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PREÇO DA PASSAGEM

Entre tarifa zero e subsídio, cidades adotam modelos distintos para manter ônibus à população

Levantamento mostra quanto municípios investem para manter o transporte coletivo, em um cenário de alta de custos e impactos na operação

Dário Gonçalves
Publicado em: 17/04/2026 às 07h:00 Última atualização: 16/04/2026 às 20h:33
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A alta no preço do óleo diesel, causada pelo conflito no Oriente Médio, já impactou o transporte coletivo em cidades da região. Em alguns municípios, houve redução de horários e ajustes em itinerários para manter a operação diante do aumento dos custos, enquanto outros seguem em alerta para possíveis mudanças.

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Por trás dessas decisões, está uma conta que nem sempre aparece para o passageiro. O valor pago “na catraca”, muitas vezes, não cobre o custo real do sistema e a diferença acaba sendo bancada, total ou parcialmente, pelas prefeituras.

Tarifa Zero em Parobé existe há quatro anos | abc+



Tarifa Zero em Parobé existe há quatro anos

Foto: Prefeitura de Parobé/Divulgação

Mas afinal, quanto os municípios da região investem para manter o transporte público funcionando?

O cenário é diverso. Há cidades que adotam tarifa zero, onde o usuário não paga pela passagem, enquanto em outros casos não há subsídio direto ao sistema — e há ainda municípios sem operação de transporte coletivo urbano.

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Transporte gratuito avança na região

Entre os municípios da região, há casos em que o transporte coletivo deixou de ser custeado pelo passageiro e passou a ser integralmente financiado pelo poder público. Cidades como Canoas, Parobé e Portão adotaram o modelo de tarifa zero, em que o usuário não paga pela passagem e o sistema é mantido com recursos municipais.

Em Canoas, a política de passe livre foi transformada em permanente após decreto assinado em fevereiro deste ano pelo prefeito Airton Souza (PL). A gratuidade havia sido implantada ainda em 2024, em razão das enchentes, e vinha sendo prorrogada até se tornar definitiva. Com isso, o município passou a ser o maior do Rio Grande do Sul em números de habitantes e a segunda maior do Brasil a adotar o modelo de forma universal.

“Canoas dá um passo histórico. O Passe Livre se transforma em uma política pública definitiva. Estamos falando de milhares de pessoas que voltaram a circular pela cidade, a acessar oportunidades, a buscar emprego, saúde e educação sem que o custo da passagem seja uma barreira”, afirmou o prefeito.

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Mesmo com a tarifa zerada para o usuário, o sistema segue baseado em cálculo técnico. Segundo a Secretaria de Mobilidade Urbana, a tarifa técnica atual é de R$ 4,70, valor utilizado como referência para o subsídio pago conforme o número de passageiros transportados. “Mais do que garantir gratuidade, estamos organizando um sistema sustentável, que assegura acesso universal e planejamento de longo prazo para o transporte coletivo de Canoas”, explicou o secretário Marcos Melchior.

O município registrou mais de 1,4 milhão de utilizações mensais no segundo semestre de 2025, 71,2% a mais que o registrado entre novembro de 2024 e abril de 2025, quando a média era de cerca de 850 mil passageiros. Apesar da pressão nos custos, especialmente com o diesel, não houve necessidade de redução de linhas até o momento.

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Em Parobé, o transporte coletivo também é integralmente subsidiado. Implantado em março de 2022, o programa Tarifa Zero atende cerca de 20 mil passageiros por mês. O município repassa aproximadamente R$ 120 mil mensais ao sistema, com pagamento calculado por quilômetro rodado (R$ 10,18/km).

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Para o prefeito Gilberto Gomes (PDT), a política vai além da mobilidade e tem impacto direto no acesso a serviços e na economia local. “É oportunidade, dignidade e desenvolvimento. Quando garantimos que as pessoas possam se deslocar sem custo e com um transporte público de qualidade, estamos abrindo portas para o emprego, para a educação, para o acesso à saúde e para o fortalecimento do nosso comércio local. O Tarifa Zero é, hoje, um dos grandes orgulhos de Parobé.”

Já em Portão, o modelo de gratuidade foi implementado de forma gradual, começando pelo transporte rural, em 2022, e ampliado para o urbano em agosto de 2025. Atualmente, o município subsidia 100% do sistema, com investimento mensal que soma pouco mais de R$ 39 mil entre as duas modalidades. Cerca de 3,7 mil passageiros utilizam o serviço por mês.

Em Portão, passageiros também não pagam passagens | abc+



Em Portão, passageiros também não pagam passagens

Foto: Divulgação

De acordo com o gerente de Trânsito e Frota, Mário Sérgio Stroher Padilha, a iniciativa amplia o acesso da população ao deslocamento diário e reduz barreiras para trabalho, estudo e serviços. “Pagamos R$ 7,49 o km rodado no tarifa zero urbano e R$ 10,27 o km rodado do tarifa rural. O Tarifa Zero representa um avanço significativo para Portão, trazendo impactos positivos não apenas na mobilidade urbana, mas também no desenvolvimento social e econômico da cidade. O transporte deixa de ser um obstáculo e passa a ser um direito acessível a todos”, destaca Padilha.

Conta dividida com o usuário

Se em alguns municípios o custo do transporte é integralmente bancado pelo poder público, em outros a conta é compartilhada com o usuário. É o caso de Novo Hamburgo, onde a tarifa paga na catraca representa pouco mais da metade do valor real do sistema.

Atualmente, o município subsidia cerca de 42,4% da tarifa técnica, o que permite manter o valor da passagem em R$ 5,20. Sem esse aporte, o custo real por usuário seria de R$ 9,04. 

Criado após a enchente de 2024, o modelo tem como objetivo conter o impacto no bolso dos usuários, especialmente de quem depende do transporte diariamente. “Esse é o compromisso do Município: garantir que a tarifa não pese no bolso de quem depende do ônibus”, afirma o prefeito Gustavo Finck (PP).

Recentemente, Novo Hamburgo recebeu cinco novos ônibus | abc+



Recentemente, Novo Hamburgo recebeu cinco novos ônibus

Foto: Ramon Belmonte/PMNH

O sistema transporta, em média, cerca de 303 mil passageiros por mês e, em dias úteis, atende mais de 20 mil usuários, com uma operação que percorre entre 14 mil e 15 mil quilômetros diariamente. O valor do subsídio varia conforme a demanda e outros custos operacionais, mas girou em torno de R$ 1 milhão por mês ao longo de 2025.

Diante da alta no custo dos combustíveis, o município também precisou adotar medidas operacionais. Desde março, a Prefeitura alterou a grade de horários do transporte coletivo aos sábados e domingos, com redução de viagens em períodos de menor demanda, como forma de garantir a manutenção do serviço ao longo da semana.

Já em São Leopoldo, o modelo é diferente. O município afirma que não realiza subsídio direto ao transporte coletivo, mas adota medidas que impactam o equilíbrio financeiro do sistema.

O contrato com o Consórcio Operacional Leopoldense (Coleo), firmado em 2011, previa o repasse anual de R$ 200 mil ao município por parte da concessionária — atualmente corrigido para cerca de R$ 584 mil por ano. A atual gestão, no entanto, optou por isentar essa cobrança, o que, na prática, representa um alívio financeiro para a operação.

O sistema transporta cerca de 500 mil passageiros por mês. A tarifa vigente é de R$ 5,85, enquanto a tarifa técnica apresentada pela concessionária é de R$ 7,74, valor que ainda está em análise pela Prefeitura.

E assim como em outras cidades da região, o impacto do diesel também chegou à operação. No mês passado, o transporte coletivo passou por restrições, com redução de horários fora dos períodos de maior demanda e ajustes para evitar a paralisação do serviço. Em um dos momentos mais críticos, houve redução da frota aos sábados e suspensão total da circulação de ônibus em um domingo.

Subsídios variam e chegam a mais de 70% da tarifa

Além dos modelos de tarifa zero e de subsídio parcial nas principais cidades de cobertura do Grupo Sinos, outros municípios da região também mantêm aportes ao transporte coletivo, com formatos e valores variados.

Em Campo Bom, o subsídio tem papel central na sustentação do sistema. Com tarifa técnica fixada em R$ 14,21 e valor pago pelo usuário em R$ 3,90 (porém deverá sofrer atualização nos próximos meses), o município cobre cerca de 72,5% do custo nas passagens integrais. O índice é ainda maior em outros perfis: chega a 86,3% para meia passagem e a 100% nos casos de usuários isentos. Na prática, isso representa um subsídio de R$ 10,31 por usuário pagante.

O modelo adotado considera a quilometragem rodada — pouco mais de 25 mil quilômetros mensais — multiplicada pelo valor por quilômetro, com abatimento da arrecadação das passagens. O repasse mensal gira em torno de R$ 90 mil, conforme a demanda de cerca de 30 mil passageiros.

Segundo o secretário de Segurança e Trânsito, Fernando Lehnen, o subsídio, implantado ainda em 2019 e ampliado no pós-pandemia, tornou-se essencial para a manutenção do serviço diante do aumento dos custos operacionais. “A tarifa técnica atual é de R$ 14,21, entretanto ela também sofrerá reajustes em face da reoneração tributária da folha de pagamento das empresas de transporte público e dos efeitos do preço do diesel”, alerta.

Em Montenegro, o município também mantém subsídio, embora em menor proporção. Desde 2023, o aporte público cobre cerca de 31,5% do valor da tarifa, o que representa R$ 2,25 por passagem. Com isso, a tarifa ao usuário é mantida em R$ 5,00 para as linhas urbanas e interioranas e de R$ 6,00 para o serviço seletivo, frente a um custo real de R$ 7,14.

O sistema transporta, em média, 108 mil passageiros por mês, com repasse mensal aproximado de R$ 242 mil. Mesmo com a alta recente do diesel, a Prefeitura afirma que não houve necessidade de reduzir linhas ou alterar itinerários, mantendo a operação integral. “Essa medida é considerada extrema e poderia causar prejuízos significativos aos usuários e impactos diretos na atividade econômica local”, informa a Prefeitura.

Já em Sapucaia do Sul, o subsídio cobre cerca de 44% do custo da passagem. O aporte é de aproximadamente R$ 2,20 por usuário, com investimento mensal na faixa de R$ 400 mil. A tarifa paga atualmente é de R$ 5,00, enquanto o custo real do sistema chega a R$ 7,20. O modelo está em vigor desde 2020 e atende cerca de 300 mil passageiros por mês.

Em Sapiranga, o subsídio não é calculado em percentual fixo, mas sim como complemento à operação, baseado na quilometragem rodada e na arrecadação tarifária. O valor mensal varia entre R$ 150 mil e R$ 190 mil, conforme o desempenho do sistema. A tarifa ao usuário está mantida em R$ 4,00 desde 2020, enquanto o custo real por passageiro gira em torno de R$ 13,00. O sistema atende entre 22 mil e 25 mil passageiros por mês e é operado pela empresa Expresso Charqueadas.

Situação semelhante é observada em Taquara, onde o subsídio também é variável e vinculado ao equilíbrio econômico-financeiro do contrato. Previsto em lei municipal desde 2022, o aporte cobre a diferença entre a tarifa técnica e a tarifa pública, sem percentual fixo definido. Em março, o sistema transportou pouco mais de 11 mil passageiros. O valor pago pelo usuário é de R$ 3,95, enquanto o custo por passageiro foi estimado em cerca de R$ 8,79 na apuração mais recente.

Já em São Sebastião do Caí, o subsídio é definido por valor fixo por passagem: R$ 3,55. O repasse mensal varia conforme a demanda, com limite de até R$ 63 mil estabelecido em lei municipal. Em março, o sistema registrou mais de 22 mil passageiros, que pagam valores distintos, conforme o bairro. O modelo atual passou a vigorar em 2024, quando o município assumiu diretamente o financiamento do subsídio.

Cidades fora do modelo

Nem todos os municípios da região adotam subsídios ao transporte coletivo — e, em alguns casos, o serviço sequer está disponível à população. Em Igrejinha, por exemplo, não há sistema de transporte coletivo urbano em funcionamento. Já em Ivoti, Dois Irmãos e Estância Velha, embora exista operação, não há subsídio público ao serviço.

Em comum, porém, está o desafio de manter o equilíbrio entre custo, acesso e sustentabilidade do serviço, especialmente diante da pressão de despesas como o óleo diesel — fator que, nos últimos meses, já começou a impactar a operação em diferentes municípios.

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