Só é possível seguir em frente quando se volta à rotina. Foi assim que a autônoma Lúcia Correa, 64 anos, retornou para a sua casa no bairro Mathias Velho, meses depois da enchente que devastou Canoas em maio de 2024. A lembrança de dois anos atrás continua viva na memória.
“Foi uma data bem marcante para mim porque eu sai de casa no dia do meu aniversário, dia 3 de maio, para ir pro meu filho lá no Harmonia. A gente ia comemorar e só sai com a roupa do corpo. Quando foi 20 horas, o pessoal começou a avisar que a água estava subindo”, relata.
A casa na Rua Encantado foi atingida pela água e levou meses para a moradora conseguir recuperar o que foi perdido. “A gente foi voltando aos poucos, aí compra uma coisinha ali, compra outra aqui. Hoje eu tenho o básico”, conta.

Foto: Nicole Goulart/Especial
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Lúcia voltou, mas o bairro ainda não é o mesmo. Onde tinha vida, trabalho, convivência e movimento, hoje tem abandono, entulho, marcas d’água e lentidão.
A menos de dois quilômetros de distância de sua casa, o Hospital de Pronto Socorro de Canoas (HPSC) segue fechado e com uma previsão de abertura somente em 2027.
A sorte é que o hospital está em obras porque outros prédios importantes seguem sem intervenções, como o Centro Social Urbano Mathias Velho, o quartel do Corpo de Bombeiros e o Colégio Estadual Tereza Francescutti – um perto do outro. Já no bairro Fátima, a escola municipal Ledevino Piccinini vive a mesma realidade.
Além de Canoas, outras cidades da região como São Leopoldo e Novo Hamburgo também possuem histórias assim para contar.
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O que não voltou faz falta
O bairro Mathias Velho concentra quatro de cinco espaços que permanecem sem perspectiva de reabertura para a comunidade.
Um dos mais emblemáticos, e mais cobrados, é o Hospital de Pronto Socorro de Canoas (HPSC), na Rua Caçapava, 100. As obras iniciadas ainda em dezembro de 2024 estão menos de 10% concluídas.

Foto: Paulo Pires/GES
A falta do hospital prejudica o sistema de saúde da cidade, já que o HPSC é uma referência em casos de emergência para Canoas e mais de 100 cidades da região.
Na quarta-feira (22), foi feita a audiência do pregão eletrônico para a reforma do segundo andar do hospital. A empresa Avanço Construções LTDA, de Santa Catarina, foi a melhor classificada na disputa. A proposta de R$ 8,4 milhões aguarda homologação.
As obras estão previstas para durar 12 meses. No entanto, ainda não há previsão de quando serão iniciadas. Após a reestruturação do hospital, ainda serão necessários a colocação dos equipamentos e vistoriais.
O hospital deve ser entregue em 2027, segundo última previsão dada pela Prefeitura de Canoas. A conclusão está “condicionada à continuidade dos trâmites e à liberação de recursos federais do Ministério da Saúde”.
Tudo parado
A uma distância de 600 metros do hospital, outro espaço que segue fechado é o posto do 8º Batalhão do Corpo de Bombeiros. A reconstrução da sede no endereço na Avenida Rio Grande do Sul, 1830, ainda não possui prazo.

Foto: Paulo Pires/GES
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Em agosto de 2025, uma empresa foi contratada pelo batalhão para fazer a sondagem do terreno. O prazo de entrega do serviço era de 30 dias. Não há definição sobre licitação para a execução da obra.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP), a reforma do grupamento terá investimento de ordem de R$ 2 milhões com recursos do Fundo Municipal de Reequipamento de Bombeiros (Funrebom) de Canoas. “O processo licitatório está sendo conduzido pela Prefeitura, com apoio do CBMRS”, afirma.
No terreno ao lado, no número 1790, está o Centro Social Urbano (CSU) Mathias Velho. O que um dia foi referência para a prática de esportes e eventos culturais, hoje está abandonado. Não somente isso: entrou na rota do policiamento devido à presença de usuários de drogas.
“O centro social era é uma referência aqui. Meus meninos, que agora já tão moço, faziam escolinha de futebol ali e a gente fez ginástica. Tinha o Corpo de Bombeiros também. Eu gostaria que eles olhassem para essas coisas que são importantes pro bairro”, desabafa Lúcia.
De acordo com a Prefeitura de Canoas, o prédio deverá ser demolido em razão do comprometimento da estrutura. “No momento, para viabilizar a intervenção estamos em fase de captação de recursos, junto às esferas competentes e iniciando a elaboração de levantamentos e estudos necessários ao desenvolvimento dos projetos executivos”, destaca em nota.
Alunos realocados
Mais adiante na avenida, o Colégio Estadual Tereza Francescutti permanece fechado desde maio de 2024. A estrutura no número 3430 está comprometida e deve ser demolida. Mas quase dois anos depois da enchente, o projeto executivo da obra ainda não entrou em licitação.

Foto: Paulo Pires/GES
No mês de março, a Secretaria Estadual de Obras Públicas (SOP) homologou a contratação de uma empresa para fazer a Sondagem Geotécnica (SPT) no terreno do colégio. O serviço faz parte da fase de estudos e deve ser desenvolvido dentro de 30 dias.
O Tereza, como é conhecido, recebia cerca de 600 alunos, entre turmas de ensino fundamental, ensino médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA). Até hoje eles estão realocados no primeiro piso da Escola Estadual de Ensino Médio São Francisco de Assis, a 850 metros de distância.
Outra instituição que ainda não retornou é a Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Ledevino Piccinini, no bairro Fátima. Uma reforma chegou a ser entregue à comunidade escolar em dezembro de 2024, mas a escola não abriu as portas no ano letivo de 2025 e permanece fechada em 2026. Os alunos foram remanejados para outras escolas.
No dia 9 de abril, a Prefeitura de Canoas homologou a empresa vencedora de uma licitação para recuperar as estruturas da Emei. A reforma tem valor de R$ 2,09 milhões e deve ser feita em cinco meses. O contrato e a ordem de início dos serviços ainda não foram assinados.
“A intervenção é necessária em função dos danos causados pela enchente de maio de 2024, que comprometeu significativamente a edificação, especialmente os sistemas construtivos que serão integralmente substituídos. A reabertura da unidade está estimada para meados de 2026, condicionada ao cumprimento integral do cronograma físico-financeiro”, informa em nota.