O conflito no Oriente Médio, a desaceleração do consumo nos Estados Unidos e nas exportações brasileiras para a Argentina, além do crescimento das importações de calçados em um contexto de estagnação da demanda interna estão entre os impactos na produção brasileira de calçados.

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Os dados do setor calçadista foram apresentados nesta quarta-feira (15), por Priscila Linck, economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da Abicalçados; e Marcos Lélis, professor de pós-graduação na Unisinos e doutor em Economia. A dupla apresentou o cenário macroeconômico, além de dados da economia brasileira e, claro, detalhes do mercado calçadista brasileiro, incluindo as exportações.
Em 2025, a produção nacional de calçados caiu 1,9%, o que representou a soma de 847,5 milhões de pares. A produção em 2026, também começou o ano em queda. Somente em janeiro, os dados apontam para uma diminuição de 11,4%. No entanto, a Abicalçados estima que deva haver uma recuperação este ano, embora muito tímida, especialmente no segundo semestre.
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De acordo com Priscila, a projeção do ano aponta que a produção, em média, deva se manter estabilizada, em relação ao ano passado. O crescimento médio deve ser quase imperceptível, ficando em 0,1%. “Em um cenário pessimista teremos queda de -1,2% e em um cenário otimista, um incremento de 1,4%. Tudo depende do ritmo da retomada da economia no segundo semestre, os efeitos da economia internacional. e a possível retomada de embarques para os Estados Unidos.”
Da produção brasileira calçadista em 2026, conforme a entidade, 88,5% deve ficar voltada ao mercado interno, enquanto apenas 11,5% destinada ao mercado das exportações.
O Análise de Cenários é um evento promovido pela Abicalçados duas vezes por ano, geralmente em abril e outubro. Nesta edição, os patrocinadores foram Sicredi (cota ESG), Kisafix e Sicoob (Prata). A parceria é do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o apoio é da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
Exportações
No ambiente externo, a queda nas exportações do setor em 2025 foi provocada, principalmente, pelo tarifaço de 50% aplicado pelos Estados Unidos aos calçados brasileiros no segundo semestre e pelo desaquecimento do consumo na Argentina, os dois principais destinos internacionais dos pares verde-amarelos.
“No ano passado, exportamos cerca de 12% da nossa produção, coeficiente abaixo da média da última década. A queda no valor exportado foi de 1,8% no ano, e foi parcialmente sustentada pelo crescimento do primeiro semestre”, avalia a economista. Já no consumo doméstico, a queda foi de cerca de 2%.
Em 2026, os dados apontam para uma queda nas exportações do calçado brasileiro de, em média, 6,5%. “Teremos atenuação da queda na exportação, especialmente no segundo semestre do ano. Vamos diluir a queda, mas dificilmente reverter isso em crescimento”, explica a coordenadora de Inteligência de Mercado da Abicalçados.
“Foram vários fatores que impactaram diferentes tipos de empresas e produtos, não tivemos alteração significativa na estrutura produtiva, todos caíram em algum nível. Entre os segmentos mais impactados estão têxtil e couro que não conseguiram aumentar a participação em detrimento dos demais e que tem predominância maior nas exportações, além dos calçados casuais e usais”, completa Priscila.
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Importações
No recorte de março, foram embarcados 5,36 milhões de pares por US$ 55,6 milhões, altas de 7% e 23,8%, respectivamente, ante o mês três do ano passado. Nos últimos cinco anos, as importações do setor já acumulam alta de 90%, em volume.
O presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, destaca que os números vêm preocupando a entidade. “Em um cenário pouco aquecido no consumo doméstico, o incremento das importações de sapatos, principalmente aquelas realizadas com prática de dumping – com valores artificialmente mais baixos do que os praticados no mercado interno de origem -, em especial provenientes da Ásia, se torna ainda mais preocupante”, ressalta.
Economia brasileira
Em sua análise, Lélis abordou sobre o endividamento das famílias, que afeta também o consumo de calçados. “Em fevereiro, segundo o SPC/Serasa, 48% da população adulta estava inadimplente, ou seja, 3 meses já sem pagar dívidas, e não somente bancárias. E 80% se declararam endividadas. É um endividamento que disparou na pandemia e não parou. Tem que cair os juros pra cair o endividamento”, diz.
Sobre o conflito no Oriente Médio, o economista lembrou da alta no preço do petróleo e, por consequência, no diesel, e subsídios federais que tentam amenizar os danos. “O setor de alimentos ainda não sofreu problemas com o conflito e acredito que seja porque o câmbio segurou. Se o câmbio continuar assim, talvez continue compensando parte do aumento dos alimentos. O problema é se houver um desajuste cambial em meio à crise de petróleo”, observa.
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Estados Unidos
O “destarifaço”, trouxe alívio ao setor, que voltou a ter cobrança adicional de 10% nos envios aos Estados Unidos em fevereiro deste ano e não mais 50%, como havia sido estipulado por Trump em agosto de 2025.
“Tivemos um alívio pelo efeito da mudança na tarifa adicional, mas temos outro peso negativo, que é os Estados Unidos com desaceleração do consumo, que estão afetando as exportações daquele mercado. Além disso, o cenário ainda é norteado por muitas incertezas. Tem a questão do preço do petróleo e também quanto aos próximos passos da politica tarifária dos EUA, com riscos de novas tarifas”, frisa Priscila.