“Só quero que parem de nos incomodar.” É o que clama Cinara Brito, tia da jovem Kauany Martins Kosmalski, de 18 anos, assassinada junto com seu bebê de 2 meses, Miguel, e o amigo dela, Ariel Silva da Rosa, 16.
Eles foram mortos pelo religioso Jocemar Antunes de Almeida, 45, sua esposa Belisia de Fátima da Silva, 41, e mais dois adolescentes que moravam com o casal – um deles, em uma nova versão, é acusado de ser o mentor intelectual do crime que chocou o Estado nesta semana.
Cinara, que optou por não aparecer em imagens, mas aceitou participar da reportagem, reclama que tem recebido mensagens ofensivas nas redes sociais a respeito do caso. “Tem gente ‘caindo de pau’ em cima da gente, dizendo que a gente não cuidou. Mas como é que a gente ia evitar? Eles não sabem da vida da pessoa”, desabafa.
De acordo com Cinara, que afirmou ser a tutora de Kauany, a vítima morava com a tia e a prima Bruna Brito. A convivência com Antunes não era um segredo para a família, mas algumas informações as pegaram de surpresa, como a relação mais íntima entre os dois.
No entanto, Cinara afirma que falava sobre a sobrinha frequentar demais a casa do religioso: “A gente avisava, mas eu não tinha como sair do meu serviço para ir atrás dela”, continua.
Segundo a tia, ainda não há como estimar uma data para o velório e sepultamento de Miguel. “Ainda não liberaram o corpo, deve levar cerca de 20 a 30 dias para fazerem todos os exames e descobrirem a causa da morte.”
Como o bebê foi assassinado é um mistério a ser esclarecido pela Polícia, pois os quatro acusados não falaram nada sobre o que foi feito com Miguel, encontrado morto sobre os corpos da mãe e do amigo em uma vala.
Crime chocou a vizinhança
Vizinhos de Antunes e da família, que optaram por não serem identificados, comentam que jamais esperavam o acontecido. “Eu me dava bem com a mãe dele e com o marido dela [padrasto de Jocemar]. Nunca imaginava que ele pudesse fazer algo assim”, comenta um morador do bairro Santo Inácio, em Esteio.
Outro morador relata que já suspeitava do investigado antes, mas não imaginava a dimensão. “Um policial veio aqui e perguntou se a gente viu alguma atitude suspeita. Mas tudo era suspeito, eles faziam tudo escondido, a gente mal via. Então ele mostrou as fotos e disse ‘estamos procurando esse menino e essa menina’, e eu respondi ‘ah, eles, a gente via entrando de vez em quando’.”
O caso
Desaparecidos desde o domingo (20), Kauany, Miguel e Rosa tiveram os corpos encontrados na terça-feira (22) em uma cova localizada em uma área de mato de Esteio, com sinais de violência, inclusive uso de arma branca.

Foto: Polícia Civil
No mesmo dia, Antunes assumiu a autoria do crime à delegacia e não só deu detalhes do crime como apontou onde estavam os corpos. O triplo homicídio, cometido por ele e a esposa ainda teve apoio de dois adolescentes, de 15 e 17 anos, que ajudaram a ocultar os corpos das vítimas, cujas buscas iniciaram na segunda (21), após a tia de Kauany registrar o desaparecimento da jovem às autoridades.
Na quinta-feira, o caso teve uma reviravolta, e um dos meninos que vivia com o casal acusado do triplo assassinato passou a ser suspeito pela mentoria, o planejamento da execução das vítimas.
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De acordo com a delegada Marcela Smolenaars, ambos os garotos, que possuem um relacionamento afetivo, moram com Antunes, Belisia e a filha de 4 anos há pouco tempo.
Inicialmente, as autoridades acreditavam que o casal havia participado apenas na ocultação dos cadáveres. Mas após depoimento da mulher, a Polícia teve nova versão para analisar. Segundo a esposa de Antunes, ela descobriu a traição do companheiro e não conseguiu aceitar a relação extraconjugal com Kauany, que frequentava a residência do casal.

Foto: Imagem cedida/Polícia Civil
Ao perceber a insatisfação de Belisia, o jovem de 15 anos planejou o crime com ela, enquanto o companheiro, de 17, tinha conhecimento de tudo.
No domingo, enquanto bebia vinho dentro do carro de Antunes com as vítimas e o companheiro nas proximidades do Rio dos Sinos, o jovem de 15 anos pediu um motorista de aplicativo para Belisia, que, ao chegar ao local por volta das 22h30, retirou Kauany do veículo do marido e a esfaqueou.
A agressora chegou a ficar com uma lesão no rosto em função do confronto com a vítima. “Jocemar, vendo a cena, acabou matando Ariel para preservar a esposa, porque ele estava pedindo por socorro”, explicou a delegada. Na sequência, Belisia teria descartado as facas usadas contra as vítimas em um matagal.
Revolta popular e prisões
Após o caso vir a público nas redes sociais, populares atearam fogo em parte da residência da família de Antunes e do local onde ele tinha seus pertences religiosos. A esposa dele, temendo pela própria segurança e da filha de 4 anos do casal, decidiu se apresentar e confessar sua participação no crime.
Antunes foi preso em flagrante ainda na terça-feira, e teve a prisão convertida em preventiva na quarta (23). Belisia teve a prisão decretada na quinta-feira (24). Já os adolescentes tiveram a internação provisória na noite de quarta (23).
Embora a informação que veio a público desse conta de que Antunes era pai de santo, em seu perfil de Facebook ele se autointitula como cacique. Representantes do povo de matriz africana entraram em contato com as autoridades nesta semana e informaram que Antunes não tinha os requisitos, ou seja, não era reconhecido oficialmente como pai de santo. Para o diretor da 3ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana (DPRM), o delegado Cristiano Reschke, isso configura como “mais uma fraude” praticada por ele.
A motivação
Conforme a delegada, na terça-feira, policiais foram diretamente na casa do principal suspeito em buscas de informações. Após se contradizer, Antunes acabou confessando o assassinato das vítimas. Ele seria o pai do bebê de 2 meses e teria tido relações sexuais com Kauany quando a jovem ainda era adolescente.
Além do nascimento do filho indesejado, a Polícia indica que o crime teria sido cometido por ciúmes da companheira, além do medo de que ele perdesse o suposto posto de líder religioso na localidade em função do envolvimento com a jovem, que frequentava a casa.
“Ela [Kauany] vinha fazendo ameaças constantes de que iria contar a verdade a todos nas últimas semanas”, disse Reschke.