abc+

HABITAÇÃO

Como está a retirada das famílias das áreas de risco em Canoas

Casas na Rua da Mata são demolidas para o avanço das obras no Dique Mato Grande

Publicado em: 09/06/2026 às 15h:36 Última atualização: 09/06/2026 às 15h:36
Publicidade

O alteamento do dique vem vindo e quem está no caminho precisa sair. No traçado da estrutura que promete proteger o bairro Mato Grande está a casa da dona Zelair dos Santos Terterola, 74 anos. Muitos vizinhos já foram embora, enquanto a aposentada aguarda o futuro.

Publicidade

FAÇA PARTE DA COMUNIDADE DO DIÁRIO DE CANOAS NO WHATSAPP

A aposentada Zelair dos Santos Terterola, 74 anos, ainda mora na Rua da Mata, em cima do Dique Mato Grande | abc+



A aposentada Zelair dos Santos Terterola, 74 anos, ainda mora na Rua da Mata, em cima do Dique Mato Grande

Foto: Paulo Pires/GES

As casas na Rua da Mata não têm mais teto, porta e janelas, restando somente as paredes – umas de madeira, outras de tijolos e algumas até coloridas. Cerca de 45 moradias que estão em cima do dique devem vir abaixo para a estrutura subir, segundo o cálculo da Prefeitura de Canoas.

Uma delas é a da dona Zelair. “Vieram aqui e disseram que iam ajudar. Tiraram tudo. Os vizinhos já se mudaram. É triste. A gente veio para cá sabendo que o terreno não é nosso, mas sofremos para ter essa casa”, comenta.

A estrutura simples fica numa rua de terra e na frente de um valão. Nos fundos passa o Arroio Araçá. Ali, a aposentada mora com o marido, filho e um neto e todos esperam uma definição. “A Habitação veio cerca de um mês atrás. A gente está esperando porque sempre falam que vão tirar a gente daqui e nunca tiram”, relata.

Publicidade

A poucos metros dali é possível subir num barranco e ver o dique chegando. O sistema de proteção do bairro Mato Grande está 48,6% concluído, conforme a plataforma Monitora Canoas. A medição foi atualizada em maio. A previsão de término da obra é agosto de 2027.

Dique da Araçá/Mato Grande passa por alteamento a poucos metros da casa da dona Zelair | abc+



Dique da Araçá/Mato Grande passa por alteamento a poucos metros da casa da dona Zelair

Foto: Paulo Pires/GES

LEIA MAIS: Trégua rápida antecipa volta da chuva no RS influenciada por ciclone; saiba mais

Publicidade

Para onde vai a dona Zelair

No final de maio, a Secretaria Municipal de Habitação e Regularização Fundiária (SMHRF) iniciou a demolição dos imóveis localizados na Rua da Mata. A ação é considerada necessária para o andamento das obras do dique do Mato Grande.

Mas essa movimentação não é de agora. Desde setembro de 2024, pós-enchente, 124 famílias que residem na rua foram listadas para terem a habitação removida para a obra do dique, consequentemente sendo realocadas em outras residências.

Publicidade

Por isso, a dona Zelair viu seus vizinhos saírem um por um nos últimos tempos. Das 17 famílias que ainda moravam na rua, dez foram contemplados no Compra Assistida, segundo informações atualizadas nesta terça-feira (9) pela secretaria.

“Cinco famílias foram direcionadas para empreendimentos do Programa Minha Casa Minha Vida – Reconstrução. Até a conclusão das obras e a entrega das unidades habitacionais, essas famílias permanecem como beneficiárias do auxílio-aluguel”, informa a nota.



Publicidade

Outras duas famílias também foram incluídas no programa municipal do Aluguel Social enquanto aguardam por uma moradia definitiva. O benefício pago mensalmente é de R$ 1 mil. Todas elas já tiveram, ou terão, suas antigas residências demolidas na Rua da Mata.

Esse deve ser o destino da família da dona Zelair, segundo a Secretaria de Habitação. Uma equipe da pasta esteve na Rua da Mata no final de maio e constatou a situação da aposentada.

“Em razão da idade dos beneficiários, não há enquadramento nos critérios exigidos para financiamento imobiliário, o que tem dificultado a concretização da solução habitacional definitiva”, esclarece.

A questão é ainda mais delicada porque dona Zelair e o marido possuem problemas de saúde. “Eu falei que não posso subir escada porque tenho bolsa de colostomia, meu marido também. Para nós tem que ser térreo”, observa a moradora. As necessidades da família são de conhecimento da secretaria.

Em nota enviada nesta terça-feira, a pasta informou que o benefício do Aluguel Social já foi autorizado junto a Secretaria Municipal de Assistência Social. Agora, resta a apresentação e formalização do contrato de locação do imóvel para encerrar o processo de reassentamento.

FIQUE POR DENTRO: Roubo acaba em luta entre três mulheres e um assaltante em Canoas; confira o vídeo

Situação das casas no Dique Araçá é caso na Justiça desde 2012

A família da aposentada Zelair dos Santos mora na Rua da Mata desde 2010. A região do dique registrou um aumento da ocupação entre 2002 e 2010. A área chegou a contabilizar 155 famílias como residentes na área de risco.

As informações constam na Ação Civil Pública Cível, julgada na 4ª Vara Cível da Comarca de Canoas. O processo foi aberto pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), em 2012, quase 15 anos atrás. Isso significa que a ocupação na área de risco é uma questão antiga.

Rua da Mata fica em cima do Dique da Araçá/Mato Grande | abc+



Rua da Mata fica em cima do Dique da Araçá/Mato Grande

Foto: Paulo Pires/GES

A preocupação era justamente com a possibilidade de inundações e desabamentos, além do dano ambiental causado pela poluição hídrica e do solo. O valão que passa entre a Rua da Mata e o terreno de um supermercado, por exemplo, acumula lixo, entulho e móveis descartados.

“O perito nomeado pelo juízo foi categórico ao afirmar que, à época da vistoria em novembro de 2014, existiam sobre o dique de proteção do pôlder Araçá diversas moradias, infraestrutura urbana, visível na forma de eletrificação, fornecimento de água, arruamento, além de grande número de espécies arbóreas, presentes ao longo de toda a sua extensão”, diz o processo.

Por isso, a ação pede que o Município de Canoas cumpra uma série de ações para que a área seja definitivamente desocupada em conjunto com o assentamento das famílias em um novo endereço. Além disso, determina fiscalização e reparo do terreno degradado.

A decisão só veio no início do ano. O pedido do MPRS foi aceito pelo juiz Alexandre Del Gaudio Fonseca em janeiro de 2026.

SIGA O ABC+ NO GOOGLE NOTÍCIAS!

Mais moradores realocados

Os canoenses que moram na Rua da Mata não os únicos a serem realocados para novos endereços, longe das áreas de risco. Ainda no dique do Mato Grande, por exemplo, nove residências foram contabilizadas pela Diretoria de Habitação.

As famílias que moram no terreno chamado de dique do canil, entre a BR-448 e a Rua Curitiba, sem número, já foram incluídos em programas habitacionais. O processo na secretaria começou em 2024, após a enchente.

Próximo à Vala da Madrinha, na Casa de Bombas nº4, a secretaria elencou mais 11 moradias. As famílias também foram encaminhadas para o Aluguel Social e o Compra Assistida ainda no ano passado.

Moradores da Rua da Mata estão sendo incluídos em programas habitacionais para desocupação da área | abc+



Moradores da Rua da Mata estão sendo incluídos em programas habitacionais para desocupação da área

Foto: Paulo Pires/GES

O processo também ocorre com os moradores próximos ao dique da Mathias Velho. As 110 famílias que moram na Rua Dique receberam orientação para serem incluídas nos programas habitacionais.

Em novembro do ano passado, 41 residências já desocupadas em definitivo foram demolidas no local. O acompanhamento segue sendo feito para saber se famílias já conseguiram sair para que as obras continuem.

De acordo com a Secretaria de Habitação, existe um trabalho coletivo entre a Procuradoria-Geral do Município (PGM) e as secretarias de Desenvolvimento Urbano (SMDU), Obras e Reconstrução (SMOR) e Projetos e Captação de Recursos (SMPCR).

As pastas atuam em conjunto no reassentamento das famílias que moram nesses locais vulneráveis. “À medida que os moradores desocupam os imóveis, as edificações são removidas, evitando a reocupação das áreas e garantindo a continuidade das intervenções previstas”, afirma.

VEJA TAMBÉM: Horta comunitária é inaugurada no Restaurante Popular do Mathias Velho

Como está o andamento das obras de proteção contra as cheias

Dique Rio Branco – trecho 2 (Av. Guilherme Schell até Rua Henrique Dias)
Porcentagem: 0,23% – medição 12/05

Dique Rio Branco – trecho 3 (margem da BR-448)
Porcentagem: 59,75% – medição 14/05

Dique Mato Grande
Porcentagem: 48,66% – medição 12/05

Dique Mathias Velho
Porcentagem: 49,61% – medição 12/05

Dique Niterói
Porcentagem: 83,80% – medição 16/03

Dique São Luís
Integra obra na bacia do Rio dos Sinos – obra do governo estadual
Atualização do anteprojeto até dezembro de 2027

Publicidade