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ANÁLISE DE CENÁRIOS

Conflito no Oriente Médio e desaceleração nos EUA trazem impactos ao setor calçadista; veja projeções da Abicalçados

Quase 90% da produção de 2026 será voltada ao mercado interno; confira dados das exportações

Juliana Dias Nunes
Publicado em: 15/04/2026 às 14h:17 Última atualização: 15/04/2026 às 15h:23
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O conflito no Oriente Médio, a desaceleração do consumo nos Estados Unidos e nas exportações brasileiras para a Argentina, além do crescimento das importações de calçados em um contexto de estagnação da demanda interna estão entre os impactos na produção brasileira de calçados. 

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Priscila e Marcos no Análise de Cenários | abc+



Priscila e Marcos no Análise de Cenários

Foto: Divulgação

Os dados do setor calçadista foram apresentados nesta quarta-feira (15), por Priscila Linck, economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da Abicalçados; e Marcos Lélis, professor de pós-graduação na Unisinos e doutor em Economia. A dupla apresentou o cenário macroeconômico, além de dados da economia brasileira e, claro, detalhes do mercado calçadista brasileiro, incluindo as exportações.

Em 2025, a produção nacional de calçados caiu 1,9%, o que representou a soma de 847,5 milhões de pares. A produção em 2026, também começou o ano em queda. Somente em janeiro, os dados apontam para uma diminuição de 11,4%. No entanto, a Abicalçados estima que deva haver uma recuperação este ano, embora muito tímida, especialmente no segundo semestre.

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De acordo com Priscila, a projeção do ano aponta que a produção, em média, deva se manter estabilizada, em relação ao ano passado. O crescimento médio deve ser quase imperceptível, ficando em 0,1%. “Em um cenário pessimista teremos queda de -1,2% e em um cenário otimista, um incremento de 1,4%. Tudo depende do ritmo da retomada da economia no segundo semestre, os efeitos da economia internacional. e a possível retomada de embarques para os Estados Unidos.”

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Da produção brasileira calçadista em 2026, conforme a entidade, 88,5% deve ficar voltada ao mercado interno, enquanto apenas 11,5% destinada ao mercado das exportações.

O Análise de Cenários é um evento promovido pela Abicalçados duas vezes por ano, geralmente em abril e outubro. Nesta edição, os patrocinadores foram Sicredi (cota ESG), Kisafix e Sicoob (Prata). A parceria é do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o apoio é da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

Exportações

No ambiente externo, a queda nas exportações do setor em 2025 foi provocada, principalmente, pelo tarifaço de 50% aplicado pelos Estados Unidos aos calçados brasileiros no segundo semestre e pelo desaquecimento do consumo na Argentina, os dois principais destinos internacionais dos pares verde-amarelos.

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“No ano passado, exportamos cerca de 12% da nossa produção, coeficiente abaixo da média da última década. A queda no valor exportado foi de 1,8% no ano, e foi parcialmente sustentada pelo crescimento do primeiro semestre”, avalia a economista. Já no consumo doméstico, a queda foi de cerca de 2%.

Em 2026, os dados apontam para uma queda nas exportações do calçado brasileiro de, em média, 6,5%. “Teremos atenuação da queda na exportação, especialmente no segundo semestre do ano. Vamos diluir a queda, mas dificilmente reverter isso em crescimento”, explica a coordenadora de Inteligência de Mercado da Abicalçados.

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“Foram vários fatores que impactaram diferentes tipos de empresas e produtos, não tivemos alteração significativa na estrutura produtiva, todos caíram em algum nível. Entre os segmentos mais impactados estão têxtil e couro que não conseguiram aumentar a participação em detrimento dos demais e que tem predominância maior nas exportações, além dos calçados casuais e usais”, completa Priscila.

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Importações

Por outro lado, houve aumento das importações. Dados elaborados pela entidade, com base nos números da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), mostram que, no trimestre, as importações somaram 15 milhões de pares e US$ 164,9 milhões, incrementos tanto em volume (+16,9%) quanto em receita (+15,9%) em relação ao mesmo período de 2025.

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No recorte de março, foram embarcados 5,36 milhões de pares por US$ 55,6 milhões, altas de 7% e 23,8%, respectivamente, ante o mês três do ano passado. Nos últimos cinco anos, as importações do setor já acumulam alta de 90%, em volume. 

O presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, destaca que os números vêm preocupando a entidade. “Em um cenário pouco aquecido no consumo doméstico, o incremento das importações de sapatos, principalmente aquelas realizadas com prática de dumping – com valores artificialmente mais baixos do que os praticados no mercado interno de origem -, em especial provenientes da Ásia, se torna ainda mais preocupante”, ressalta.

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Economia brasileira

Em sua análise, Lélis abordou sobre o endividamento das famílias, que afeta também o consumo de calçados. “Em fevereiro, segundo o SPC/Serasa, 48% da população adulta estava inadimplente, ou seja, 3 meses já sem pagar dívidas, e não somente bancárias. E 80% se declararam endividadas. É um endividamento que disparou na pandemia e não parou. Tem que cair os juros pra cair o endividamento”, diz.

Sobre o conflito no Oriente Médio, o economista lembrou da alta no preço do petróleo e, por consequência, no diesel, e subsídios federais que tentam amenizar os danos. “O setor de alimentos ainda não sofreu problemas com o conflito e acredito que seja porque o câmbio segurou. Se o câmbio continuar assim, talvez continue compensando parte do aumento dos alimentos. O problema é se houver um desajuste cambial em meio à crise de petróleo”, observa.

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Estados Unidos

O “destarifaço”, trouxe alívio ao setor, que voltou a ter cobrança adicional de 10% nos envios aos Estados Unidos em fevereiro deste ano e não mais 50%, como havia sido estipulado por Trump em agosto de 2025.

“Tivemos um alívio pelo efeito da mudança na tarifa adicional, mas temos outro peso negativo, que é os Estados Unidos com desaceleração do consumo, que estão afetando as exportações daquele mercado. Além disso, o cenário ainda é norteado por muitas incertezas. Tem a questão do preço do petróleo e também quanto aos próximos passos da politica tarifária dos EUA, com riscos de novas tarifas”, frisa Priscila.

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