diz que recebeu com preocupação as informações sobre as condições de trabalho dos profissionais no hospital.
“A Prefeitura de Canoas, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, informa que está em constante e permanente diálogo com as entidades de classe na área da saúde, tem recebido as demandas e preocupações dos médicos que atuam no Hospital Universitário (HU) e já se comprometeu em realizar o pagamento de valores em atraso com a Associação Saúde em Movimento (ASM), empresa gestora do HU, para que estes profissionais sejam pagos pelos serviços prestados no hospital.
No final da tarde de terça-feira (16), a administração municipal informou ao Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) que, ainda na terça, já haviam sido depositados R$ 720 mil para a ASM, para a realização destes pagamentos. Nesta quarta-feira (17), serão depositados mais R$ 600 mil para o mesmo fim, e, no dia 25 de setembro, a Prefeitura repassará mais R$ 1,3 milhão.
A Prefeitura também está em contato permanente com a gestora do Hospital Universitário, Associação Saúde em Movimento (ASM), para que os problemas apontados pelos médicos sejam solucionados e o atendimento integral da população seja retomado no HU”, diz o comunicado.