A onda crescente de casos de violência doméstica pelo Estado, que já registra, somente em janeiro, 10 ocorrências de feminicídios, coloca em alerta autoridades de segurança de todo o Rio Grande do Sul.

Foto: Eduardo Zanotti/Especial/ARQUIVO
Em São Leopoldo, embora não tenham sido observados casos ainda este ano, as ações têm sido intensificadas. Além disso, o número de solicitações de Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) aumentou em comparação com o início do ano passado – o que pode indicar maior busca por ajuda.
ENTRE NA COMUNIDADE DO JORNAL VS NO WHATSAPP E RECEBA MAIS NOTÍCIAS
De acordo com a titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de São Leopoldo, delegada Michele Arigony, em janeiro de 2025, foram 102 solicitações de MPUs. Já no atual mês de janeiro, 114 medidas já foram solicitadas – o que representa um aumento de 11,76%. “Mais mulheres estão procurando ajuda. Isso é positivo. Precisamos incentivar mais mulheres a denunciar e romper o ciclo de violência”, avalia.
No total, a Deam leopoldense também realizou 14 prisões por violência doméstica somente neste mês de janeiro. Uma delas refere-se ao autor de tentativa de feminicídio com incêndio, que colocou fogo na residência onde morava com a esposa, no dia 16 de janeiro. Ninguém se feriu no ataque.
Rede integrada
A delegada Michele destaca que São Leopoldo tem uma rede “muito fortalecida e integrada” de proteção à mulher, que conta, além da Deam, com representantes do Poder Judiciário, Ministério Público, Secretaria de Política para as Mulheres, Centro Jacobina, Brigada Militar (BM), Guarda Civil Municipal (GCM) e sociedade civil. “Temos reuniões mensais com todos os integrantes. Todos em conjunto discutindo ações, casos específicos e etc”, disse.
“Temos uma relação muito estreita com a Ronda Lilás (da GCM) e a Patrulha Maria da Penha (da BM), fazendo ações em conjunto quando necessário. Com o Poder Judiciário e Ministério Público também temos um ótimo retorno, com decisões rápidas em todas as representações por prisão de casos graves”, ponderou.
MAIS SOBRE O ASSUNTO: Ações da prefeitura levam orientações e conscientização contra a violência doméstica
“O trabalho é constante”
Michele ressalta que a Deam de São Leopoldo tem como prioridade o atendimento especializado às vítimas, “como forma de empoderar e incentivar as denúncias, evitando novas vítimas ou o agravamento da violência”.
“No ano passado, 94,5 % das mulheres que morreram não tinham MPU ativa e 74,3% não tinham nenhum registro de ocorrência anterior no RS. Esse é o maior desafio: alcançar as mulheres que sofrem violência e não procuram ajuda”, reforçou. “Nossa investigação é célere e qualificada, mas sabemos que não basta apenas a Polícia Civil intervir, a violência doméstica é multifatorial. Por isso destaco a importância de termos um trabalho integrado com toda rede de proteção à mulher de São Leopoldo, uma rede fortalecida é essencial para reduzir riscos e interromper ciclos de violência”, explicou. “Nesse ano não tivemos nenhum feminicídio, mas o trabalho é constante”, completou a delegada.
Ronda Lilás efetuou 7 prisões em janeiro
A GCM leopoldense atua com o apoio da Ronda Lilás, grupamento especializado responsável pelo acompanhamento e monitoramento de mulheres em situação de violência doméstica. Segundo a corporação, somente no mês de janeiro deste ano, 7 prisões por violência doméstica e descumprimento de MPUs já foram realizadas.
Duas delas ocorreram no último fim de semana. No sábado (24), um homem foi preso em flagrante por violência doméstica, lesão corporal e dano, no bairro Campina, depois que a sua companheira ligou sucessivas vezes para o número de emergência 153. “Ao retornar o contato, a atendente conseguiu falar com a vítima, que se mostrava bastante nervosa e relatou ter sido ameaçada pelo companheiro, além de informar que o portão da residência havia sido danificado. Durante o atendimento telefônico, o agressor, de 43 anos, retornou ao local e passou a agredir a vítima, situação percebida em tempo real pela atendente do telefone de emergência”, detalhou a GCM (veja vídeo no final da matéria).
