Cansados de esperar por soluções do Governo do Estado, municípios e hospitais da Região 7 de Saúde decidiram agir por conta própria diante da crise que se agrava nos atendimentos de alta complexidade. A demora em retornos de protocolos encaminhados à Secretaria Estadual da Saúde, falhas na regulação, dificuldades com o Samu, judicialização de atendimentos e a defasagem da tabela do SUS são alguns dos problemas citados e que vêm pressionando as prefeituras e instituições hospitalares da região.

Foto: Amvag/Divulgação
O cenário foi discutido na quinta-feira (9) durante um encontro promovido pela Associação dos Municípios do Vale Germânico (Amvag), na Universidade Feevale, em Novo Hamburgo. O objetivo é que o Estado resolva a fila de espera de alta complexidade que, segundo a Amvag, só aumenta. Dessa forma, os envolvidos cobram da Secretaria Estadual da Saúde mais recursos nos hospitais que são referências de atendimento para a região e, assim, começar a diminuir a fila ou ampliar a rede de referência das especialidades.
O movimento foi considerado um gesto inédito de união entre prefeituras e hospitais, que hoje enfrentam sobrecarga no atendimento e desequilíbrio financeiro. “Os hospitais referenciados e que recebem recursos do Estado para prestar serviços para nossa região, por uma série de motivos não estão dando conta de atender a demanda. Precisamos de soluções. Quem sabe o caminho seja investir nos hospitais daqui da região para que eles assumam o atendimento dentro de suas potencialidades”, afirmou o presidente da Amvag e prefeito de Lindolfo Collor, Gaspar Behne, que já havia discutido o tema com a secretária estadual da Saúde, Arita Bergmann, durante visita à região em agosto.
Rede sobrecarregada
Entre os pontos mais críticos relatados estão a falta de regulação em especialidades como traumatologia, neurologia, oncologia, otorrino e oftalmologia — hoje atendidas em cidades como Canoas, Porto Alegre, Parobé, Taquara e Igrejinha —, o baixo repasse financeiro do SUS, e a ausência de remuneração pelos atendimentos que ultrapassam o teto contratualizado.

Foto: Amvag/Divulgação
“Para não penalizar a comunidade, as prefeituras acabam pagando pelos serviços e comprometendo cada vez mais o orçamento. Algumas investem em Saúde mais do que o dobro do exigido por lei”, alertou o prefeito de Dois Irmãos, Jerri Meneghetti, ponderando que os Municípios não têm mais condições de pagar a conta e quem sofre é a comunidade com a fila de espera
A percepção é compartilhada pelo prefeito de Ivoti, Valdir Ludwig, que presidiu a reunião ao lado de Meneghetti. Ele defende que o Estado assuma a parte que lhe cabe no financiamento da saúde pública. “A atenção básica, de responsabilidade dos municípios, é oferecida com excelência. Mas, fora dela, os pacientes ficam à deriva. Precisamos de equilíbrio na rede e de uma atuação mais efetiva do Estado naquilo que é sua competência”, disse, lembrando que há uma expectativa pelo SUS Gaúcho, mas que a região precisa de soluções imediatas para os problemas.
Mapeamento e novas cobranças ao Estado
Como encaminhamento, os secretários municipais e gestores hospitalares receberam um questionário técnico para mapear a situação da Região 7, com informações sobre leitos de retaguarda, casos não regulados, capacidade instalada e volume de atendimentos. Os dados servirão de base para um novo ofício ao Governo do Estado, com pedido de medidas concretas e repactuação dos serviços.
A demanda reprimida, segundo a Amvag, ultrapassa 40 mil consultas e exames entre os municípios da Associação. A expectativa é que a força-tarefa regional acelere a articulação local enquanto o governo não apresenta respostas definitivas sobre o estudo técnico que está em análise no Departamento de Gestão e Atenção Especializada (DGAE) desde setembro.
Presenças e cooperação inédita
O encontro reuniu prefeitos, secretários de saúde e representantes hospitalares de praticamente todos os municípios da Região 7. Estiveram representados os hospitais Lauro Reus (Campo Bom), São José (Dois Irmãos), São José (Ivoti), Fundação de Saúde de Novo Hamburgo, Hospital de Sapiranga, Hospital de Estância Velha e Hospital de Portão, que, embora fora da Amvag, integra a R7 e passará a participar das próximas reuniões. O único hospital da região ausente foi o Centenário, de São Leopoldo.

Foto: Amvag/Divulgação
A mobilização atual tem origem em uma audiência com a secretária estadual Arita Bergmann, em 13 de agosto, quando os prefeitos da Amvag cobraram soluções para o desequilíbrio na alta complexidade. Na ocasião, Arita sugeriu uma reunião técnica entre os municípios e a coordenação da Região 7 para discutir novos referenciamentos e repactuações, encontro que ainda não foi realizado.
Enquanto isso, a pressão sobre os serviços regionais só cresce. “O que vimos foi uma demonstração de maturidade e união. Precisamos caminhar juntos para encontrar soluções que fortaleçam nossa rede e deem respostas à comunidade”, concluiu o prefeito Jerri Meneghetti.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria Estadual da Saúde, mas até o momento da publicação desta matéria ainda não havia se manifestado.
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