Em poucos minutos, as equipes chegaram ao endereço informado. No local, o agressor foi flagrado próximo à vítima, que apresentava lesões na cabeça. Além das agressões, os agentes constataram diversos danos no interior da residência, com objetos destruídos e o telefone celular da vítima danificado. Conforme a Guarda, a vítima não possuía medida protetiva vigente.

Foto: Divulgação/GCM
LEIA TAMBÉM: MORTA POR SÍNDICO: O histórico de brigas que terminou no assassinato de corretora
Homem descumpre medida protetiva solicitada pela mãe
Na outra ocorrência, no domingo (25), um homem de 37 anos foi preso após descumprir MPU, em um condomínio no bairro São José. Ele acessou o pátio do local sem autorização, utilizando o portão destinado à entrada de veículos, e se dirigiu até o apartamento de sua mãe, de 62 anos, que possui medida contra o mesmo.
O suspeito foi localizado nas proximidades da caixa d’água do condomínio. Segundo relato dos agentes, o homem afirmou que, caso não fosse autorizado a entrar no apartamento, arrombaria a porta do imóvel, o que elevou o risco da situação.
Desde o início do ano até a terça-feira (27), a Ronda Lilás já realizou 531 visitas a mulheres e atendeu 48 medidas protetivas.
Patrulha Maria da Penha já fiscalizou 420 medidas este ano
Na Brigada Militar, o trabalho é realizado pela Patrulha Maria de Penha. Segundo o 25º Batalhão de Polícia Militar (25º BPM), só em janeiro de 2026 foram 43 vítimas de violência contra mulher cadastradas em São Leopoldo, 11 em Portão e 3 em Capela de Santana – cidades também abrangidas pelo batalhão. Também há 385 medidas protetivas ativas em São Leopoldo, além de 138 em Portão e 28 em Capela de Santana.
No total, 420 medidas foram fiscalizadas neste mês pela Patrulha, que realizou ainda seis prisões por violência doméstica.
Subcomandante do 25ºBPM, major Juliano Giboski, lembrou que em 2025 São Leopoldo teve queda nos índices se comparado ao ano anterior, registrando apenas um feminicídio. “Aqui em São Leopoldo nós temos duas equipes que trabalham especificamente com a Patrulha Maria da Penha. Elas têm a missão principal de fiscalizar as medidas protetivas que são garantidas às vítimas de violência doméstica e, caso necessário, intervir”, explica, salientando que a patrulha leopoldense recebeu homenagem do comando da BM no ano passado, como a patrulha mais atuante, que mais atendeu medias protetivas no Estado.
“É importante frisar que o crime de feminicídio é um delito muito complexo e bem difícil de se policiar preventivamente, poque acontece no âmbito do lar. Muitas vezes aquela vítima já vem sofrendo de forma velada, o que acaba evoluindo para o feminicídio. Então, nós trabalhamos bastante preventivamente com a Patrulha Maria da Penha, atendendo, verificando se as medidas protetivas vêm sendo cumpridas, para tentar evitar essa escalada de violência, que muitas vezes começa com um xingamento, evolui pra violência física e acaba com a violência fatal”, finaliza Giboski.
VEJA AINDA: “Maria da Penha é prioridade”: Brigada Militar intensifica visitas às vítimas de violência em Canoas
Como pedir ajuda
Além dos telefones 153, da GCM, e 190, da Brigada Militar, é possível denunciar através do 180 (Central de Atendimento à Mulher) e pelo Telefone Lilás:0800 541 0803. Em São Leopoldo, também é possível pedir ajuda no Centro Jacobina, pelos telefones: 3592-2184 e 3566-1777, das 8h às 14h, de segunda a sexta-feira; ou (51) 99788-3212, das 8h às 17h, de segunda a sexta. O local fica na Rua Brasil, 784, no Centro.
Já a Deam leopoldense fica na Rua São Paulo, 970, e atende de segunda a sexta, das 8h30 às 11h30 e das 13h30 às 17h30. Contatos podem ser feitos pelo telefone 3579-0447 ou WhatsApp (51) 98681-9992.
Veja vídeo da prisão em flagrante de homem por violência doméstica na Campina: